A França dos pequenos candidatos: o pastor, as conspirações e a colonização da Lua

Há outra França para lá de Fillon, Mélenchon, Macron, Hamon e Le Pen. São seis candidatos que também procuram chegar ao Eliseu, mas que as sondagens colocam bem longe do palácio presidencial. Há quem queira apostar na colonização da Lua, tenha estado semanas em greve de fome e quem não tenha medo das palavras para falar dos adversários.

| Eleições França 2017

Portugal habituou-se já a ouvir falar em Marine Le Pen, Emmanuel Macron, François Fillon, Jean-Luc Mélenchon e Benoît Hamon. Com exceção do candidato socialista, protagonizam uma invulgar corrida a quatro pelo acesso à segunda volta das eleições presidenciais.

Mas há mais candidatos. Para além dos cinco melhores colocados nas sondagens, há seis outros pretendentes ao Eliseu. São representantes de partidos mais pequenos e não ultrapassam os cinco por cento nas intenções de voto.

Ambos fruto do pensamento trotskista, Nathalie Arthaud e Phillippe Poutou são os candidatos do Lutte Ouvrière e do Novo Partido Anticapitalista. Poutou tem merecido mais atenção nas redes sociais, depois do sucesso de algumas tiradas lançadas contra Le Pen e Fillon durante o debate.

Há candidatos mais insólitos. Há mesmo um filho de pastores, que expôs as suas linhas programáticas num livro intitulado “Um pastor no Eliseu”. Soma já episódios caricatos, que incluem uma longa greve de fome e mais de seis mil quilómetros a pé.

Mas nas candidaturas insólitas ganha grande destaque Jacques Cheminade. Repetente na corrida ao Eliseu, o candidato aposta forte nas conquistas espaciais: quer colonizar a Lua para depois avançar com a exploração de Marte.






Philippe Poutou é o candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA). Poutou já se tinha candidatado em 2012, tendo obtido 1,15 por cento dos votos na primeira volta. O candidato é mecânico na Ford, profissão que acumula com a pequena carreira política.

Poutou tem falta de experiência política, sendo também aí que vai buscar parte do seu encanto. Nos últimos cinco anos, tornou-se mais popular e é visto como alguém simpático, semelhante a tantos outros trabalhadores.

Com Poutou, não há lugar a palavras brandas ou ocas. No debate presidencial de 4 de abril, foi uma das personagens mais populares com os seus ataques a François Fillon e Marine Le Pen, acusando-os de roubar as instituições francesas e europeias, numa referência aos processos em que os dois estão envolvidos.


Somou mais intervenções polémicas ao longo das últimas semanas, mantendo pouco cuidado com as palavras e sempre vestindo uma mera t-shirt, rejeitando gravatas. Até recusou ser fotografado com os restantes candidatos no único debate em que todos compareceram.

A postura de Poutou divide opiniões: entre a naturalidade de um candidato do povo e o limite da má educação. No que se pareceu como um lapso de um candidato menos adaptado às luzes da televisão, referiu-se a Nicolas Sarkozy como “autre con”. Classificou já os princípios da Frente Nacional de “ideias de merda”.

Desde cedo militante de extrema esquerda, é sindicalista, tendo lutado para que a fábrica onde trabalha não fosse encerrada pela Ford. Defende um modelo de 32 horas de trabalho semanal em quatro dias e o aumento do salário mínimo.
 
Apesar dos fenómenos esporádicos de popularidades nas redes, Philippe Poutou mantém-se como um dos pequenos candidatos. As sondagens atribuem-lhe entre um e dois por cento dos votos na primeira volta. Tem de enfrentar, no mesmo espetro político, a concorrência de Jean-Luc Mélenchon e de Nathalie Arthaud.




