Projeto artístico Kunsthalle em Lisboa celebra uma década com pausa para reflexão

| Cultura

O projeto cultural Kunsthalle Lissabon, que celebra este ano uma década de existência, com mais de 40 exposições e a publicação de livros de artista, irá parar um ano para reflexão, anunciou hoje a direção.

Contactado pela agência Lusa, João Mourão, curador e um dos fundadores do projeto, indicou que a direção decidiu "comemorar a ocasião simplesmente desaparecendo do panorama artístico da cidade, e parando para refletir", mas o espaço vai continuar a funcionar.

"Colaborámos com inúmeras instituições, tanto locais como internacionais, e desenvolvemos uma reflexão continuada sobre pensamento e ação institucionais no contexto das artes visuais. Foi uma década incrível!", assinalou o curador, como balanço.

O projeto foi lançado em julho de 2009 em conjunto com Luís Silva, com o objetivo de apresentar exposições de artistas portugueses e estrangeiros, e também de editar livros de artista e monografias, num total de 14 volumes publicados numa década.

Ao fim de dez anos, a direção decidiu "comemorar a ocasião não organizando uma festa de proporções épicas, não redigindo um manifesto sobre quão difícil é gerir uma pequena instituição dedicada à arte contemporânea", mas sim com uma paragem para refletir.

"A Kunsthalle surgiu num contexto em que Portugal estava em crise, e a cidade era completamente diferente de hoje. Foi uma época muito especial de relações entre amigos e artistas. Entretanto, a realidade mudou e muitas dessas pessoas tiveram de sair de Lisboa", apontou.

A Lisboa "que foi propícia ao aparecimento da Kunsthalle Lissabon em 2009 tem muito pouco em comum com a Lisboa gentrificada e turistificada de 2019", disse João Mourão à Lusa.

"Dificilmente seria possível começar hoje como começámos na altura", considerou, acrescentando que as instituições culturais que entraram na capital estão "muito viradas para os números".

"O que estamos a assistir hoje é ao desaparecimento da massa crítica e artística da cidade", lamentou.

João Mourão recordou que a entidade que fundou com Luís Silva "desenvolveu sempre uma atividade de forma a não ficar estagnada", nomeadamente no apoio a artistas que nunca tinham exposto individualmente, como André Romão ou Mariana Silva, ou a artista francesa Caroline Mesquita.

A Kunsthalle Lissabon também publicou várias monografias sobre o trabalho de artistas portugueses, como André Guedes e Pedro Barateiro e, mais recentemente, em parceria com o New Museum de Nova Iorque, a monografia dedicada ao artista guatemalteco Naufus Ramírez-Figueroa.

Nas publicações, criou a coleção "Performing the Institution(al)", reunindo vozes da crítica e da curadoria como Charles Esche, Maria Lind, Filipa Ramos, Marina Fokidis ou Simon Sheikh.

Quanto à paragem de cerca de um ano, será para fazer uma reflexão com um questionamento: "Vamos pensar se faz sentido continuar, se a Lisboa se importa com o desaparecimento[da Kunsthalle], e o papel crítico que podemos ter no pensamento de outras formas de imaginar a posição que a arte contemporânea ocupa neste xadrez".

A direção convidou quatro instituições internacionais parceiras, que irão ocupar o espaço que deixaram vago já a partir de 23 de fevereiro, com a apresentação da exposição coletiva "Rocambole".

Essas entidades artísticas são a Pivô, de São Paulo, a primeira a apresentar uma exposição neste novo contexto, a CURA, de Roma, a Kadist, de Paris, e o Institute of Contemporary Art, de Filadélfia.

Os fundadores da Kunsthalle e a sua equipa vão apoiar estas instituições para apresentarem os seus projetos, e acompanhar os artistas que virão a Lisboa: "A ideia é manter a mesma filosofia, a de que a instituição deve produzir o mundo em que queremos viver, com uma componente ética, de responsabilidade no trabalho, da representação social, ou representação de género".

"Nos dias que correm, esta paragem é quase um ato político. As pessoas queixam-se da falta de tempo para pensar, para o diálogo e a partilha. E nós queremos fazer isso. Também as instituições podem parar para refletir e isso é muito relevante", salientou o curador à Lusa.

A Kunsthalle Lissabon, localizada na rua José Sobral Cid, em Lisboa, perto da Madre de Deus e do Museu Nacional do Azulejo, é apoiada pela Direção-Geral das Artes, pela Foundation for Arts Iniciatives e pela Coleção Maria e Armando Cabral.

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