António, o caçador convertido em amigo dos javalis por força do fogo

| Economia

António Valério prepara-se para ir comprar sacas de trigo e milho para dar aos animais que se salvaram do fogo. O caçador de Monchique converte-se por estes dias em "amigo dos javalis", por força do incêndio.

Sentado numa cadeira de plástico à beira da estrada, junto à sua casa, em Mata Porcas, António está ao telemóvel a dar conta do que se passou por ali na segunda e na terça-feira a um amigo.

"Olha, vou ter que ir agora comprar umas sacas de trigo e de milho para dar aos pássaros e aos javalis. Vou deixar de ser caçador para ser amigo dos javalis", conta.

Por dois dias viu as chamas aproximarem-se da sua casa e por duas vezes conseguiu dar conta do fogo, graças ao trabalho do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro da GNR, num dia, e dos Bombeiros de Monchique, noutro.

À volta, só se vê negro, restando um reduto verde em redor da casa, por onde nestes dias se concentram os animais que se safaram das chamas, diz à agência Lusa António Valério, enquanto vai dando festas a um gato adolescente, com pelo tigrado cinzento, que por estes dias "amansou com o medo do incêndio".

"Os javalis andam por aí e temos que os ajudar", sublinha, enquanto se ouvem pombos selvagens a cantar, por certo "também a pedir por comida".

Questionado sobre o porquê de ir dar de comer aos pássaros e javalis, António responde com outra pergunta: "Sabe o que custa a fome?".

"Uma pessoa tem que se pôr do outro lado. Todos nós sofremos, cada um com o seu sentimento", diz o homem de 60 anos, que contabiliza dez hectares de medronhal ardido.

Mostra a sua aguardente de medronho com orgulho, que "está sempre vendida".

Por ali, produz também mel, não sabendo ainda quantas das suas 800 colmeias ficaram destruídas, já que ainda não o deixaram ir a todos os locais onde as tinha.

"A pergunta não é o que é que eu perdi, mas o que é que eu não perdi. Perdi floresta, colmeias - que é a minha vida - e medronho", diz, num discurso pausado e de voz embargada.

Para aquilo que viveu durante duas noites, resume em três palavras: "destruição, guerra e medo".

"Houve uma incapacidade para resolver o que havia para resolver. Houve um sentimento de impotência" perante a força do fogo, resume António.

Ao amigo com quem fala, por telefone, sintetiza tudo também em poucas palavras: "Estava verde, verdinho, ficou negro, negrinho".

O incêndio rural, combatido por mais de mil operacionais e considerado dominado hoje de manhã, deflagrou no dia 03 à tarde, em Monchique, distrito de Faro, e atingiu também o concelho vizinho de Silves, depois de ter afetado, com menor impacto, os municípios de Portimão (no mesmo distrito) e de Odemira (distrito de Beja).

A Proteção Civil atualizou o número de feridos para 41, um dos quais em estado grave (uma idosa que se mantém internada em Lisboa).

De acordo com o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais, as chamas já consumiram cerca de 27 mil hectares.

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