Bangladesh. Polícia detém manifestantes que incentivaram violência

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A maioria dos manifestantes regressou à escola esta semana, depois de nove dias em protestos
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Depois de vários dias, os protestos nas ruas da capital do Bangladesh começam a dissipar-se. Os estudantes temem agora represálias, numa altura em que a polícia detém manifestantes que tenham transmitido rumores nas redes sociais. Até agora, a polícia prendeu 12 ativistas acusados de incentivar a violência durante os protestos. Os motoristas já se pronunciaram e afirmam que a culpa pelas mortes nas estradas do país não é inteiramente deles.

Daca esteve paralisada durante nove dias devido aos protestos. Milhares de estudantes manifestaram-se nas ruas da capital após as mortes de dois jovens atropelados por um autocarro em alta velocidade.O Governo de Bangladesh alargou na segunda-feira a cinco anos a pena máxima de prisão para condutores negligentes.

Os protestos, que começaram por ser uma demanda por maior segurança nas estradas, transformaram-se numa manifestação de frustração contra a corrupção e a impunidade do Governo.

O passado sábado foi o dia mais crítico, culminando em confrontos entre polícia e estudantes. De acordo com a France Presse, 115 estudantes ficaram feridos com balas de borracha disparadas pelos agentes. 

Os ânimos intensificaram-se ainda mais depois de ativistas pró-Governo terem entrado em confrontos com os estudantes, chegando a deixar alguns feridos.

Perante este cenário, os alunos começaram a partilhar uma lista nas redes sociais com nomes, números telefónicos e endereços de locais seguros – uma forma de se ajudarem mutuamente a fugir à polícia.

“Se alguém precisar de abrigo perto de Jigatola ou Dhanmondi, venha para minha casa”, escreveu um estudante nas redes sociais. “Por favor, encontrem abrigo. A situação está a piorar”, escreveu outro jovem.
Polícia detém manifestantes
Numa altura em que os protestos perdem força, os estudantes temem agora as consequências do Governo.

As mensagens partilhadas nas redes sociais de organização e divulgação dos protestos estão a ser investigadas pela polícia do Bangladesh e constituem elementos de prova para apreensão, segundo a lei de segurança digital que vigora no país. Os agentes procuram contas que espalharam rumores com o objetivo de incentivar os protestos.

O ministro dos Assuntos Internos do Bangladesh, Asaduzzaman Khan Kamal, disse que o processo de identificação está a decorrer. Deixou o aviso de que “ninguém será poupado, sejam estudantes, professores ou líderes políticos”.

O vice-comissário da polícia de Daca, Nazmul Islam revelou, em declarações à France Presse, que as autoridades investigaram cerca de mil contas do Facebook que consideram ter sido usadas para incentivar a violência durante os protestos. Até agora, a polícia do Bangladesh prendeu 12 ativistas. “Esperemos que nos próximos dias mais pessoas sejam presas”, afirma Islam.

Alguns dos detidos alegaram nas redes sociais que quatro raparigas foram violadas e dois manifestantes foram mortos durante o auge das manifestações, no sábado. O vice-comissário da polícia de Daca afirma que os rumores levaram à “destruição de 382 veículos, incluindo oito veículos da polícia, entre os quais alguns foram queimados”.

“Cerca de mil pessoas ficaram feridas e 45 agentes ficaram em estado grave”, acrescenta Islam.
“Este é um momento muito assustador”
Segundo noticia The Guardian, a partir da noite de domingo algumas mensagens e fotos partilhadas no grupo de Facebook criado pelos estudantes envolvidos nos protestos foram eliminadas. Começaram por desaparecer as publicações de um dos jovens, instalando o pânico entre os estudantes que não percebiam o que estava a acontecer.

“Ele está a ser inteligente, está a salvar-nos”, escreveu um dos estudantes no grupo do Facebook.A ação policial durante os protestos captou a atenção internacional, com o Governo do Bangldesh a ser criticado pela ONU, EUA, e grupos de Direitos Humanos.

Mahmudun Snabi , um dos manifestantes, revela que muitos estudantes estão agora em pânico: “A polícia está à procura e a prender as pessoas por partilharem as notícias. Este é um momento muito assustador para todos nós. Nunca ninguém testemunhou algo assim em tão grande escala”.

Um estudante que esteve envolvido nos protestos em Daca, rapidamente eliminou todas as suas publicações, partilhando um texto a redimir-se: “Peço desculpa, eu espalhei falsas declarações, eu estava emotivo”.

As redes sociais não foram usadas como arma apenas pelos manifestantes. Membros do grupo juvenil pró-governamental, conhecido por Liga Chhatra do Bangladesh, pediram aos seguidores para lhes enviarem contas de pessoas que acreditavam que estavam a transmitir rumores.

No Facebook, o grupo pró-Governo partilharou nomes e fotografias de alegados ativistas: “Estas pessoas espalharam rumores e incitaram crianças inofensivas à violência”, escrevem numa das publicações.

A maioria dos manifestantes regressou à escola esta semana ainda com sentimento de receio de mais possíveis repreensões do Governo, caso os conflitos continuem.
Motoristas defendem-se
Os motoristas em Bangladesh saem em sua defesa e afirmam que a culpa não é inteiramente deles.

Khurshid Alam é motorista de um autocarro particular em Daca e faz turnos de 17 horas, três dias por semana: “Eu começo a dirigir às 6h00 da manhã e continuo até às 23h00”.

O condutor de 45 anos defende que os motoristas são injustamente responsabilizados pela taxa elevada de acidentes no Bangladesh, afirmando que são sobrecarregados e mal remunerados.
Cerca de quatro mil pessoas morreram em acidentes rodoviários no Bangladesh em 2017 e 2.350 nos primeiros sete meses deste ano.
A maioria dos motoristas de autocarros no Bangladesh não recebe salários mensais. O dinheiro que arrecadam é consoante o número de passageiros que levam, o que incentiva a competições entre motoristas.

Segundo a agência Reuters, a morte dos dois jovens que se tornou o mote para os protestos, ocorreu quando o motorista que dirigia em excesso de velocidade perdeu o controlo do veículo enquanto ultrapassava outro autocarro que se encontrava numa paragem de passageiros, atropelando os dois estudantes.

O secretário-geral da Associação dos Proprietários de Transportes Rodoviários do Bangladesh afirma que estão a ser feitos esforços para impor “disciplina nas ruas”. Admite que a falta de motoristas leva à contratação de condutores não qualificados, mas garante que estão “a pedir aos proprietários das transportadoras para não contratarem ninguém sem as devidas licenças a partir de agora”.

Os motoristas pedem ao Governo a instalação de mais semáforos e a construção de faixas exclusivas para peões.

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