Comunidade de Madrid pede ajuda "urgente" ao Governo central para enfrentar a pandemia

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Madrid é a comunidade espanhola mais afetada pela pandemia, com mais de 15 mil mortos e 180 mil casos confirmados EPA

O vice-presidente da comunidade de Madrid, Ignacio Aguado, enviou esta quinta-feira um apelo ao Governo espanhol para que se “envolva de forma convicta” no controlo da pandemia na região. A região anunciou medidas “mais drásticas” para travar o avanço da pandemia, como o “confinamento seletivo” nas áreas da cidade com uma maior incidência da pandemia.

“A situação pandémica em Madrid não vai bem. Está a piorar. Vamos precisar de fazer mais esforços”, admitiu Aguado, um dia depois de o executivo de Madrid ter estado envolvido em polémica ao anunciar confinamentos seletivos nas zonas mais afetadas da comunidade e negando, em seguida, esta mesma decisão.

“Estamos a tempo de conseguir controlar a situação, de poder controlar a curva [de novos casos], se formos capazes de uma trégua política. Precisamos de deixar de procurar culpados”, continuou a argumentar o vice-presidente da comunidade de Madrid, sublinhando que um maior envolvimento do Governo central “é necessário e urgente”. “É absolutamente impossível acabar com uma pandemia destas características apenas a partir do Governo regional”, considera Aguado.

Aguado comunicou esta decisão à presidente da comunidade autónoma, Isabel Díaz Ayuso, não esclarecendo, porém, se irá solicitar ao executivo de Pedro Sánchez a declaração de estado de emergência.

“É preciso fazer o que for preciso para controlar a situação em Madrid.
Quero deixar isso bem claro”, sublinhou o ministro da Saúde espanhol, Salvador Illa. “Este é o ponto chave”, concluiu. Madrid regista mais de 2700 doentes hospitalizados por Covid-19, dos quais 371 estão nos cuidados intensivos. A comunidade acumula mais de 15 mil mortos e 180 mil casos confirmados.

Para além de ser o centro da pandemia no país, Madrid é o coração da rede rodoviária e ferroviária, sede do principal aeroporto do país e o local de trabalho de milhares de habitantes de regiões vizinhas que diariamente se deslocam à região.

Por estes motivos, a evolução da pandemia na comunidade madrilena é uma questão nacional e levanta preocupações por parte de presidentes regionais, que consideram mesmo ser um risco para as restantes comunidades.

O presidente de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page, afirmou que 80 por cento dos casos diagnosticados na região são oriundos “da bomba radioativa viral que foi plantada em Madrid”. Tal como continua a defender García-Page, a evolução da pandemia nesta e restantes regiões vai depender, “sobretudo, do que está controlado ou descontrolado em Madrid”.
Mudança de estratégia
O apelo de Ignacio Aguado parece mesmo espelhar o que o próprio vice-presidente apelidou de “trégua política”. Por um lado a nível interno, porque toma a iniciativa de acordo com a presidente da comunidade de Madrid, a quem declarou prestar “todo o apoio”, tendo em conta que Díaz Ayuso é sua parceira governamental e sua rival eleitoral. Por outro lado, a nível externo, dado que rompe com meses de uma estratégia antagónica. A comunidade de Madrid passa, assim, de contestar muitas das medidas decretadas pelo executivo de Pedro Sánchez, nomeadamente o estado de emergência estabelecido de março a junho – argumentando que não permitira gerir a pandemia com autonomia – a solicitar agora a intervenção do Governo central na luta contra a pandemia.
Daniela Santiago, correspondente da RTP em Madrid 

Esta mudança drástica de estratégia não convence a presidente do partido político Vox na comunidade de Madrid. “O que eu vejo aqui é indecisão”, disse Rocío Monasterio, defendendo que o papel do Governo regional “é governar, não transferir responsabilidades para terceiros”.

