Veneza, dia 8: um corpo incómodo

Veneza 2010  

Veneza, dia 8: um corpo incómodo

Um filme sobre a vénus negra provoca uma reflexão pertinente sobre a exploração do corpo humano

O realizador franco-tunisino Abdelatif Kechiche ressurge em Veneza com um fresco histórico sobre a Vénus Hottentote, uma sul-africana que foi exibida na Europa, durante o Século XVIII, como uma bizarria.

Sartjie Baartman participava em espectáculos de circo em Londres onde surgia como um ser tribal feroz, sendo domada em palco por um afrikaner que a trouxe da Cidade do Cabo. Posteriormente foi exibida em festas fetichistas nos salões parisienses e estudada pelos naturalistas franceses.

Sartjie consentiu em participar nos espectáculos e demonstrações, mas revelava um pudor em mostrar os orgãos genitais ou em ser apalpada. Só que a plateia tinha interesse nas nádegas enormes e nos orgãos genitais proeminentes.

"Vénus Negra" reflecte sobre a relação com corpo que é exibido enquanto objecto exótico e erótico, seja num espectáculo de entretenimento ou numa festa particular fétichista. E estabelece um arco temporal notável ao salientar que a réplica desse corpo e os restos mortais de Sartjie permaneceram em exibição cientifíca no Museu de História Natural de Paris até 1985, e só foram devolvidos em 2002 às autoridades sul africanas.

É uma história demasiado presente e o próprio filme desafia a curiosidade e testa a repulsa do espectador ao prolongar a relação com esse corpo. Foi recebido no festival com a estranheza que é dedicada aos filmes incómodos. 

Três anos depois de ter recebido o Prémio Especial do Júri com "O Segredo do Cuscuz", o cineasta Abdelatif Kechiche volta a ser um nome a equacionar nos palmarés de Veneza.


>Ouça a crítica de Tiago Alves



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publicado 09:58 - 18 janeiro '11

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