É o decano dos candidatos. Desde 1981 que tenta ser candidato presidencial, mas nem sempre conseguiu. Falhou em 1981, 1988, em 2002 e 2007, não tendo conseguido recolher as assinaturas necessárias. Conseguiu avançar com a candidatura em 1995 e 2012, nunca tendo ultrapassado os 0,25 por cento dos votos.

Cheminade apresenta-se pelo partido Solidariedade e Progresso, grupo que o próprio fundou em 1996. É a versão francesa do movimento norte-americano LaRouche, visto como anti-sistema, mas também associado à homofobia, ao antissemitismo e que duvida do impacto na ação humana nas alterações climáticas.

O candidato quer ver a França fora da União Europeia, da NATO e da Zona Euro. Cheminade apresenta-se contra o que apelida de “globalização financeira” e defende a nacionalidade das empresas “estratégicas”.

É sobretudo conhecido por uma proposta insólita mas que defende com unhas e dentes: é preciso colonizar a Lua, para mais facilmente avançar com a exploração de Marte. O objetivo é mesmo o de construir centros industriais e de ciência no satélite natural da Terra, que o candidato considera ser “o trampolim em direção ao sistema solar”.

“Digam o que disserem os jornalistas ignorantes e de má-fé que pretendem ver nisto um assunto ridículo e fora de contexto na campanha presidencial, o espaço é a ponta de lança do meu compromisso político”, justifica no site oficial.




Como será ter "um pastor no Eliseu"? As sondagens indicam que é praticamente impossível que tal aconteça e, na verdade, Jean Lassalle também não é efetivamente um pastor. Mas esse foi precisamente o título que deu ao livro onde apresentou as bases da sua candidatura presidencial.

Filho de pastores, Lassalle tenta apresentar-se como o candidato do meio rural, ele que preside a uma autarquia que conta apenas com 160 habitantes desde 1977. Crítico da globalização e da União Europeia, Lasalle foi companheiro durante largos anos de François Bayrou no Modem, o partido do centro francês, que agora apoia a candidatura de Emmanuel Macron.

Jean Lassalle apresenta-se como candidato do movimento Resistons! (Resistamos!), que o próprio fundou em 2016. A Slate retrata-o como o candidato da “velha França”, do tempo em que os “estudantes envergavam uniformes” e em que “o serviço militar era obrigatório”. Mas Jean Lassalle é também o candidato do espetáculo. É um “mestre em happening político”, retrata Le Monde.

Em 2003, cantou no Parlamento para interpelar o então ministro do Interior Nicolas Sarkozy. Três anos depois, lançou uma greve de fome que durou cinco semanas. Perdeu 21 quilos, acabou hospitalizado mas cumpriu o objetivo: evitar o fecho de uma fábrica.
 
Em 2013, o agora candidato presidencial decide percorrer a pé o país. Percorre mais de seis mil quilómetros em nove meses para ir “ao encontro dos franceses” e dar “voz aos sem voz”. Seguem-se intervenções no Parlamento que motivam o riso dos deputados, incluindo do agora candidato Emmanuel Macron.

Apesar das suas particularidades, Lassalle garante estar pronto para enfrentar os líderes das restantes potências. "Sei que posso fazer frente a Donald Trump e Vladimir Putin porque enfrentei já ursos e lobos", garantiu à comunicação social.

Recentemente, Lassalle foi um dos três deputados franceses que se reuniram com o Presidente sírio Bashar al-Assad. Para além do show político em que se tornou um especialista, Lasalle diz querer retirar a França “do jugo assustador da ditadura financeira”. Pretende avançar com a reforma dos tratados europeus e reforçar os poderes das autarquias.



É mais um dos candidatos que defende a saída da França da União Europeia, proclamando-se mesmo como "o candidato do Frexit". François Asselineau autointitula-se como herdeiro do pensamento social de Charles de Gaulle e da soberania francesa.

Tem uma longa carreira como alto quadro da função pública francesa, tendo passado por alguns gabinetes ministeriais. Aderiu em 2004 à UMP de Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, partido que decide abandonar em 2006, em oposição com o apoio do partido à União Europeia e aos Estados Unidos.

