França restitui pela primeira vez obras das suas coleções ao Benim

por Lusa

A França vai restituir 26 obras de arte ao Benim, num ato considerado "histórico" pelos dois Governos e com o Presidente francês a reforçar hoje que não há razão para que a juventude africana seja privada do seu património.

"Todos os jovens precisam de se apropriar da história do seu país para preparar o seu futuro e encontrar a sua força, os mistérios, e não há qualquer razão para que a juventude africana seja condenada a não ter acesso ao seu património", disse Emmanuel Macron, numa cerimónia no Museu Quai de Branly - Jacques Chirac em conjunto com as autoridades do Benim.

A França vai devolver ao Benim no próximo mês 26 obras de arte que até agora integravam o Museu Quai de Branly - Jacques Chirac, em Paris. Entre as obras agora devolvidas estão esculturas em madeira, objetos cerimoniais, roupas e tronos em madeira que fazem parte do tesouro real de Abomey.

De forma a assinalar este regresso, o museu parisiense promove uma semana de debates à volta destas obras, com as autoridades francesas e beninenses a participarem numa cerimónia para assinalar este momento. Daqui a duas semanas, o Presidente do Benim, Patrice Talon, desloca-se a Paris para assinar oficialmente a transmissão das obras e levá-las para o seu país.

"Pelo impacto desta decisão, a França e o Benim dão ao mundo um modelo de cooperação do património que se quer exemplar", disse Aurélien Agbenonci, ministro do Negócios Estrangeiros, presente em Paris.

O ministro do Benim qualificou esta decisão como "histórica" e que como algo que ninguém podia prever quando o seu país pediu em 2016 a restituição das obras.

As peças foram transportadas para França no final do séc. XIX, quando o coronel Dods invadiu Abomey, capital do reino de Danhomè. O pedido oficial para a devolução foi feito pelo Benim em 2016 e, apesar de uma recusa, o aval foi dado em 2020.

De forma a começar o processo de devolução de obras, o Governo francês aprovou em 24 de dezembro de 2020, uma lei que permite a devolução de obras pertencentes ao Estado francês caso a caso. Até aqui, o património francês, incluindo as coleções de todos os seus museus, é considerado como público, inalienável e imprescindível, e não pode mudar de proprietário.

No entanto, esta decisão de devolução não é consensual, recebendo muitas críticas de diferentes setores da sociedade francesa.

"O objetivo não é que a França fique sem nada de outros países, o objetivo é restituir coisas que saíram de forma ilegítima, dando a possibilidade para a juventude tenha acesso a elas, mas também criar uma ligação ao que é universal", respondeu o Presidente Emmanuel Macron às críticas.

No Benim, as obras vão primeiro ficar primeiro na casa do governador de Ouidah, ao lado do Museu Internacional de Memória e escravatura. A seguir, o tesouro real vai integrar o futuro Museu das Epopeias das Amazonas e dos Reis de Danhomè, em Abomey.

De forma a poder instalar este museu, os especialistas do Museu Quai de Branly - Jacques Chirac vão partilhar conhecimento e formação, que permitam o enquadramento das obras, assim como haverá financiamento francês para a sua construção.

Também o Senegal, Costa do Marfim, Etiópia, Chade, Mali e Madagáscar pediram a devolução de obras de arte. Estima-se que haja cerca de 90 mil objetos originários da África subsariana nas coleções públicas dos museus franceses, sendo que cerca de 70 mil são conservadas no Museu Quai de Branly - Jacques Chirac. Pelo menos 46 mil obras de arte africana chegaram a França no período colonial.

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