Jornal do Fundão sai do seio da família Palouro 72 anos após criação

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O Jornal do Fundão, meio regional do distrito de Castelo Branco, vai deixar de pertencer à família Palouro, que o criou há 72 anos e agora vendeu a participação por não se identificar mais com aquela publicação.

Criado por António Palouro, em 1946, o Jornal do Fundão já era propriedade da Global Media, que detinha mais de metade do capital social, sendo que cerca de 40% correspondia aos herdeiros e o restante a um antigo funcionário.

Agora, com a venda da participação da família, "a um valor simbólico", a Global Media fica com praticamente toda a propriedade do jornal, explicou Maria José Palouro, filha do fundador da publicação e ex-gerente, à agência Lusa.

"O Jornal do Fundão era um jornal de causas e agora isso já não existe, a única coisa que mantém é o nome e, por isso, tive de me retirar", justificou a herdeira.

Admitindo que esta foi uma "venda muito dolorosa", Maria José Palouro notou que "a dor diminui um bocadinho porque o jornal não tem nada a ver com o que era".

"Ainda supus que aquilo pudesse vir a ser remediado, mas depois percebi que não", adiantou a responsável.

Questionada pela Lusa sobre o projeto que tem para o Jornal do Fundão ou se o pretende vender, a Global Media optou por não fazer comentários.

Há 72 anos, António Palouro decidiu criar esta publicação para "tentar dar voz a quem não a tinha", defendendo causas como a luta dos mineiros contra a silicose, a criação de infraestruturas contra o isolamento do interior e a defesa do regadio da Cova da Beira, contou a filha à Lusa.

"O jornal chegou inclusive a ter muitos problemas com a censura" na época da ditadura de Salazar e Marcelo Caetano, apontou Maria José Palouro, lembrando que, por isso, a publicação foi suspensa por seis meses em 1965.

Além disso, "era um jornal que, para a sua época, era muito completo e teve sempre suplementos culturais e colaboradores de elite", como o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, ou o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, acrescentou.

Porém, em 1998, "o meu pai achou que já estava com alguma idade e vendeu metade do jornal" à então Lusomundo, empresa que depois foi comprada pelo grupo Controlinveste, em 2005, referiu a herdeira.

Anos depois, a Controlinveste deu origem ao Global Media Group.

Estas movimentações acabaram por afetar o Jornal do Fundão, levando a que se tornasse num "jornal completamente incaracterístico e sem singularidade, quando outrora foi um jornal com prestígio, até no estrangeiro", observou Maria José Palouro.

Referindo que o grupo Global Media chegou a propor uma alienação da sua participação, a herdeira disse que analisou a aquisição, desde logo por ter direito de preferência, mas optou por não apresentar uma proposta dado que já não tinha "grande ligação com o jornal".

Fernando Palouro Neves, primo de Maria José Palouro, foi diretor do Jornal do Fundão desde a saída do fundador até 2012, ano em que saiu por considerar que a publicação "estava descaracterizada da sua matriz editorial e do património que tinha".

"O jornal singularizou-se porque sempre teve um papel primordial naquilo que era a defesa da liberdade de expressão e de informação", realçou em declarações à Lusa.

Porém, com as mudanças na administração, houve um "desvirtuamento gradual daquilo que era a sua matriz diferencial" e hoje "é um jornal cada vez mais igual aos outros", adiantou Fernando Palouro Neves.

Para o também escritor, o fim da participação da família representa "um ciclo que acaba, devido ao fim do vínculo sentimental, mas que já havia terminado há tempos".

A notícia foi dada aos leitores na edição do Jornal do Fundão desta semana, que saiu na quinta-feira, com uma nota na primeira página com o título "Fim de ciclo".

Tópicos:

Controlinveste, Cova, Drummond Andrade Porém, Palouro, Questionada,

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