Alunos angolanos alertam para o risco de ficarem ilegais por atrasos nas transferências

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Muitos estudantes angolanos são obrigados a trocar os estudos por um trabalho porque o dinheiro enviado pelas famílias demora meses a ficar disponível, atrasando o pagamento das propinas e impedindo a renovação do visto de residência

De um dia para o outro, tornam-se "ilegais", segundo o presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal (AEAP), Luís Vitorino, em declarações à Lusa.

No ano passado, estavam inscritos nas instituições de ensino superior portuguesas 3.222 estudantes angolanos, segundo dados da Direção Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência (DGEEC), que indicam que este número tem vindo a aumentar ligeiramente todos os anos.

"A crise financeira e bancária que rebentou no final de 2014 e inícios de 2015 em Angola também atingiu os estudantes. Desde 2016, com as dificuldades nas transferências bancárias para Portugal, começou a notar-se um movimento de abandono dos estudos", explica.

Sozinhos em Portugal, alguns estudantes chegam a ficar "três meses à espera para receber o dinheiro depositado no banco pelos pais", em Angola.

Uns acabam por regressar a casa enquanto outros optam por "`trancar´ o ano na universidade e ir trabalhar" para pagar as contas do dia-a-dia, que vão desde a alimentação, à estadia e até às propinas.

Um estudante estrangeiro precisa, em média, de cerca de mil euros por mês para conseguir sobreviver em Portugal, segundo uma estimativa do presidente da AEAP.

Nestas contas pesa muito o valor das propinas que, desde 2014, disparou para os estudantes internacionais: "Na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, por exemplo, a propina anual ronda os sete mil euros", conta.

Alguns angolanos vêm estudar para Portugal com a ajuda de uma bolsa, do Estado ou de entidades privadas, mas a maioria vem por conta própria e, nestes casos, a situação complica-se ainda mais.

Um estudo da DGEEC mostra que quase metade dos bolseiros PALOP (42%) abandonou os estudos antes de terminar a licenciatura em que se tinha inscrito.

Ao acompanhar o percurso dos alunos durante quatro anos, o relatório revela que apenas um em cada quatro bolseiros dos PALOP (24%) conseguiu diplomar-se no curso em que se tinha inscrito.

Outros 23% continuaram inscritos no mesmo curso, 11% mudaram de curso e 42% "não foram encontrados no ensino superior", segundo o estudo da DGEEC divulgado este ano.

Segundo Luís Vitorino, os estudantes sem bolsa vivem situações ainda mais complicadas quando o dinheiro enviado pelos pais demora a chegar. Muitos veem-se forçados a trocar a sala de aula por um emprego.

O problema é que já não conseguem renovar o visto que lhes foi dado para estudar porque ao não pagar as propinas deixam de ter o documento comprovativo da frequência da instituição de ensino superior exigido para a renovação do documento.

"Para conseguirem estar em paz, os estudantes têm de ter este documento. O título de residência é o nosso documento de identificação. Não podemos andar na rua sem ele", sublinha Luís Vitorino, lembrando ainda que é através dele que têm, por exemplo, acesso ao serviço de saúde.

Luís Vitorino reconhece que tem havido uma preocupação por parte das instituições de ensino superior: "Algumas universidades fizeram acordos com os alunos para que possam pagar as propinas em prestações, passando as declarações necessárias", saúda, dando como exemplos o Instituto Politécnicos de Setúbal ou a Universidade de Lisboa.

Quando a ajuda das instituições não é suficiente, acabam por recorrer ao Alto Comissariado para as Migrações, "que dá apoio jurídico para tratar da legalização", contou.

Luís Vitorino espera que a visita do Presidente angolano, João Lourenço, esta semana, sirva para chamar a atenção para este problema dos alunos que vivem a mais de seis mil quilómetros de distância dos pais.

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