Corte na produção petrolífera decidido pela OPEP irrita a Casa Branca

por RTP
Ministro saudita da Energia, Abdulaziz bin Salman Al-Saud, em Viena, na Áustria Lisa Leutner - Reuters

Arábia Saudita e Rússia, à cabeça do cartel de energia da OPEP+, concordaram na quarta-feira com um corte de dois por cento na produção global de petróleo. A Administração norte-americana criticou a decisão, considerando que esta revela "falta de visão" perante o estado da economia global.

Num momento em que o petróleo, como fonte de energia, deveria estar a perder importância, a OPEP+ faz tremer o já elevado desequilíbrio económico mundial.

O corte de dois milhões de barris de petróleo por dia, ontem anunciado, não só irá ter um impacto no aumento dos preços dos combustíveis, como também restringir a estratégia norte-americana para reduzir os lucros russos.

A decisão surgiu durante uma reunião na sede da OPEP em Viena. No encontro esteve presente o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, que está sob sanções americanas.

Seguiu-se um esforço diplomático concertado, mas mal sucedido, por parte de Washington para interromper o corte na produção de petróleo.

Garantir o preço do barril "provou ser muito mais importante para os seus membros do que fazer a Rússia pagar um preço por invadir a Ucrânia", escrevem os analistas David E. Sanger e Ben Hubbard na publicação The New York Times.

De recordar que o Irão é membro da OPEP e se aproximou da Rússia nos últimos meses, vendendo-lhe drones militares para atacar território ucraniano.
Limites da diplomacia de Biden com os sauditas
A decisão do cartel petrolífero no sentido de reduzir a produção de petróleo é indicadora de que a influência do presidente dos EUA, Joe Biden, sobre os aliados do Golfo será muito menor do que esperava, escreve a publicação norte-americana: "Expõe o fracasso da diplomacia de Biden com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman".

Biden viajou em julho para a Arábia Saudita, onde se reuniu com o príncipe herdeiro, Bin Salman.

Terá então nascido um acordo secreto que assentaria num aumento de produção em cerca de 750 mil barris por dia na Arábia Saudita. Os Emirados Árabes Unidos seguiriam o exemplo com mais 500 mil. Desta forma, o preço do gás russo baixaria, reduzindo significativamente a capacidade do presidente Vladimir Putin para financiar a guerra na Ucrânia.

Durante julho e agosto, a produção saudita aumentou, mas no último mês o país líder da OPEP recuou no entendimento com os EUA.

Os principais produtores de petróleo entendem que, se a recessão global reduzir os preços abaixo de 80 dólares por barril, a estabilidade social é ameaçada devido aos lucros orçamentais serem menores.
O corte representa cerca de dois por cento da produção global de petróleo e é o primeiro em mais de dois anos. A decisão da OPEP terá um impacto de 15 a 30 centavos de dólar por cada 3,7 litros na bomba, estimaram os especialistas.
"Pouca visão" da OPEP
A Casa Branca já criticou a manobra "geopolítica" da OPEP.

A porta-voz da Casa Branca, Karin Jean-Pierre, afirmou: "Está claro que a OPEP+ está a alinhar com a Rússia, com o anúncio de quarta-feira".

O conselheiro norte-americano de Segurança Nacional, Jake Sullivan, e o diretor do Conselho Económico Nacional, Brian Deese, fizeram notar que o presidente Biden estava "dececionado com a decisão com a pouca visão".

“Acho que é um erro da parte deles. E acho que é hora de uma reavaliação em massa da aliança dos EUA com a Arábia Saudita”, disse, por sua vez, o senador democrata Chris Murphy, em declarações à estação norte-americana CNBC.

Tom Malinowski, um congressista democrata de Nova Jérsia, escreveu no Twitter: “A nossa mensagem para Mohammed bin Salman deve ser: se quer ficar ao lado de Putin, peça a Putin para defendê-lo. E boa sorte com isso”.

A Casa Branca já deu indicação de que fará uso do petróleo da reserva de emergência dos EUA e tentará encontrar outras medidas para contrariar o movimento da OPEP+.
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