Artista Diana Policarpo quer "rever o passado" e abordar questões do futuro

por Lusa

A artista visual Diana Policarpo, vencedora do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2019, afirmou hoje, em Lisboa, que considera importante "rever o passado e trabalhar as questões do presente e de novos futuros".

A artista, de 33 anos, que regressou a Lisboa após dez anos a viver em Londres, falava aos jornalistas sobre o contexto da obra vencedora, da sua autoria, no final da cerimónia de anúncio dos premiados, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa.

Intitulada "Death Grip", a obra vencedora de Diana Policarpo - exposta na Central Tejo, com as dos outros cinco finalistas do prémio - apresenta uma instalação que usa animação digital em 3D, luz e som para reproduzir o ambiente em que se desenvolve o fungo `Cordyceps`, nas montanhas dos Himalaias.

A artista criou esta obra para denunciar o impacto cultural, económico, social e ambiental provocado pela exploração excessiva do fungo no Nepal e na Índia, pelas suas propriedades, onde fez uma residência para estudar o contexto local desta recolha.

"Este projeto é muito focado nos impactos sociais, ambientais e económicos que a extração deste cogumelo está a provocar, e isto é uma lição a nível global", alertou a artista, em declarações aos jornalistas.

Diana Policarpo admitiu que o seu trabalho tem um caráter político: "Ao longo dos meus projetos fui-me deparando com situações que são inevitavelmente políticas, e não faz sentido serem separadas do trabalho nas artes visuais".

"É importante rever o passado e trabalhar as questões do presente e de novos futuros", disse a artista, acrescentando, por outro lado, que tem feito "um esforço para resistir à invisibilidade das mulheres na História da Arte".

Por essa razão, procura novas histórias menos conhecidas, "e que não são só privilégios", como é o caso do tema que decidiu abordar, e que remete para as questões ambientais e sociais.

"Death Grip", explicou a artista, é um termo usado pelos cientistas para caracterizar um fungo parasita que ocupa um hospedeiro e se apropria desse corpo, para poder reproduzir-se.

O parasita "exerce o controlo da mente do hospedeiro e obriga-o a mover-se de forma a favorecer a sua reprodução", explicou.

"Decidi chamar a peça com esse termo, porque conto toda uma história sobre o ciclo do fungo, que é um cogumelo que tem muita capacidade de resistir e de sobreviver, mas também está aberto à colaboração", descreveu.

A artista criou "uma metáfora, que é a história paralela sobre o trabalho das pessoas que andam a colher este cogumelo no Nepal e na Índia", habitualmente mulheres que filmou e entrevistou.

Sobre o impacto deste trabalho no seu percurso artístico, disse que "ajudou a consolidar" muitas dimensões da pesquisa que tem vindo a fazer, essencialmente ligadas à observação de modos de pensar e viver do que é humano, e questionar o papel do género na História do capitalismo.

Ao pesquisar profundamente este fungo e as mulheres que o recolhem, Diana Policarpo foi descobrindo as várias dimensões do seu impacto da exploração deste recurso "que está quase extinto, e que, por ser mais caro do que o ouro, acabou por gerar muita violência".

O trabalho de Diana Policarpo foi desenvolvido com vários suportes: Ao entrar na sala onde se encontra a instalação, o visitante encontra luz, esculturas, som, uma narrativa pela voz da artista, imagem em movimento, alteração da temperatura da sala, tudo sincronizado de forma a dar uma sensação imersiva.

Os visitantes podem entrar e sentar-se, movimentar-se pela sala, "que acaba por ser uma experiência performativa".

Diana Policarpo estudou música no Conservatório Nacional, ainda criança, e estudou artes plásticas e escultura na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, vindo depois a fazer um mestrado em Londres, onde esteve a viver e a trabalhar nos últimos dez anos.

Regressou a Portugal, e está a residir agora em Lisboa, por várias razões, que, disse, têm a ver com o processo do Brexit, e com o facto de nunca ter deixado de colaborar com os seus pares em Portugal.

Diz que sentiu necessidade de voltar quando foi vendo amigos a partir, "uns por terem sido deportados, e outros porque é uma cidade que se tornou demasiado cara para viver".

Os pais são músicos, e a mãe, Paula Vieira, foi um dos membros da primeira banda musical feminina em Portugal, "Damas Rock", sobre a qual, Diana Policarpo tem um projeto de criar um documentário.

Questionada pela Lusa sobre o significado de ganhar este prémio, disse: "É muito importante especialmente numa fase em que estou a regressar a Lisboa. Sinto-me muito honrada".

"É uma ajuda fundamental para continuar a trabalhar e a pagar com colaboradores", acrescentou sobre o galardão de 20 mil euros.

O júri do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2019 destacou hoje, em Lisboa, a "coerência da pesquisa e do discurso" da artista vencedora Diana Policarpo, enquanto Isabel Madureira Andrade recebeu uma menção honrosa pelo trabalho em pintura.

Isabel Madureira Andrade, AnaMary Bilbao, Dealmeida Esilva, Mónica de Miranda, Henrique Pavão e Diana Policarpo eram os seis artistas finalistas apurados nesta 13.ª edição do galardão, e as suas obras inéditas estão em exposição, desde 15 de maio, no museu.

Com uma periodicidade bienal, o prémio, criado pela Fundação EDP, destina-se à revelação de novos valores da criação nacional no domínio das artes plásticas, e a edição deste ano teve como curadores Inês Grosso, Sara Antónia Matos e João Silvério.

O júri internacional do prémio foi composto por Andrea Lissoni, curador sénior da Tate Modern, de Londres, António Mexia, presidente da Fundação EDP, Artur Barrio, artista luso-brasileiro vencedor da última edição do Grande Prémio Fundação EDP Arte, Jochen Voltz, diretor artístico da Pinacoteca de São Paulo, José Manuel dos Santos, diretor cultural da Fundação EDP, Miguel Coutinho, diretor-geral da Fundação EDP, e Natxo Checa, diretor da Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

Este ano foram recebidas 530 candidaturas ao galardão, e, destas, escolhidos os finalistas que receberam uma bolsa de criação das novas obras a concurso.

A exposição das obras criadas propositadamente para o prémio vai prolongar-se até 09 de setembro.

O Prémio Novos Artistas Fundação EDP, instituído em 2000, tem distinguido artistas como Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, Vasco Araújo, Carlos Bunga, João Maria Gusmão e Pedro Paiva, João Leonardo, André Romão, Gabriel Abrantes, Priscila Fernandes, Ana Santos, Mariana Silva e Claire de Santa Coloma.

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