Ambientalistas consideram insuficientes medidas do Facebook contra desinformação climática

por Inês Moreira Santos - RTP
Reuters

O Facebook anunciou, esta semana, novos esforços para combater a desinformação sobre a crise climática nas redes sociais, incluindo a expansão e mais investimento no Centro de Ciência do Clima para garantir a divulgação de informação segura. Mas os ativistas e alguns críticos consideram que ainda não é suficiente para acabar com as fake news sobre questões ambientais nas plataformas de Mark Zuckerberg.

"Hoje, anunciamos novas medidas para ajudar a nossa comunidade a envolver-se com as questões do clima e a garantir que as pessoas tenham acesso a informações confiáveis, reduzindo a desinformação", anunciou em comunicado a empresa, na quinta-feira.

Não é de agora que o Facebook é criticado por permitir que informações falsas sobre a crise climática se disseminem na plataforma. O próprio Mark Zuckerberg admitiu, numa audiência no Congresso norte-americano em abril de 2021, que a desinformação climática é "um grande problema".

Vários especialistas sobre a desinformação em questões climáticas têm alertado mesmo para a rapidez com que estas notícias falsas sobre o ambiente se podem espalhar na rede social. O grupo InfluenceMap descobriu, em outubro do ano passado, que dezenas de informações negacionistas sobre as alterações climáticas tinham sido visualizadas mais de oito milhões de vezes depois de passarem pelos filtros da rede social.

Agora, a multinacional de Mark Zuckerberg quer reforçar o seu Centro de Ciência do Clima, criado em 2020, com mais dados científicos, questionários e vídeos, e ainda investir um milhão de dólares em doações para grupos "que trabalham para combater a desinformação climática".
Que medidas anunciou o Facebook?

O pacote de medidas, anunciado na quinta-feira pela empresa, é uma resposta ao relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que revelou que o planeta está prestes a atingir os 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do previsto.

No documento, cientistas de 66 países destacaram que não há como impedir que o aquecimento global se intensifique nos próximos 30 anos, mas as medidas tomadas agora podem ajudar a desacelerar ou, pelo menos, a estabilizar o aumento das temperaturas.

"Sabemos que esta é uma questão importante para a nossa comunidade", escreveu a empresa. "Numa investigação que realizamos no início deste ano no Facebook, em parceria com o Programa de Comunicação sobre Alterações Climáticas de Yale, descobrimos que mais de seis em cada dez pessoas em todos os países e territórios em análise ​​querem mais informações sobre as alterações climáticas".

Nesse sentido, o Facebook decidiu tomar "medidas para garantir que as pessoas tenham acesso a informações confiáveis ​​e, ao mesmo tempo, reduzir a desinformação climática, mesmo que esta represente uma pequena parte do conteúdo geral sobre o clima" nas plataformas digitais da empresa.

Em setembro de 2020, a multinacional lançou o Centro de Informação de Ciência do Clima. Agora, um ano depois, o Facebook anunciou que vai renomeá-lo para Centro de Informação do Clima e investir na sua expansão, "adicionando novos recursos, como questionários, para melhor informar e envolver a nossa comunidade nas alterações climáticas".

Além disso, anunciou o "aumento de informações confiáveis ​​sobre alterações climáticas", através do investimento de um milhão de dólares num "novo programa de subsídios climáticos, em parceria com a International Fact Checking Network, para apoiar organizações que trabalham para combater a desinformação climática".

"Estamos a expandir a nossa secção sobre Factos sobre Alterações Climáticas do Centro de Ciências do Clima com dados científicos novos", esclareceu a empresa, acrescentando que, desta forma, pretende também investir "em propostas que construam alianças entre verificadores de factos, especialistas do clima e outras organizações para apoiar projetos que se centrem no combate à desinformação climática".

A terceira medida anunciada pelo Facebook é elevar "as vozes do clima", lançando "uma série de vídeos para destacar os jovens defensores do clima no Facebook e no Instagram entre a Semana do Clima e a COP26".

"Começando durante a Semana do Clima, de 20 a 26 de setembro, vamos destacar criadores e defensores que aumentam a consciencialização sobre as alterações climáticas nas nossa plataformas. (...) Também continuaremos a apoiar a série 'Say It With Science' no Facebook, onde a Fundação das Nações Unidas e o IPCC reúnem cientistas e jovens defensores para apresentar as últimas novidades das ciências climáticas à nossa comunidade".
Novas medidas "não chegam à raiz do problema"

Em março deste ano, 13 grupos ambientalistas, incluindo o Union of Concerned Scientists e o Greenpeace, enviaram a Marck Zuckerberg uma carta pedindo-lhe que se comprometesse a monotorizar a desinformação climática e fornecer mais transparência sobre a escala do problema.

"A desinformação sobre a mudança climática está a espalhar-se rapidamente pela rede social Facebook, ameaçando a capacidade dos cidadãos e legisladores de combater a crise climática", escreveram na altura os grupos.

Um estudo recente conduzido pela Friends of the Earth, uma organização ambientalista, descobriu que cerca de 99 por cento da desinformação climática sobre as quedas de energia em fevereiro de 2021 no Texas não foram verificadas.

Michael Khoo, co-presidente da organização, argumentou que os dados "revelam que o Facebook e outras plataformas de tecnologia devem tomar medidas muito mais firmes para limitar os super-propagadores e não colocar a responsabilidade nos utilizadores comuns".

Embora o estudo se centrasse no incidente no Texas em particular, Khoo afirmou que este ressaltou a questão de o Facebook não filtrar o suficiente a desinformação climática.

"O Facebook conhece os propagadores da desinformação climática e deve acabar com as suas mentiras", disse Michael Khoo ao Guardian.

"Para uma empresa que ganha 85 mil milhões de dólares por ano, um programa de um milhão de dólares que terceiriza o problema que eles criaram e mostra que o Facebook não leva a sério a solução da desinformação climática", continuou o especialista.

Também Evan Greer, vice-diretor da organização de direitos digitais Fight for the Future, confirmou ao jornal britânico que o Facebook tem enfrentado outras críticas no que diz respeito ao combate à desinformação climática, visto que a plataforma foi acusada de ocultar publicações e informações de organizações confiáveis.

Os ambientalistas e críticos consideram que estas novas medidas, anunciadas pelo Facebook, "ainda não chegam à raiz do problema". Tentar direcionar os utilizadores do Facebook para um "Centro de ciência" não impede, na verdade, os negacionistas do clima de publicarem informações falsas que podem espalhar-se facilmente nas redes sociais.

Além disso, criticam também o facto de o Facebook continuar a aceitar verbas publicitárias de empresas de petróleo e gás.

"A empresa fala sempre sobre o seu compromisso no combate às alterações climáticas, mas continua a permitir que a sua plataforma seja usada pelo setor dos combustíveis fósseis para minar a ação climática baseada na ciência", escreveu em comunicado, esta sexta-feira, Faye Holder, gestor do programa InfluenceMap.

Segundo esta organização, 25 empresas do setor de petróleo e do gás gastaram quase 9,6 milhões de dólares em anúncios no Facebook no ano passado.
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