Viva o circo!
Jacques Rivette e Sergio Castellito:
um cinema saborosamente primitivo e poético

Mais CinemaCinema Europeu  

Viva o circo!

Jacques Rivette continua a filmar histórias exemplares sobre a verdade e a mentira: "36 Vistas do Monte Saint-Loup" propõe uma dessas histórias nos cenários de um circo ambulante que sobrevive no nosso presente.

No espectáculo, está na moda a tecnologia. E, em cinema, estão na moda os "efeitos especiais"... Há mesmo quem proclame os ditos efeitos como uma espécie de lei obrigatória do espectáculo. Ora, para Jacques Rivette, o espectáculo é o circo!

Dizer que "36 Vistas do Monte Saint-Loup" é uma defesa das virtudes tradicionais do circo será, apesar de tudo, uma banalidade. Para Rivette, não se trata de filmar o circo — mais concretamente, um circo ambulante na França contemporânea — como se fosse uma espécie de salvação do mundo do espectáculo. Nada disso. O que lhe interessa é algo ainda mais primitivo e, à sua maneira, mais poético: o circo é, afinal de contas, um espelho festivo das vidas daqueles que o protagonizam.

Daí que, como em quase todo o cinema de Rivette, tudo passe pelo esplendor do acaso. Ela (Jane Birkin) é uma designer de Paris que percorre as estradas do Languedoc para regressar, justamente, ao circo que abandonou há muitos anos; ele (Sergio Castellito) é um bem disposto italiano que a ajuda quando o carro dela se avaria. Para ambos, o circo vai ser também uma forma de redenção — diz-me as máscaras que usas, dir-te-ei quem és.

Desde os tempos heróicos da Nova Vaga francesa, com filmes sublimes como "A Religiosa" (1966) ou "O Amor Louco" (1969), Rivette tem sido um paciente retratista destes universos em que o logro ou, muito concretamente, a mentira pode funcionar como insólito caminho para a verdade. Na sua simplicidade, e também no seu discreto sentido de humor, "36 Vistas do Monte Saint-Loup" é um filme sobre a possibilidade da verdade — um dos maiores acontecimentos deste ano cinematográfico de 2010.

 


Poster de «36 Vistas do Monte Saint-Loup»


36 VISTAS DO MONTE SAINT-LOUP

Pouco antes de fazer uma digressão com o seu velho circo de província, o proprietário morre. Sem saber o que fazer, a companhia pede a Kate, a filha mais velha do falecido, para que regresse e tome as rédeas do negócio. Para satisfação de todos, ela decide aceitar o convite e, depois de 15 anos de ausência, regressar à vida circense.

De Jacques Rivette com Sergio Castellito, Jane Birkin, André Marcon; Comédia, Drama; 86m; M/12; FRA, ITA; 2009

>Ouça a crítica de João Lopes

por

Recomendamos: Veja mais Artigos de Mais CinemaCinema Europeu