Nuno Júdice diz que desaparece uma "constelação" com morte de Agustina Bessa-Luís

por Lusa

Lisboa, 03 jun 2019 (Lusa) -- O poeta e escritor Nuno Júdice disse hoje que, com a morte de Agustina Bessa-Luís, desaparece uma constelação com os maiores nomes da literatura portuguesa do século XX, realçando que a escritora encontrava inspiração no mundo.

"Agustina era um dos maiores nomes da literatura do século XX, que ainda estava vivo, embora já há uns anos não estivesse em condições de escrever e, por isso, com ela, de facto, desaparece essa constelação onde estavam todos os nomes, como Vergílio Ferreira, [José] Cardoso Pires e [José] Saramago", referiu Nuno Júdice à agência Lusa.

Para o escritor, Agustina Bessa-Luís demonstrou sempre disponibilidade para com o outro, e caracterizava-se por ser uma pessoa fascinante, que encontrava nas pequenas coisas do mundo inspiração para os seus romances.

"Era, de facto, uma escritora que encontrava no mundo e na literatura -- nas suas leituras -- inspiração para os seus romances", salientou Nuno Júdice, recordando que se tratava de "uma pessoa extremamente afável e com uma conversa fascinante".

Nuno Júdice enalteceu ainda a forma como Agustina Bessa-Luís olhava para o mundo, com uma visão "crítica e irónica", mas também "clara e muito lúcida daquilo que era a literatura".

De acordo com o poeta, que também é ensaísta, a escritora era uma pessoa que estava por dentro da vida.

"Era uma pessoa que estava por dentro da vida. Não era uma pessoa que estava alheia das coisas simples, como comer, como vestir, ver as lojas", anotou, realçando que Agustina Bessa-Luís "evoluía e transformava-se, nunca ficava presa a um estilo, ao sucesso da sua obra".

O ensaísta e diretor da revista da Fundação Calouste Gulbenkian Colóquio/Letras deixou também em claro que a escritora exprimia as suas emoções, ideias e discursos de forma articulada, adaptando-se aos meios em que se encontrava.

"Neste momento, em que ela desaparece, importa reler e descobrir muitos dos livros que, por vezes, são menos conhecidos, mas em cada um deles nós temos um fragmento desse grande retábulo sobre o que é a vida e a sociedade do século XX que ela construiu", concluiu, sublinhado que "a sua obra é uma constante transformação e renovação à procura de um caminho diferente".

A escritora Agustina Bessa-Luís morreu hoje, aos 96 anos, no Porto, disse à Lusa fonte da família.

Nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante, e encontrava-se afastada da vida pública, por razões de saúde, há cerca de duas décadas.

O nome de Agustina Bessa-Luís destacou-se em 1954, com a publicação do romance "A Sibila", que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz.

Recebeu igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra "Os Meninos de Ouro", e em 2001, com "O Princípio da Incerteza I - Joia de Família".

Foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015.

Em 2004, Agustina recebeu os Prémios Camões e Vergílio Ferreira.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant`Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988.

Questionada sobre o que escrevia, a autora disse, num encontro na Póvoa de Varzim: "É uma confissão espontânea que coloco no papel".

A cerimónia fúnebre da escritora Agustina Bessa-Luís decorrerá na terça-feira, na Sé Catedral do Porto, seguindo depois para o cemitério do Peso da Régua, Vila Real, onde será sepultada "na intimidade da família", revelou hoje o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.

O Governo decretou um dia de luto nacional, na terça-feira, pela morte da escritora.

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