Romance "Cai a noite em Caracas" conta histórias das vítimas do totalitarismo

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A capital da Venezuela retratada por Karina Sainz Borgo, no romance "Cai a noite em Caracas", é uma cidade imunda, dominada pela violência e pelo totalitarismo, que tortura e mata resistentes e sobreviventes.

"Quando a minha mãe deu entrada na Unidade de Cuidados Paliativos, os Filhos da Revolução detiveram Santiago, irmão da Ana. Nesse dia prenderam dezenas de estudantes que acabaram com as costas em carne viva, por causa dos chumbos, espancados numa esquina ou violados com o cano de uma espingarda", narra Adelaida Falcón, a personagem central do primeiro romance da jornalista venezuelana Karina Sainz Borgo.

Na edição traduzida para português, a autora do romance escreve que "Cai a noite em Caracas" é uma história de ficção, mas que alguns episódios e personagens foram inspirados em factos reais, apesar de não atenderem "à exigência da informação".

As mortes, o perigo, as perseguições, o lixo, a miséria e ausência de futuro levam Adelaida a usurpar a identidade de uma vizinha de origem espanhola, para fugir do país.

Paralelamente às histórias da família e ao arriscado plano de fuga para Espanha, Adelaida vai descrevendo um Estado (Venezuela) marcado por um regime político que não poupa nem os vivos nem os moribundos em luta contra doenças que outrora podiam ser tratadas.

"A clínica cobrava-nos por tudo aquilo que não tinha e que precisávamos de comprar no mercado negro por três ou quatro vezes o seu valor nominal: das seringas e sacos de soro, às gazes de algodão que um enfermeiro com ar de carniceiro me fornecia", conta a protagonista da história.

Os nomes do antigo presidente Hugo Chávez ou do atual chefe de Estado de facto da Venezuela, Nicolás Maduro, nunca são referidos no livro, tomando o líder do regime totalitário a designação de Comandante Presidente.

Os membros das milícias a soldo da ditadura, presentes ao longo do livro, surgem vestidos com as "camisolas vermelhas que a administração pública distribuíra nos primeiros anos daquele governo".

"Era o uniforme dos Motociclistas da Pátria, uma infantaria com que a Revolução varria qualquer protesto contra o Comandante Presidente -- assim designaram o líder dos revolucionários, após a quarta vitória eleitoral", conta Adelaida sobre as bases que servem o poder instalado no Palácio de Miraflores.

"Quando acabou o dinheiro para financiar os Motociclistas, o Estado decidiu compensá-los com uma gratificação. Não receberiam o salário revolucionário na íntegra, mas teriam licença para saquear e destruir sem controlo. Ninguém lhes tocava. Ninguém os controlava", denuncia a personagem principal do livro.

Em "Cai a noite em Caracas", qualquer pessoa com vontade de matar e morrer podia inscrever-se nas "listas" de Motociclistas da Pátria, embora muitos atuassem em nome próprio, sem terem qualquer ligação à estrutura original, tendo muitos chegado a formar pequenas cooperativas com as quais cobravam portagens, nalgumas zonas da cidade marcada pelo desemprego e pela miséria provocada pelas políticas totalitárias do regime.

"Antes que o dinheiro em numerário desaparecesse por completo, por ordem do Comandante Presidente, o Gabinete Revolucionário anunciou que ia eliminar de forma gradual o papel-moeda. E, embora o decreto tivesse por objetivo a luta contra o terrorismo financeiro, ou o que as figuras de topo assim designavam, era impossível imprimir mais moeda que substituísse a anterior", conta a narradora.

A protagonista recorda o dia em que fez dez anos de idade, para falar do "primeiro saque" de que "guarda memória" depois de ter visto passar os pelotões de militares, na zona do Palácio de Miraflores.

"Cheguei a ver um homem a arrastar um piano no meio da Avenida Sucre", tendo o país conhecido logo depois uma rápida transformação.

"Começámos a ver camiões de mudanças nos quais viajavam torres de caixões amarrados com cordas (...) Com o passar dos dias começaram a envolver os corpos sem identificação em sacos de plástico e a lançá-los para a Peste, a vala comum onde foram parar centenas de assassinados," recorda Adelaida.

"Foi a primeira tentativa de os pais da Revolução assaltarem do poder" que é identificado - do ponto de vista político - através de produtos que chegaram a ser enviados pelo regime de Havana, mas que já não conseguem abastecer a cidade das lojas fechadas.

"Frigoríficos vazios com moscas e bebidas com gás amontoadas numa arca com o emblema dos gelados Coppelia, uma marca comunista que os Filhos da Pátria tinham importado de Cuba e que deixou de circular pouco depois", diz a figura central da história.

Adelaida Falcón, venezuelana, sentindo-se prisioneira da cidade, rodeada de mortos e cansada da violência política, aproveita as circunstâncias e apodera-se da identidade de uma emigrante espanhola para tentar escapar e "voltar a nascer" noutro lugar.

"Apenas uma letra separa `partir` de `parir`", diz Adelaida quase no final do livro.

O livro "Cai a noite em Caracas", de Karina Sainz Borgo (Alfaguara -- Penguin Random House, 215 páginas), foi traduzido por Vasco Gato e publicado este mês em Portugal.

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