Clássicos  

Vida e morte do Poeta

Os clássicos do cinema francês continuam a ser destaque incontornável da temporada de Verão — esta semana, Jean Cocteau ressurge no seu registo perversamente auto-biográfico, com " O Testamento de Orfeu".

Vida e morte do Poeta
Jean Cocteau em "O Testamento de Orfeu": a arte é um jogo de espelhos
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Não tenhamos ilusões: hoje em dia, "O Testamento de Orfeu" (1960) pode estar condenado a uma bizarra marginalidade de filme maldito. Perante um público (des)educado a associar o poder transfigurador do cinema aos efeitos especiais de super-heróis e afins, o artifício visceralmente poético do trabalho de Jean Cocteau (1889-1963) corre o risco de ser rejeitado de forma brusca, automática, sem direito à sua diferença.

De acordo com outro ponto de vista (... mas não será o mesmo?), "O Testamento de Orfeu" é mais um dos grandes acontecimentos deste Verão de reposições, permitindo-nos aceder a um singularíssimo universo em que o gosto especulativo do cinema nunca foi estranho à vontade de definir uma espécie de auto-biografia delirada, paradoxalmente próxima das convulsões da existência — como sublinhava o trailer original de "O Testamento de Orfeu", este era um filme em que ecoavam os títulos anteriores de Cocteau, incluindo os lendários "A Bela e o Monstro" (1946) e "Orfeu" (1950).
 

Dir-se-ia que Cocteau, encenado com os seus olhos artificiais, sentiu a necessidade de reassumir a personagem do "Poeta" para elaborar uma espécie de crónica de vida e morte. O impulso auto-biográfico apresenta-se, assim, como um método de reescrita & reencenação dos temas e obsessões de uma obra consagrada às máscaras da existência — em Cocteau, literal ou simbolicamente, tudo é espelho e jogo de espelhos.
 
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"O Testamento de Orfeu" é mais um momento fundamental na notável temporada de reposições de clássicos do cinema francês, a decorrer até 3 de Outubro. Assim, para além de Cocteau, a partir desta semana podemos ver ou rever:
— O MEU PAI TINHA RAZÃO (1936): exemplo cristalino da arte de outro grande formalista, Sacha Guitry (1885-1957), num registo de drama familiar que integra sempre o requinte de uma ironia cruel, não poucas vezes à beira da paródia.
— O ÚLTIMO GOLPE (1954): este é o célebre "Touchez pas au Grisbi", com que Jacques Becker (1906-1960) sistematizou as regras e nuances de um policial genuinamente à la française. Aqui encontramos a quase principiante Jeanne Moreau, contracenando com Jean Gabin, um dos monstros sagrados da época.
— O CARTEIRISTA (1959): contemporâneo da eclosão da Nova Vaga, "Pickpocket" era, afinal, uma síntese admirável da austeridade da visão de Robert Bresson (1901-1999) ou, mais precisamente, do seu cinematógrafo (a palavra é dele, mais tarde consagrada no livro "Notas sobre o Cinematógrafo", de 1975). A história do homem que rouba é, acima de tudo, uma trágica deambulação em torno da hipótese de redenção [video: cena de abertura].

Crítica de João Lopes actualizado às 23:22 - 24 agosto '18
publicado 23:39 - 23 agosto '18

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