Coreografia de Meg Stuart em Lisboa fala sobre quebra de regras e abertura à mudança

por Lusa

A coreografia "Until Our Hearts Stop", que a coreógrafa norte-americana Meg Stuart vai apresentar em Lisboa, no final deste mês, é o resultado de uma reflexão sobre "quebrar as regras, e abrir-se à mudança".

Contactada pela agência Lusa, a criadora, que vive em Berlim, falou sobre a peça coreográfica que irá apresentar a 27 e 28 de junho na Culturgest, em Lisboa, na qual aborda o forçar dos limites nas relações entre as pessoas.

"É um trabalho em que ficou implícita esta ideia da necessidade de mais confiança e generosidade nas relações para quebrar barreiras e ultrapassar fronteiras criadas pelos protocolos e regras sociais", disse Meg Stuart à agência Lusa, numa conversa por telefone.

Os espetáculos, que decorrerão na Culturgest com música jazz ao vivo, do trio Samuel Halscheidt, Marc Lohr e Stefan Rusconi, contam com seis bailarinos, que interagem em palco num ambiente de clube noturno.

Ao som do jazz, os intérpretes tentam puxar os limites da sua convivência e descobrir até onde podem ir no seu relacionamento, implicando uns com os outros, batendo, brincando como crianças, abraçando-se.

A peça cria uma atmosfera de liberdade nas relações, que quebra as convenções: "Tem a ver com a estrutura das relações, e também com a forma como as pessoas se apoiam mutuamente, como se abrem à mudança, como podemos combater o aspeto mais conservador que atravessa as nossas vidas", disse a criadora de 54 anos, nascida em Nova Orleães, nos Estados Unidos.

No processo criativo, Meg Stuart passou estas ideias para o contacto físico entre os bailarinos, de forma a que "o que sentem internamente possa ser exteriorizado, muitas vezes indo mais longe do que a parte lúdica, desafiando os limites", descreveu.

Quando trabalha, a coreógrafa e bailarina tem sempre em mente "a celebração do corpo": "Eu trabalho sempre com o corpo, com a nossa parte carnal, de onde emerge esta questão das fronteiras das relações, que é importante para mim".

Ainda sobre o processo criativo, disse que trabalhar com os bailarinos da própria companhia é uma parte muito importante: "Eles puxam por mim. Improvisamos muito, trazendo vários elementos para a peça, e trabalhando-os até obter algo que faça sentido".

"No início, é assoberbante a quantidade de informação, emoções e sentimentos. Há muitos fragmentos que gradualmente se vão ajustando", comentou.

Sobre este regresso a Portugal com uma peça criada em 2015, fala numa "boa relação" com um país onde mantém contactos com alguns coreógrafos e bailarinos, como Vera Mantero e Francisco Camacho.

Meg Stuart fundou a sua companhia, Damaged Goods, em Bruxelas, em 1994, através da qual tem realizado dezenas de produções, desde solos a coreografias de grande escala, criações `site-specific` (especificamente para um espaço de apresentação) e projetos de improvisação.

Tem vindo a desenvolver uma nova linguagem para cada peça, apostando na colaboração com artistas de diferentes disciplinas, num cruzamento entre a dança e o teatro.

No seu trabalho, através da improvisação, Meg Stuart, que foi distinguida em 2018 com o prémio de carreira da Bienal de Dança de Veneza, explora estados físicos e emocionais, bem como as memórias destes estados.

Entre mais de quatro dezenas de criações, estão "Disfigure Study" (1991), "Splayed Mind Out" (1997), "Snapshots" (1999), "Private Room" (2000), "Henry IV" (2002), "Forgeries, Love and Other Matters" (2004), "Signs of Affection" (2010), "An evening of solo works" (2013) e "Celestial Sorrow" (2018).

"Until Our Hearts Stop" terá interpretação de Neil Callaghan, Jared Gradinger, Leyla Postalcioglu, Maria F. Scaroni, Claire Vivianne Sobottke e Kristof Van Boven.

Em janeiro de 2016, Meg Stuart esteve em Lisboa para apresentar o solo "Hunter" (2014), no Teatro Maria Matos.

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