Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein, pela primeira vez em Portugal

| Cultura

A escritora Gertrude Stein assumiu o papel da sua companheira de vida, Alice B. Toklas, para fazer uma "autobiografia" com a sua própria história, obra que foi um sucesso editorial, mas que só agora é publicada em Portugal.

"A Autobiografia de Alice B. Toklas" está disponível nas livrarias portuguesas, editada pela Ponto de Fuga, que iniciou em abril a publicação de "textos com alguma autorreflexão dos autores", como é o caso dos cinco ensaios autobiográficos de Virginia Woolf.

Trata-se de uma obra com 84 anos, mas que nunca tinha sido publicada em Portugal, apesar de se ter afirmado como a "mais célebre e lida de Gertrude Stein", e de ser hoje considerada pela Modern Library uma das vinte melhores obras de não ficção em língua inglesa, afirma a editora.

A edição portuguesa é traduzida e anotada por Nuno Quintas e inclui diversas fotografias da autora, desde a infância à idade adulta, na companhia de familiares, junto de Alice Toklas e dentro do seu apartamento, repleto de obras de arte, que incluem um retrato seu pintado por Picasso.

A história deste livro começa em 1932, quando Gertrude Stein (1874-1946) se propõe escrever, em apenas seis semanas, uma autobiografia, "porventura a mais irreverente alguma vez escrita".

É desse modo que, jogando literal e literariamente com as perceções, a escritora com fama de "vanguardista difícil" assume o ponto de vista e a voz da sua companheira, a Alice B. Toklas do título, para contar a própria história, e publica o livro no ano seguinte.

O registo usado é "enganadoramente frívolo, cândido e despojado, numa prosa acessível, repleta de revelações caricatas ou indiscretas, envolvendo grandes vultos das artes e letras do século XX", de Picasso a Matisse, de Hemingway a Ezra Pound, destaca a editora.

Do seu círculo de amigos faziam ainda parte nomes como Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picabia e James Joyce.

Num capítulo da autobiografia em que descreve a forma como Gertrude Stein se relacionava com os pintores e escritores que na altura frequentavam o seu atelier, Stein, no lugar de Toklas, conta que a companheira a mandou sentar-se com Fernande, artista francesa que, na altura, vivia com Picasso, e a quem não achou "nem um pouco divertida".

A este propósito, escreve Stein, enquanto Alice: "Antes de decidir escrever este livro sobre os meus vinte e cinco anos com Gertrude Stein, disse muitas vezes que escreveria `As esposas dos génios com quem me sentei`. Sentei-me com tantas. Sentei-me com esposas que não eram esposas, de génios que eram verdadeiros génios. Sentei-me com esposas verdadeiras de génios que não eram verdadeiros génios. Sentei-me com esposas de génios, de quase génios, de aspirantes a génio, em suma sentei-me muitas vezes e durante muito tempo com muitas esposas e esposas de muitos génios".

Aliás, a palavra génio exercia considerável influência na vida de Gertrude Stein, ao ponto de os intelectuais da época lhe perguntarem se era mesmo um génio ou se não passava de uma impostora, ao que ela respondia, no seu estilo provocador, que "ser génio exige um tempo medonho, andar de um lado para o outro sem nada fazer", ou "um génio é um génio, mesmo quando nada faz".

Nascida a 03 de fevereiro de 1874, na Pensilvânia, no seio de uma próspera família americana de origem judaica alemã, Gertrude Stein viveu os primeiros anos de vida em Viena, Áustria, e em Paris, mudando-se com a família para os Estados Unidos, em 1879, onde começou a frequentar a escola.

Revelando-se boa aluna, estudou Psicologia e Medicina, mas não terminou nenhum dos cursos e aos 29 anos estabeleceu-se em Paris, onde começou a escrever de forma consistente e desenvolveu uma faceta de colecionadora e patrona das letras e artes, em especial dos cubistas.

Permaneceu em Paris até ao final da vida, fazendo da sua casa um dos mais míticos salões artísticos do século XX, e deixou uma obra vasta e "profundamente original", que inclui títulos como "Three Lives" (1909), "Tender Buttons" (1914), "The Making of Americans" (1925) e "Paris França" (1940).

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