Vítor Constâncio acusa Berardo de mentir e nega interferência na luta pelo BCP

por RTP
Constâncio salientou que se reuniu “uma única vez” com Berardo Tiago Petinga - Lusa

Vítor Constâncio garantiu esta terça-feira nunca ter estado reunido a sós com Joe Berardo e acusou-o de mentir no parlamento, frisando ainda que o empresário madeirense terá de “ponderar muito bem” se o quer como sua testemunha. Quanto à alegada luta pelo poder do BCP em 2007, o ex-governador do Banco de Portugal disse não ter exercido qualquer interferência.

“Tudo isso é mentira”, garantiu Vítor Constâncio sobre as declarações de Joe Berardo. O ex-governador esteve durante quase cinco horas na sua segunda audição na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da Caixa Geral de Depósitos.

“Vou analisar essas declarações que ele fez, pelos vistos, aqui na comissão. Vou analisar essas mentiras”, repetiu, frisando que Berardo mentiu no parlamento sobre alegadas reuniões entre ambos.

"Quando falei com Vítor Constâncio combinámos que ficava entre quatro paredes, que 'morria' ali (...). Ficou combinado e eu não vou dizer a ninguém", declarou José Berardo no dia 10 de maio, perante os deputados.


Em resposta, Constâncio salientou que se reuniu “uma única vez” com o empresário madeirense. "Essa reunião lembro-me perfeitamente. Recebi o senhor José Berardo acompanhado pelo diretor de serviços jurídicos, José Queiró, e Silva Ferreira", disse.

Quanto à intenção de Berardo de chamar Constâncio como testemunha no processo sobre as dívidas do empresário à banca, o antigo governador frisou que este deverá “ponderar muito bem se lhe interessa” que seja sua testemunha.
“Luta pelo poder”
“Não houve qualquer interferência na luta pelo poder (no BCP)”, frisou ainda Vítor Constâncio durante a audição.

Quanto à reunião convocada pelo Banco de Portugal a 20 de dezembro de 2007, na qual foi concluído que nenhum representante dos órgãos sociais do BCP de então estariam inibidos de concorrer à presidência do banco privado, Constâncio explicou que “essa reunião foi com todos os acionistas principais, a informação dada foi igual para todos, e acabou por se dar a informação essencial publicamente”.

De acordo com o antigo responsável do BCE, as reuniões estiveram também relacionadas com as denúncias sobre as contas offshore do BCP, sendo que “vários acionistas queriam saber se as notícias eram verdade” e “o que poderia acontecer ao banco”.

“Para não prejudicar ninguém, decidimos - não fui eu - que era melhor convocar um grupo de acionistas, de acordo com a percentagem de capital”, afirmou.

Vítor Constâncio disse ainda aos acionistas, na reunião, "que se confirmavam coisas graves no BCP", "que não poderia dizer nada sobre os processos enquanto eles estivessem a decorrer", e ainda que os acionistas deveriam "estabilizar o banco".
“Teia urdida”
Constâncio recusou ainda ter feito parte de uma "teia urdida", juntamente com Fernando Teixeira dos Santos (então ministro das Finanças) e José Sócrates (então primeiro-ministro), para controlar o BCP.

O ex-governador do BdP reagiu desta forma às acusações de Filipe Pinhal, antigo presidente do BCP, que na semana passada acusou José Sócrates de querer, na altura, controlar a banca, tendo para isso contado com o apoio de Vítor Constâncio e de Teixeira dos Santos.

Filipe Pinhal acusou ainda Sócrates de ter influenciado Joe Berardo a comprar ações do Banco Comercial Português, algo que o antigo primeiro-ministro negou e considerou “pura e velhaca maledicência”.

Também Vítor Constâncio considerou que Filipe Pinhal não tem "qualquer credibilidade", classifica as suas declarações de "calúnias".
Carta de Almerindo Marques
Constâncio regressou ainda a 2002, ano em que o então administrador da CGD, Almerindo Marques, lhe enviou uma carta a alertar para falhas no controlo de risco de crédito na Caixa Geral de Depósitos.

Depois de o deputado do PSD Duarte Marques ter acusado Constâncio de “ignorar” este alerta, o ex-governador do BdP disse não ter ignorado a carta e adiantou que falou sobre a mesma com António de Sousa, então presidente da CGD.

“Efetivamente não ignorei, porque terei falado com o presidente da Caixa. E confio inteiramente no que disse António de Sousa sobre isso. Em 2002 não havia qualquer crise e nada que pudesse afetar a posição solidíssima da CGD”, afirmou Constâncio.

Na sua primeira audição, a 28 de março, Vítor Constâncio tinha dito não saber se tinha ou não recebido uma carta de Almerindo Marques.

"Não tenho ideia dessa carta e não tenho obrigação de ter memória e recordação de todas as cartas que recebi, processos que vi, relatórios que li. É completamente impossível, por amor de Deus", disse o antigo vice-presidente do Banco Central Europeu.

c/ Lusa

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