África do Sul acelera vacinação. Casos devem triplicar esta semana

por Cristina Sambado - RTP
EPA

Enquanto aumenta a lista de países que bloqueiam a chegada de cidadãos da África Austral, na África do Sul, país onde foi registada a primeira infeção com a variante Ómicron, as autoridades alertam a população que a única forma de recuperar a economia com garantias é através da vacinação. O número de novas infeções pode chegar às 10 mil no final desta semana.

O Governo sul-africano quer ter 70 por cento da população vacinada até ao final de 2021, mas ninguém acredita que seja possível, em apenas quatro semanas, dobrar o número atual de vacinados que está atualmente em 34,5 por cento. No país não há falta de vacinas, o problema está no receio da população de alegados efeitos adversos da vacinação, apesar de todas as campanhas e esforços das autoridades para explicar que é um medicamento seguro.

Com uma média de três mil novas infeções diárias – na última semana, os casos positivos passaram de 2,3 por cento para 9,8 por cento dos testes realizados – o país (de 60 milhões de habitantes) continua com um nível baixo de alerta desde março de 2020.


A estratégia passa pelas responsabilidade individual, e não pelas restrições, que ajude a mitigar os efeitos da quarta vaga da pandemia de Covid-19, que está prevista começar em dezembro.

Esperamos que os casos continuem a aumentar até chegar aos 10 mil por dia no final desta semana. A pressão nos hospitais também vai aumentar nas próximas duas a três semanas e, embora a Ómicron não seja clinicamente mais grave (do que as outras variantes do SARS-CoV-2), vamos sofrer com a velocidade com que é transmitida”, explicou Salim Abdool Karim, epidemiologista e membro da Task Force para o combate ao novo coronavírus, ao jornal espanhol El País.

Segundo Salim Abdool Karim, “as medidas de saúde pública funcionam e devemos usá-las: máscara, distanciamento social e ventilação. O grande desafio será evitar ajuntamentos em que o contágio aumente”.

Devemos usar as nossas vacinas com mais eficácia. Tenho e impressão de que simplesmente temos sido lentos em exigir a certo grupos, como os profissionais de saúde, sejam vacinados”, acrescentou Karim que esteve à frente da comissão especial criada pelo Governo sul-africano para controlar a Covid-19 no primeiro ano da pandemia.

O debate sobre a obrigatoriedade da vacinação - medida qua ainda não foi oficialmente adotada – emergiu com força na sociedade sul-africana. Referências à Constituição, que não complementa este tipo de interferência nas decisões individuais, e ao passaporte da vacinação, que ainda não foi objeto de discussão no país. “Isolar a África Austral não é solução”“A descoberta no Botsuana e um dia depois na África do Sul da nova variante é um sucesso científico, o resultado do investimento do nosso país na ciência. A África do Sul e o resto do mundo devem agora transformar esse sucesso numa resposta bem-sucedida”, realçou Karim.

Para o epidemiologista, “a última coisa que devemos fazer é entrar em pânico e reagir de forma exagerada. O encerramento das fronteiras não traz nenhum benefício, isolar a África Austral não é solução”.

Salim Abdool Karim recorda ainda que, quase dois anos depois do início da pandemia de Covid-19, os especialistas já sabem perfeitamente “como diminuir o risco na hora de viajar: vacinar, verificar a temperatura na entrada do avião, teste PCR negativo, máscara e um novo teste à chegada ao destino”.
Apelo à vacinaçãoPara tentar convencer a população a aderir à vacinação, o ministro da Saúde, Joe Phaahla, aproveitou a reação da comunidade internacional de suspender os voos de e para o país. Realçando que a vacinação é a única forma de recuperar a economia.

No entanto, Joe Phaahla volta a afirmar que a reação da comunidade internacional é “injustificada”.

No domingo, o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, pediu o levantamento imediato das restrições de viagens e apelou à população para aderir à vacinação.

Na mesma linha, cientistas, políticos e forças sociais alertam que esta semana é decisiva para que o país não tenha de recorrer a restrições mais severas. Alertam também para discussões oficiais em que se considera que a vacina deve ser obrigatória para entrar em espaços públicos ou para realizar determinadas atividades sociais.

A vacinação é um ato de solidariedade com os profissionais de saúde, para proteger os idosos que, embora vacinados, ainda estão em risco. A sociedade já teve tempo de se vacinar, há um grande número de campanhas a apelar à vacinação. Agora é hora de agir, temos de o fazer”, afirmou Matthew Parks, a porta-voz do Congresso dos Sindicatos sul-africanos.

Nicholas Crisp, do departamento de Saúde, faz uma comparação entre o tabaco e a vacinação. “Na África do Sul temos uma situação em que não se pode fumar em todos os lugares, quando eu era jovem podíamos fumar no cinema, no avião, no médico… Agora, temos uma ordem que afirma que não podemos fumar em determinados locais, e os fumadores aceitam. As pessoas devem entender que, no contexto atual, se as autoridades recomendarem que quem não seja vacinado não pode frequentar alguns locais, terá que ficar em casa, ou ser vacinado”.
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