Desde a declaração de estado de emergência e o confinamento na região ao uso da máscara, o executivo de Ayuso tem esbarrado com o Governo de Sánchez em quase todas as decisões e tem sido, por isso, alvo de contestação sobre a sua estratégia de controlo da pandemia. Na quarta-feira, a própria presidente da comunidade de Madrid admitiu não estar “orgulhosa de nada”.

Entre as principais controvérsias está a questão dos lares. Nos 710 centros de saúde social da comunidade de Madrid, seis mil pessoas morreram com Covid-19 ou sintomas compatíveis com a doença. Para além disso, os critérios adotados pela comunidade para decidir quais dos idosos residentes em lares deveriam ser hospitalizados também gerou várias críticas. O protocolo estipulava que seriam afastados dos tratamentos os idosos que apresentassem demências avançadas, os grandes dependentes, os doentes terminais e os doentes com cancro terminal.

Madrid também não conseguiu garantir equipamentos de proteção individual suficientes para os profissionais de saúde e foi a última comunidade, juntamente com as Canárias, a decretar o uso obrigatório de máscara na rua.
Adoção de medidas “mais drásticas”
A região de Madrid veio agora anunciar medidas “mais drásticas” para travar o avanço da pandemia, como o “confinamento seletivo” nas áreas da cidade com uma maior incidência da pandemia. As medidas, que incluem restrições à mobilidade, foram anunciadas pelo conselheiro adjunto da Saúde regional, Antonio Zapatero, durante uma conferência de imprensa na quarta-feira e deram origem a uma crise no Governo regional.

Zapatero fez o anúncio das medidas que, alegadamente, não foram aprovadas pelo executivo de Madrid, tendo sido, por isso, alvo de duras críticas. O conselheiro adjunto da Saúde justifica-se, por sua vez, afirmando que, no dia anterior, comunicou por WhatsApp a Días Ayuso que iria tornar público um dos planos que a equipa do Ministério da Saúde tinha debatido.

“A presidente apoia sempre qualquer medida que vá ao encontro da proteção da saúde dos cidadãos madrilenos, como já reiterou várias vezes. Portanto, entendo que esta medida que estamos a propor tenha todo o seu apoio, como tem sido sempre”, continuou a justificar Zapatero.

Días Ayuso não fez qualquer comentário em resposta ao mal-entendido, mas o Ministério da Saúde rapidamente veio esclarecer que o plano anunciado por Zapatero teu o apoio do presidente Enrique Ruiz-Escudero. “O conselheiro sabia e é uma opção do município, não apenas de Zapatero”, explicou o Ministério. Esta quinta-feira, o ministro da Saúde transmitiu “uma mensagem de calma”. Num vídeo enviado aos meios de comunicação espanhóis, Ruiz-Escudero afirmou que a região de Madrid está perante “uma situação de crescimento sustentado” e confirmou que o Ministério da Saúde está a “trabalhar numa proposta de restrição da mobilidade e redução da atividade em zonas onde há uma maior transmissão do vírus”.

O Governo espanhol disse estar “preocupado, vigilante e pronto a apoiar o Governo de Madrid nas medidas que queiram tomar”.

A primeira vice-presidente do Governo espanhol, Carmen Calvo, afirmou que está a aguardar a aprovação destas medidas por parte do executivo regional, que deverão ser detalhadas no próximo fim-de-semana. “Veremos se essas medidas são suficientes para ajudá-los e protege-los”, disse Carmen Calvo.

Sobre a possibilidade de decretar novamente estado de emergência, Calvo afirmou que não vão “pisar competências” e recordou a possibilidade, levantada por Pedro Sánchez em agosto, de que sejam as próprias comunidades a requererem apoio. “O Governo de Espanha tem de estar preparado para o que o executivo de Madrid decidir”, acrescentou.

A primeira vice-presidente do Governo concordou com as palavras do ministro da Saúde, que sublinhou que “o importante é controlar a situação em Madrid, como já foi feito noutras comunidades autónomas”.
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