Em 2007, Asselineau funda a União Popular Republicana, movimento defensor da soberania francesa e da saída do país da União Europeia, conhecido pelas tentativas de perseguição à comunicação social.

Para além de querer Paris fora da União Europeia, que considera ser a aplicação civil da NATO, defende a saída da aliança militar e é profundamente crítico dos Estados Unidos. Aliás, criticou a recente reforma das regiões francesas, alegando que foi copiado do modelo norte-americano e que duas delas têm uma dimensão similar ao Maryland e à Carolina do Sul.

Se muitos o veem como um teórico da conspiração, Asselineau responde que é um candidato denegrido pela comunicação social devido ao seu discurso "incómodo". Rejeita comparações com a Frente Nacional, afirmando-se contra "o choque de civilizações" e verdadeiramente defensor da saída da União Europeia.

François Asselineau tinha já tentado candidatar-se em 2012, mas não conseguiu reunir as assinaturas necessárias. As sondagens preveem que tenha um resultado muito pouco expressivo.




Pela segunda vez, Nathalie Arthaud é a candidata da Lutte Ouvrière, partido político francês de base trotskista. A candidata entrou no partido com apenas 18 anos, tendo-se tornado porta-voz do mesmo em 2008.

Foi candidata ao Eliseu em 2012, conseguindo apenas 0,56 por cento dos votos. O resultado é muito inferior ao que o seu partido tinha conseguido em anteriores votações: 1,33 por cento em 2007 e 5,72 por cento em 2002.

Arthaud é professora de economia e define-se como a "candidata comunista" neste ato eleitoral. A professora tenta seduzir algum eleitorado do Partido Comunista Francês, que decidiu apoiar Jean-Luc Mélenchon do Partido de Esquerda.

A candidata trotskista quer ver o salário mínimo aumentado dos atuais 1.100 euros para 1.800 euros. A Lutte Ouvrière pretende combater o desemprego com a proibição dos despedimentos e o aumento do número de funcionários ao serviço do Estado.

Arthaud defende ainda a expropriação dos bancos e do setor financeiro, sem que haja lugar ao pagamento de qualquer indemnização. Nathalie Arthaud é a única dos candidatos a manter a sua atividade profissional durante a campanha.




Fez toda a carreira política nos partidos que deram lugar aos atuais Republicanos, mas abandonou as hostes em 2006. Na altura, Dupont-Aignan saiu em profundo desacordo com Nicolas Sarkozy, na altura designado candidato da direita ao Eliseu.

Com a saída da UMP (que viria a ser rebatizada de Os Republicanos em 2015), Dupont-Aignan avança com a criação do partido Debout la République, que passa a Debout la France em 2014.

Dupont-Aignan é autarca na cidade de Yerres desde 1995, sendo também deputado. Foi já candidato em 2012, tendo obtido 1,79 por cento dos votos. Agora, há mesmo sondagens que lhe atribuem quatro por cento na primeira volta.

O candidato intitula-se sucessor do Gaullisme do ex-Presidente Charles de Gaulle e situa-se politicamente entre Marine Le Pen e François Fillon. “Entre a rutura pelo drama e a falsa rutura”, afirma o candidato.

Dupont-Aignan não deixou de ter os seus momentos de show político. Em 2011, o deputado amordaçou-se por não ter sido autorizado a intervir num debate sobre a intervenção francesa na Líbia. Já este ano, abandonou uma entrevista na TF1 em protesto por não ter sido convidado para o confronto a cinco realizado pela televisão privada francesa.

O candidato do movimento Debout la France quer um novo tratado europeu para acabar com o projeto atual. Dupont-Aignan pretende fundar uma “comunidade dos Estados europeus”, em que cada país mantém a soberania no que diz respeito à moeda, ao orçamento, às leis e às fronteiras.

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