"Tempo de Dádivas" de Patrick Leigh Fermor publicado pela primeira vez em Portugal

por Lusa

Lisboa, 15 fev 2020 (Lusa) - O clássico inglês de literatura de viagens de Patrick Leigh Fermor, "Tempo de dádivas", que narra a sua viagem a pé de Holanda à Turquia, numa Europa em vésperas da Segunda Guerra Mundial, é publicado pela primeira vez a Portugal.

Editado pela Tinta-da-China, "Tempo de dádivas. Uma viagem a pé" chega às livrarias no dia 28 de fevereiro, mais de 40 anos após a sua publicação original.

Em dezembro de 1933, um rapaz de 18 anos partiu de Londres em direção à Holanda, de onde iniciaria uma viagem a pé até Constantinopla (atual Istambul), e só regressaria a Inglaterra quatro anos depois, em 1937.

Esse rapaz é Patrick Leigh Fermor, conhecido como Paddy, e os seus escritos revelam uma personalidade fora do vulgar, que já foi classificada como uma mistura de Indiana Jones, James Bond e Graham Greene.

"A inveja é o pecado dos escritores, como toda a gente sabe, mas poucos escritores do mundo anglófono levarão a mal a superioridade de Patrick Leigh Fermor enquanto um dos grandes prosadores do nosso tempo. Não tem rivais, portanto está para lá da inveja", escreve a escritora, jornalista e historiadora Jan Morris, autora britânica de literatura de viagens, no início da introdução ao livro.

A escritora, considera que o género literário que Patrick Leigh Fermor cultiva "é difícil de definir", pois embora seja classificado como escritor de viagens, é mais do que isso, uma vez que, embora o tema dos seus livros se baseie em experiências de viagem, "ele também é memorialista, historiador, conhecedor de arte e de arquitetura, poeta, humorista, contador de histórias, cronista social, além de ter algo de místico, sendo um dos aventureiros de Deus".

"Estes diferentes talentos revelaram-se pela primeira vez em todo o seu esplendor em `Tempos de Dádivas`, publicado em 1977, tinha o autor sessenta e dois anos", acrescenta a autora de "Manhattan 45", evocação de Nova Iorque no final da II Guerra Mundial, e de "Hav", uma cidade possível no Mediterrâneo oriental.

Aos 17 anos, Patrick Leigh Fermor abandonou o ensino formal na King`s School e pouco tempo depois desembarcou de um vapor, na Costa Holandesa, preparando-se para percorrer a Europa até à atual Istambul.

"Descrevia-se como um estudioso errante. Viajava sozinho e estava disposto a dormir em qualquer sítio, a falar com qualquer pessoa, a sobreviver com quase nada, comendo e bebendo qualquer coisa, a experimentar todas as línguas, a fazer amizade com estranhos, ricos ou pobres, e a enfrentar o pior que o calor e o frio, os contratempos e as bolhas, a burocracia, os preconceitos e a política conseguissem arranjar".

"Imbuído deste espírito", prossegue Morris, "Paddy Leigh Fermor percorreu o continente europeu num momento funesto da História, já que pisou a Alemanha pela primeira vez em 1933", o ano em que Hitler chegou ao poder.

Durante a sua viagem foi fazendo anotações num caderno, que mais tarde usaria como base para o livro, mas mediadas já pelo conhecimento e experiencia de vida que adquiriu ao longo dos 40 anos em que estas suas memórias estiveram adormecidas.

Desse percurso conta-se um episódio acontecido em 1942, quando, na altura à frente de um grupo de resistência -- depois de se ter alistado no exército britânico no início da II Guerra Mundial -, raptou um general alemão na Creta ocupada.

Fazendo nota da peculiaridade da personalidade de Patrick Leigh Fermor, Jan Morris conta que, já com o general Heinrich Kreipe feito prisioneiro numa gruta, os dois trocaram odes horacianas enquanto espreitavam da entrada da gruta para o monte Ida.

"A aventura de 1942 em Creta permeia a narrativa de 1933 porque claramente permeia o pensamento do autor em 1977", afirma Jan Morris, para explicar que "um dos encantos" deste livro é o facto de a viagem ser na realidade evocada por duas pessoas: o jovem despreocupado que realizou a viagem e a registou na memória e nos diários, e o autor com vasta experiência que, "compreendendo e conhecendo melhor a História quarenta anos depois, a transformou em arte".

Para a escritora, "Tempo de Dádivas" é um livro "sem precedentes", porque não segue qualquer convenção, e as obras minimamente comparáveis são "Eothen", de Alexander William Kinglake, ou "A Estrada para Oxiana", de Robert Byron.

Mas, como nota a autora, não refletem simultaneamente o amadurecimento de um raciocínio e a situação de um continente, além de que "nem Kinglake nem Byron raptaram generais".

Na opinião de Jan Morris, "o poder de atração essencial desta personagem, tão fresca e cheia de esperança, em contraste com a majestade condenada de um continente ancestral, torna `Tempo de Dádivas` uma obra única nas letras inglesas".

"É um livro de culto, assombroso, prodigiosamente talentoso, mas também inocente. De que outra obra se pode dizer o mesmo?", conclui a escritora.

AL // MAG

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