Banco de Inglaterra adverte para "longa recessão" e impõe maior subida das taxas de juro em 27 anos

por RTP
Governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey Reuters

Os britânicos poderão enfrentar cinco trimestres seguidos de recessão em cima do aumento dos preços provocado pela recuperação económica pós-pandemia e pelas crises da energia e dos produtos alimentares causadas pela guerra na Ucrânia.

Atualmente a inflação homóloga está em 9,4 por cento, um recorde em 40 anos. Estimativas colocam os níveis de inflação em 13 por cento no final de 2022 e em 2023 irá “provavelmente” atingir 15 por cento, antes de começar a baixar.

Para tentar controlar o problema, o Comité de Política Monetária do banco emissor britânico optou assim esta quinta-feira por subir as taxas de juro em meio ponto percentual, de 1,25 por cento para 1,75 por cento, a maior subida desde 1995. A comissão, composta por nove membros, votou oito contra um a favor do aumento do preço do dinheiro para 1,75 por cento.

“Se não agirmos agora – e eu sei o quão difícil isto é, sobretudo para os de menores rendimentos, especialmente aqueles com maiores custos de empréstimos – mas, se não agirmos, a inflação irá enraizar-se mais”, justificou o governador do banco, Andrew Bailey.

“Irá ficar pior e teremos de subir mais as taxas de juro. Temos de agir para evitar, para parar isto”, acrescentou.

A oposição trabalhista afirma que a decisão prova que os conservadores "perderam o controlo da Economia", enquanto o chanceler, Nadhim Zawahi, se mostrou confiante de que os apoios decididos pelo Governo irão ajudar os mais vulneráveis a superar a crise.

A subida da taxa de juro surgiu depois do regulador de energia britânico Ofgem (Office of Gas and Electricity Markets) ter dito hoje que as contas de energia irão mudar de três em três meses em vez de seis em seis, para evitar choques de preços acentuados.

Depois da subida das taxas de juro, a libra esterlina desceu 0,05 por cento em relação ao dólar, para 1,211 dólares, e 0,5 por cento em relação ao euro, para 1,189 euros.
"Longa recessão"
O Banco de Inglaterra reviu ainda em baixa as suas previsões de maio quanto ao crescimento económico deste ano, de 3,75 por cento para 3,5 por cento e alertou para uma “longa recessão”, que pode durar mais de um ano a partir do último trimestre de 2022. Os cinco trimestres de recessão irão implicar 15 meses de turbulência para os britânicos, tanto tempo como a recessão de 2008. O Produto Interno Bruto deverá cair 2.1 por cento.

O banco central britânico prevê por isso que os rendimentos reais das famílias caiam 1,5 or cento este ano e 2,25 por cento no próximo ano e um crescimento negativo do consumo.

O governador Bailey sublinhou em conferência de imprensa que os riscos atuais são "excecionais" indicando que se ficaram a dever “na sua esmagadora maioria”, aos preços da energia e “consequências das ações da Rússia”.

“Pressões inflacionárias no Reino Unido e no resto da Europa intensificaram-se significativamente desde o Relatório de Maio e o anterior encontro do Comité da Política Monetária”, referiu o banco.

Os preços do gás no mercado grossista britânico praticamente duplicaram desde maio, devido às restrições de gás russo e a receios quanto ao futuro.

Atualmente, o preço máximo que as empresas de energia estão autorizadas a cobrar aos seus clientes é fixado semestralmente, mas a alteração anunciada pelo Ofgem para alterações trimestrais é uma resposta à atual variação de preços.

Em outubro de 2021, o preço máximo da energia era de 1.400 libras (1.666 euros) por ano, mas em abril último subiu para 1.971 libras (2.345 euros).

No próximo mês de outubro espera-se que o preço suba para 3.358 libras (3.996 euros).

O reflexo da subida nos preços a retalho irá implicar a quebra do poder de compra das famílias, com o Indicador dos Preços ao Consumidor, IPC, a escalar nos próximos meses.

“A inflação IPC deverá subir mais do que o previsto no Relatório de Maio, de 9,4 por cento em junho para pouco mais de 13 por cento no último trimestre de 2022, mantendo-se em níveis muito elevados ao longo de muito do ano de 2023, antes de cair para o objetivo de dois por cento nos dois anos seguintes”, espera ainda o banco no seu relatório desta quinta-feira.

O governador Bailey garantiu que o compromisso com o objetivo dos dois por cento de inflação “sem mas nem meio mas”.

“Deixem-me reiterar que o nosso esforço é atingir o objetivo da inflação. Nas atuais circunstâncias fazer regressar a inflação ao objetivo”, afirmou aos jornalistas.

"De um modo geral, um ritmo mais rápido de aperto das políticas nesta reunião ajudaria a trazer a inflação de volta ao objetivo de dois por cento de uma forma sustentável a médio prazo, e a reduzir os riscos de um ciclo de aperto mais prolongado e dispendioso mais tarde", acrescentou o banco.
"Perderam o controlo"
O atual chanceler, Nadhim Zahawi, afirmou que lidar com os custos de vida é “a principal prioridade” do Governo, lembrando o pacote de apoios orçado em 37 mil milhões de libras anunciado pelo executivo, que inclui o pagamento de 1.200 libras às famílias mais vulneráveis e descontos de 400 libras nas faturas de energia para todos.

Referindo que estes “enormes desafios” não afetam apenas o Reino Unido, Zahawi sublinhou que estão a ser tomadas medidas robustas para controlar a inflação, através “de políticas monetárias independentes, decisões sensatas quanto a impostos e despesas e reformas para incrementar a nossa produtividade e crescimento”.

“A economia recuperou fortemente da pandemia, com o maior crescimento no G7 o ano passado e estou confiante de que as ações que estamos a implementar implicam que também iremos ultrapassar estes desafios globais”, acrescentou o chanceler. Para a oposição, a decisão é “mais uma prova de que os Conservadores perderam o controlo da Economia, com a subida em flecha da inflação a prosseguir enquanto os custos de hipotecas e de empréstimos continuam a aumentar”.

O Partido Conservador atravessa uma crise interna com dois candidatos a perfilarem-se para obter a liderança do partido e aceder ao posto de primeiro-ministro.

A chanceler sombra Rachel Reeves aproveitou para criticar ambos os candidatos. “Enquanto as famílias e os pensionistas estão preocupados como é que vão pagar as suas contas, os candidatos conservadores passeiam-se pelo país anunciando políticas inviáveis que não farão o que quer que seja para ajudar as pessoas a sobreviver à crise” acusou.

Rishi Sunak, o ex-chanceler e um dos candidatos, aprovou a "decisão" do Banco de Inglaterra, reforçando que futuros executivos deverão procurar "controlar a inflação, não exacerbá-la". A sua rival, Liz Truss, prometeu olhar para o mandato do Banco de Inglaterra, para garantir que este mantém “um foco suficientemente centrado na massa monetária e na inflação”.

(com Lusa)
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