Veneza, dia 7: uma lição histórica humanista
O êxodo da população portuguesa durante a invasão francesa é dramatizado em "As Linhas de Wellington".

AS LINHAS DE WELLINGTON, de Valeria Sarmiento  

Veneza, dia 7: uma lição histórica humanista

A viúva de Raúl Ruiz realiza um filme histórico com fôlego artístico. A produção de Paulo Branco tem condições para repetir o sucesso de "Mistérios de Lisboa", a derradeira obra do cineasta chileno.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Veneza, dia 7: uma lição histórica humanista
Linhas de Wellington Em 27 de Setembro de 1810, as tropas francesas comandadas pelo marechal Massena, são derrotadas na Serra do Buçaco pelo exército anglo-português do general Wellington. Apesar da vitória, portugueses e ingleses retiram-se a marchas forçadas diante do inimigo, numericamente superior, com o objectivo de o atrair a Torres Vedras, onde Wellington fez construir linhas fortificadas dificilmente ...
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Veneza dia 7 - A estreia mundial de "As Linhas de Wellington"

Um retrato amplo do êxodo da população desde a serra do Buçaco até Torres Vedras, durante a ocupação francesa de Portugal, no século XIX, é o que nos propõe Valeria Sarmiento na reconstituição deste período histórico.

"As Linhas de Wellington" é uma produção de época ambiciosa que evita as dificuldades de reconstituir as grandes batalhas através de um argumento onde Carlos Saboga valorizou uma série de figuras populares que integram o grande comboio humano em fuga, secundarizando os dois oficiais que protagonizaram o episódio decisivo da guerra peninsular, o general Wellington (John Malkovich) que organizou a resistência luso-britânica, e o comandante Massena (Melvil Poupaud), que liderou as tropas napoleónicas.

O filme oferece uma perspetiva original sobre um momento histórico pouco evocado na dramaturgia portuguesa, graças a uma dimensão coral que é suportada pelo encadeamento de diversas histórias protagonizadas por duas dezenas de personagens igualmente importantes.

A narrativa mais humana, menos centrada das questões do conflito, torna o filme abrangente e favorece as pretensões de Paulo Branco, que ambiciona uma distribuição internacional semelhante à que obteve com "Mistérios de Lisboa", realizado pelo falecido Raúl Ruiz. O prestígio da produção está assegurado através da presença de uma série de estrelas internacionais, em pequenos e decisivos papéis, como Isabelle Huppert, Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Michel Piccoli, além de Malkovich e Poupaud...

Ao lado destes grandes talentos, reunidos em derradeira homenagem a Ruiz, aparecem, em ótimo plano, uma série de atores mais novos e portugueses, destacando-se Albano Jerónimo, como um padre vilão, Carloto Cotta, interpretando um soldado ferido, Nuno Lopes, no papel de um oficial português, Victória Guerra e Jasmina West desempenhando duas inglesas apanhadas na frente de batalha.

"As Linhas de Wellington" tende a ser visto como o filme que Ruiz não filmou. Foi a chilena Valeria Sarmiento, viúva e companheira de montagem de diversos dos seus filmes, que dirigiu a rodagem, de uma forma efetiva e ligando bem os diversos episódios. Com Ruiz poderíamos ter alguns momentos com movimentos de câmara visualmente mais poéticos e com outra respiração visual que por vezes falta ao filme, ou algumas cenas em espaços confinados e recorrendo a planos fechados.

Nao é uma obra visionária , mas trata-se de uma produção com enorme fôlego artístico, semelhante ao de "Mistérios de Lisboa", servida por uma narrativa romanesca que permite dramatizar uma lição em torno de um episódio histórico e reconstituir um período da vida no século XIX em Portugal.

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publicado 18:27 - 04 setembro '12

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