Juncker antevê quebra de promessas de Tsipras e critica dureza ibérica

por João Ferreira Pelarigo, RTP
Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, com Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego François Lenoir, Reuters

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirma em entrevista publicada esta quarta-feira pelo jornal espanhol El País, que Alexis Tsipras assumiu responsabilidades, mas terá ainda de explicar aos gregos que não serão cumpridas algumas das promessas com as quais o Syriza chegou ao poder. Ao mesmo tempo estima que Portugal e Espanha foram muito exigentes com a Grécia.

O presidente da Comissão Europeia acredita que a desconfiança das pessoas para com as instituições é um desafio, mas é o desemprego o grande problema da Europa.

"A Europa não é um Estado com um Governo e um Tesouro. Com o desenho atual da Zona Euro, as regras são imprescindíveis para coordenar as políticas económicas. O Pacto de Estabilidade já permite flexibilidade; a União Bancária é um salto para evitar que se incube uma réplica da crise financeira. A União Económica e Monetária é um processo em contínua construção", destacou Jean-Claude Juncker.

"Estamos a meio da crise: isto ainda não acabou", alertou Juncker.

Quanto a resultados das políticas europeias, afirmou que "as reformas estruturais levam tempo a dar resultados" e que é preciso "dar tempo ao tempo".

Segundo o presidente da Comissão Europeia, o Syriza tem um diagnóstico certeiro da situação. Contudo, as suas propostas podem conduzir o projeto europeu ao "bloqueio total".

No caso espanhol, com o Podemos, Juncker acredita haver uma situação semelhante à grega.

Se estes novos partidos "ganham eleições, são incapazes de cumprir as suas promessas, de transformar os seus programas em realidades".

Justifica esta afirmação dizendo que "as propostas de alguns desses partidos não são compatíveis com as regras europeias".
"Foto grega é muito colorida"
O antigo primeiro-ministro luxemburguês deixou claro na entrevista ao diário espanhol que as eleições não alteram os tratados. Sublinhou que pode haver mais flexibilidade, mas que "a vitória de Tsipras não lhe dá o direito a mudar tudo".

Juncker disse que o primeiro-ministro grego "fez as perguntas certas", mas que "nunca deu as respostas".

Assume que começar a assumir responsabilidades foi um passo fundamental para a Grécia, mas salienta um problema. Juncker afirma que Tsipras tem que explicar ao povo grego que algumas das promessas com que ganhou as eleições "não se vão cumprir".

"A fotografia grega é muito colorida do ponto de vista de quem observa, sejam os alemães, os gregos, os portugueses ou os espanhóis", disse.
Portugal muito exigente
Na mesma entrevista a El País, Jean-Claude Juncker aponta excessos de Portugal e Espanha na postura face ao novo poder executivo grego: "Nas últimas semanas, Espanha e Portugal têm sido muito exigentes em relação à Grécia".

O presidente da Comissão comentou ainda a realidade do poderio alemão sobre a Europa, concluindo que "a Grécia é um exemplo de que essa impressão sobre a Alemanha liderar a Europa com mão de ferro não corresponde à realidade".

Acrescentou que países como a Holanda, Finlândia, Eslováquia, os Estados do Báltico e a Áustria são mesmo "mais severos do que a Alemanha".
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