Beirute. Número de mortos aumenta para 154

por Joana Raposo Santos - RTP
Beirute está em estado de emergência durante 15 dias, desde quarta-feira. Aziz Taher - Reuters

O número de mortes provocadas pela explosão no porto de Beirute subiu esta sexta-feira para 154, de acordo com o Ministério libanês da Saúde, sendo que poderá ainda aumentar, tendo em conta o número de pessoas que continuam desaparecidas. A última noite na capital foi marcada por intensos protestos pela população, que culpa o Governo pelo desastre.

Nos arredores do Parlamento libanês, um pequeno grupo de pessoas tentou ultrapassar as cercas que impediam o acesso, acabando por entrar em confrontos com a polícia, que lançou gás lacrimogéneo sobre os manifestantes.

Não houve, porém, informação de qualquer detenção ou de feridos durante os protestos.

A população acusa o Governo de negligência depois de se ter sabido que a causa mais provável da explosão no porto de Beirute foi o armazenamento de 2750 toneladas de nitrato de amónio sem condições de segurança durante mais de seis anos, sem que o Executivo tomasse medidas para resolver o problema, apesar de ter conhecimento do mesmo.

Desde o desastre, dois membros do Governo libanês já se demitiram. O primeiro a fazê-lo foi o deputado Marwan Hamadeh, que já serviu como ministro de várias pastas, entre as quais as da Educação, Turismo e Saúde. Seguiu o exemplo Tracy Chamoun, embaixador do Líbano na Jordânia, alegando que a catástrofe implica a necessidade de uma mudança na liderança do país.

O próprio Presidente francês, Emmanuel Macron, primeiro líder mundial a visitar o Líbano desde a explosão, considerou que esse país precisa de “uma mudança profunda” por parte das autoridades, apelando ainda a uma investigação internacional ao desastre.

Neste momento decorre já uma investigação interna ao sucedido, mas tanto a população libanesa como organizações internacionais de Direitos Humanos questionam a capacidade do Governo de levar a cabo uma investigação transparente.
Governo sabia do perigo e não tomou medidas
Chegadas ao porto de Beirute em 2013 e colocadas num armazém no ano seguinte, as quase três mil toneladas de nitrato de amónio foram denunciadas pelos responsáveis alfandegários diversas vezes ao longo dos anos.

O atual diretor alfandegário do Líbano, Badri Daher, assim como o seu antecessor, Chafic Merhi, recorreram a tribunais de Beirute em várias ocasiões desde 2014 para tentarem desfazer-se dos materiais perigosos abrigados no porto.

“Devido ao extremo perigo causado pelos artigos armazenados em condições climáticas inapropriadas, reiteramos o nosso pedido às autoridades portuárias para que reexporte esses bens imediatamente, de modo a manter a segurança do porto e daqueles que lá trabalham”, escreveu em 2016 o antigo diretor alfandegário, Chafic Merhi, numa carta endereçada a um juiz envolvido no caso.

Uma das sugestões destes responsáveis foi a venda do nitrato de amónio ao exército libanês. No entanto, nem essa nem qualquer outra proposta obteve resposta por parte dos tribunais do país. Daher reconheceu que “as autoridades portuárias nunca deviam ter permitido que o navio descarregasse os químicos no porto”, até porque o destino dos mesmos era Moçambique, e não o Líbano.
Equipas de resgate com esperança de encontrar sobreviventes
Três dias depois da explosão, Beirute continua a lidar com os destroços que bloqueiam as ruas da cidade e com os milhares de feridos que sobrelotaram os hospitais. Grupos de jovens libaneses estão a ajudar a população e as autoridades a limparem as ruas, mesmo com a dificuldade imposta pela ausência de tecnologias. Vassouras são o principal instrumento a que recorrem.

As equipas de resgate continuam nas áreas mais atingidas pela explosão em busca de pessoas dadas como desaparecidas e com a esperança de encontrar mais sobreviventes. Uma equipa de apoio enviada por França disse na quinta-feira que existem boas probabilidades de se conseguirem ainda encontrar pessoas com vida entre os destroços.

O desastre aconteceu num período sensível para o Líbano, que vive uma crescente crise económica e divisões internas enquanto lida com os danos provocados pela pandemia de Covid-19.

As autoridades de Beirute informaram que os danos causados pela explosão podem atingir um valor entre os 2,5 mil milhões e os 4,5 mil milhões de euros, o que vem agravar a já preocupante situação financeira do país.

Beirute está em estado de emergência durante 15 dias, desde quarta-feira, e as Forças Armadas estão encarregues de garantir a segurança na área.

c/ agências
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