Bielorrússia. Mais de 100 manifestantes detidos numa nova marcha contra o presidente

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Reuters

Apesar da ameaça policial de serem disparadas balas reais, dezenas de milhares de bielorrussos voltaram a marchar pelas ruas de Minsk para exigir a renúncia do presidente Alexander Lukashenko. Mais de 100 pessoas acabaram por ser detidas.

Desde as contestadas eleições presidenciais de 9 de agosto, que atribuíram a Lukashenko um sexto mandato com 80 por cento dos votos, que centenas de milhares de bielorrussos têm participado em manifestações durante os fins-de-semana. No cargo há 26 anos, o presidente da Bielorrússia é conhecido como “o último ditador da Europa”.

As forças policiais ameaçaram responder com disparos, mas isso não impediu que cerca de 30 mil manifestantes voltassem a sair à rua este domingo em exigência da saída do presidente Alexander Lukashenko por suspeitas de fraude nas últimas eleições.


Esta foi a primeira ação de protesto em grande escala desde o ultimato dado a Lukashenko pela principal figura da oposição, Svetlana Tikhanovskaïa, refugiada na Lituânia. Na terça-feira, a opositora bielorrussa deu um prazo até 25 de outubro ao presidente da Bielorrússia para renunciar ao mandato presidencial e libertar todos os presos políticos, caso contrário a oposição irá convocar uma manifestação de proporções inéditas e uma greve geral.

“Se as nossas reivindicações não forem atendidas até o dia 25 de outubro, todo o país vai sair às ruas de forma pacífica”, alertou Tikhanovskaïa nas redes sociais. "E a 26 de outubro, uma greve nacional irá começar, todas as estradas serão bloqueadas, as vendas nas lojas entrarão em colapso", ameaçou a opositora.

Ao contrário dos protestos anteriores, este domingo os manifestantes escolheram não marchar no centro de Minsk, mas numa artéria no sul da capital, onde estão localizadas muitas fábricas.

De acordo com a organização bielorrussa de defesa dos direitos humanos Viasna, a polícia começou a deter os manifestantes em Minsk e noutras cidades, contabilizando 15 pessoas detidas a meio da tarde. Os meios de comunicação locais também noticiaram a detenção dos seus jornalistas.

No domingo passado, os manifestantes foram alvo da mais dura repressão policial em várias semanas de protestos, com as forças de segurança da Bielorrússia a usarem jatos de água e granadas de atordoamento para dispersar os manifestantes. Mais de 700 pessoas foram detidas nesse dia. De acordo com a agência Reuters, mais de 13 mil pessoas foram detidas desde as eleições, incluindo líderes da oposição que não deixaram o país

Após esse último protesto na capital, o Ministério do Interior da Bielorrússia advertiu que a polícia irá recorrer "se necessário" a balas reais e a "equipamentos especiais" para travar os protestos antigovernamentais, argumentando na mesma ocasião que a contestação no país está organizada e radicalizada.

O movimento de contestação tem sido alvo de uma constante pressão por parte das autoridades e muitas das suas principais figuras estão exiladas no estrangeiro ou foram detidas.

Na segunda-feira, o último membro do Conselho de Coordenação (formado pela oposição) que ainda estava na Bielorrússia e em liberdade, Serguei Dylevski, deixou o país por "temer pela (sua) segurança", segundo os meios de comunicação locais.

"Temos dito várias vezes que estamos prontos para o diálogo e para negociações. Mas falar atrás das grades da prisão não é diálogo", afirmou a opositora Svetlana Tikhanovskaya, denunciando o "terror do Estado" na Bielorrússia.
UE aplica sanções à Bielorrússia
Os Estados Unidos, a União Europeia e diversos países vizinhos da Bielorrússia rejeitaram a recente vitória de Lukashenko e condenaram a repressão policial, exortando Minsk a estabelecer diálogo com a oposição.

"As eleições de 9 de agosto não foram livres nem justas", lê-se num comunicado da UE divulgado em finais de setembro. "A União Europeia não reconhece os seus resultados falsificados. Tendo isto como base, a chamada "inauguração" (tomada de posse) de 23 de setembro de 2020 e o novo mandato de Alexandre Lukashenko têm falta de legitimidade democrática".

Por este motivo, os líderes europeus acordaram, no início de outubro, sanções à Bielorrússia. Os alvos são cerca de 40 pessoas ligadas a atos de repressão da população bielorussa, que se tem manifestado em defesa de novas eleições. O objetivo da UE é que "as pessoas da Bielorrússia tenham o direito de decidir o seu próprio futuro", adiantou. No entanto, da lista definida pelo Conselho Europeu, não consta o nome do presidente Alexander Lukashenko.

c/agências
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