Angelina Jolie diz que falha ação política para travar a violência sexual como arma de guerra

por RTP
Discurso de Angelina Jolie, gravado em vídeo, para a Conferência PSVI de Londres. Twitter

 Os políticos não fazem o suficiente para prevenir e ajudar as vítimas de violência sexual em conflitos armados, nem para deter os agressores, diz a enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Angelina Jolie. Representantes de cerca de 70 países reúnem-se hoje e terça-feira em Londres numa Conferência de Prevenção da Violência Sexual em Conflitos, onde vão discutir formas de combater este tipo de crimes.

Em 2014, cerca de 150 países assinaram a Declaração Global de Compromisso para acabar com a a violência sexual em conflitos. No documento foram traçadas promessas de ajudar na recuperação dos sobreviventes, levar os perpetradores à justiça, acabar com a impunidade, entre outras ações.

Passados quase dez anos sobre a declaração de intenções, Angelina Jolie, conhecida atriz e enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), vem denunciar a falta de ação dos governos no apoio e defesa das vítimas de violência sexual.
"Profundamente doloroso e frustrante"
Numa década “houve algum progresso” escreve Jolie na publicação britânica The Guardian. Mas “apesar dos compromissos assumidos pelos governos, não vimos uma ação significativa e duradoura em nível global. Isso é profundamente doloroso e frustrante.”

Jolie, que lançou a Iniciativa de Prevenção da Violência Sexual em Conflitos (PSVI) com o então secretário de Relações Exteriores britânico William Hague em 2012, aponta o dedo aos executivos por não haver progresso “suficiente" em levar os perpetradores à justiça, e ajustarem prioridades na ajuda aos sobreviventes.

“Nós reunimo-nos e discutimos esses horrores e concordámos que não deveriam voltar a acontecer. Prometemos traçar – e manter – essa linha” afirmou.

“Mas quando se trata de escolhas difíceis sobre como implementar essas promessas, deparamo-nos sempre com os mesmos problemasEncontramos alguns membros do Conselho de Segurança a abusar do seu poder de voto, como no caso da Síria”, denuncia Jolie.

E acrescenta: “Deparamo-nos com interesses económicos e políticos a serem colocados em primeiro lugar, tratando alguns conflitos como mais importantes do que outros. E deparamo-nos com falta de vontade política, o que significa que os governos nos últimos anos retiraram a importância dos esforços para combater a violência sexual em zonas de guerra, apesar do vínculo direto com a paz e a segurança internacionais”.

Em Londres, esta segunda e terça-feira decorre a Conferência de PSVI para assinalar a década dos trabalhos. Com cerca de 70 países representados, irá ser discutido formas de combater este tipo de crimes em países como a Ucrânia, Etiópia e Colômbia.

Na abertura da conferência, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, James Cleverly, defende que "a própria ameaça de agressão e a violência sexual usada a como arma de guerra deve ser condena internacionalmente, de forma imediata, para impedir esses ataques antes que aconteçam".

"Hoje, solidarizamo-nos para apoiar os sobreviventes e trazer justiça. Mas também para enviar uma mensagem inequívoca àqueles que ordenam, permitem ou perpetram violência sexual: não a toleraremos e faremos pressão para que os perpetradores sejam processados" acrescentou.

O governo do Reino Unido já anunciou a disponibilização de 14,5 milhões de euros ao longo de três anos para combater a violência. A maior parte do dinheiro será canalizada para ajudar os sobreviventes.
"Paz mais difícil de alcançar"
Nimco Ali, diretora-executiva da Five Foundation , uma organização que trabalha para mulheres e meninas em todo o mundo, observou que prometer dinheiro não é suficiente.

"Não basta vermos compromissos renovados”, disse Ali. "Está provado que esses compromissos não são suficientes ou confiáveis. O Gabinete de Relações Internacionais, da Commonwealth e de Desenvolvimento precisa incorporar a mudança e atualizar as suas próprias prioridades, colocando os princípios da igualdade de género no centro das suas políticas de ajuda e diplomacia".

Jolie relembra: "Estamos a falar de crimes de extrema brutalidade. Agressões a mulheres e homens na frente das suas famílias. Falamos de violação coletiva de crianças – que foram vítimas em quase metade de todos os casos verificados pela ONU no ano passado". 

"A violência sexual em conflitos torna a paz mais difícil de alcançar – e menos estável. Aumenta o risco de violência doméstica. A agressão impulsiona o deslocamento e impede as meninas de irem à escola. Deixa cicatrizes de traumas e estigmas que afetam sociedades inteiras e atravessam gerações" sublinha Angelina Jolie.

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