Viagem ao interior da Roménia
Cristian Mungiu continua a filmar as zonas mais íntimas do seu próprio pais

Cannes 2012  

Viagem ao interior da Roménia

Depois de ter ganho a Palma de Ouro com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", em 2007, o romeno Cristian Mungiu volta a Cannes com um grande acontecimento de cinema: "Beyond the Hills" mergulha nas sombras da religião.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Viagem ao interior da Roménia
Beyond the Hills Alina regressa da Alemanha para trazer Voichita - uma jovem com quem partilhou o orfanato, a única pessoa que ama e por quem foi amada neste mundo - de volta para ela. Mas Voichita encontrou Deus num convento na Roménia e recusa-se a deixá-Lo pela sua amiga. É assim que Alina descobre que Deus é o amante mais difícil de quem ter ciúmes...
Média Cinemax:
2.833

De que falamos quando falamos de crença religiosa? De que modo essa crença é uma forma de acesso à verdade, ou antes um método de teatralização do próprio conceito de verdade?

Digamos que não são perguntas simples. E para as quais não existem respostas automáticas ou definitivas, muito menos universais. Digamos também, por isso mesmo, que o novo filme de Cristian Mungiu (vencedor da Palma de Ouro em 2007, com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias") não pode ser reduzido a um panfleto "pró" ou "contra" a religião: "Beyond the Hills" ("Para além das Colinas") é um mergulho brutal numa realidade cuja complexidade desafia qualquer visão banalmente apaziguadora ou moralista.

Em termos tão simples quanto possível, lembremos que se trata de uma história que tem por cenário essencial um convento Ortodoxo, algures numa zona rural da Roménia. Uma das noviças recebe a visita da sua maior amiga (que passou um tempo a trabalhar na Alemanha), daí nascendo uma situação de crescente instabilidade: o Padre e a Madre que gerem o convento vêem na amiga uma "inimiga" da fé e marginalizam-na, a ponto de, literalmente, a encarcerarem.

Mais do que um mero problema de crença (quem acredita, quem não acredita...), Mungiu filma os modos de vivência da verdade (onde está a verdade, quem a diz ou pode dizer?...). E também os mecanismos de censura e repressão que a tais modos podem estar associados. É um caso impressionante de um trabalho capaz de, no limite, desafiar a visão do mundo que se constrói para além do filme, no olhar do próprio espectador.

Escusado será dizer que, tal como em "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", Mungiu nunca perde de vista a pulsaçao mais íntima da sociedade romena. Nesta perspectiva, o seu filme pode ser definido como uma parabola, paradoxalmente realista, sobre um país marcado por uma história densa e perturbante, à procura da sua própria identidade.

Em termos ainda mais simples (e aconteça o que acontecer até final do certame): "Beyond the Hills" é, sem qualquer hesitação, um dos filmes maiores da 65ª edição do Festival de Cannes.

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publicado 23:48 - 19 maio '12

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