Bispo de São Tomé diz que confrontos refletem revolta e linguagem política violenta

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O bispo de São Tomé e Príncipe, o português Manuel António dos Santos, considerou hoje que os confrontos ocorridos na segunda-feira, numa manifestação contra o apuramento de votos, refletem "uma certa revolta" da população e uma "linguagem política violenta".

"Os acontecimentos de segunda-feira foram um pouco surpreendentes. Acho que acabaram por manifestar uma certa revolta do povo, uma certa tensão que se foi acumulando ao longo dos últimos tempos", comentou o responsável da igreja católica, em entrevista à Lusa.

O povo são-tomense, disse, "tem ido de promessas ao longo dos tempos, umas atrás das outras", mas "foi sendo sempre defraudado".

"Nos últimos quatro anos, acabaram por acreditar que mudando de paradigma político, aí finalmente iriam encontrar algum caminho que desse perspetivas de esperança, de futuro. E de facto, encontraram uma realidade que, se não foi pior, também não é que tenha sido muito melhor", disse.

Manuel António dos Santos referia-se ao Governo liderado por Patrice Trovoada (Ação Democrática Independente), que venceu as eleições de 2014 com maioria absoluta e que foi o primeiro executivo a concluir o mandato de quatro anos, desde a introdução do multipartidarismo no país, no início da década de 1990.

Por outro lado, o bispo apontou "outro aspeto que de há quatro anos a esta parte se impôs, e muito": uma "certa linguagem política algo violenta".

"Alguns atores políticos [tiveram] uma linguagem muito agressiva. Creio que também contribuíram para esta situação, porque quem semeia ventos, depois colhe tempestades", referiu.

O bispo confessou que a violência que se registou "foi uma surpresa, porque tem-se ideia de um país pacífico, calmo, sereno". De políticos à população, todos afirmavam que o protesto atingiu um nível de violência inédito no país.

Na segunda-feira, centenas de pessoas manifestaram-se na capital, junto à sede da comissão eleitoral do distrito de Água Grande, afirmando recear a alteração de votos a favor do partido no poder, quando uma juíza procedia a uma verificação dos votos nulos e brancos, que a oposição disse ser ilegal.

A manifestação acabou por originar atos de violência, com o carro da juíza a ser vandalizado e incendiado, obrigando à intervenção dos polícias de Estado (conhecidos como `ninjas`), que dispersaram as pessoas com tiros disparados para o ar, gás lacrimogéneo e granadas de fumo.

Manuel António dos Santos deixou um apelo à calma.

"Espero que as pessoas tenham calma e que os agentes políticos ponham os interesses políticos acima dos interesses pessoais e, de facto, olhem para este país com perspetivas de futuro e evitando estas situações de violência, que não levam a nada", pediu.

Na quinta-feira, a Polícia Nacional proibiu as manifestações até 72 horas após o anúncio dos resultados definitivos, pelo Tribunal Constitucional, das eleições legislativas, autárquicas e regional do Príncipe de dia 07 de outubro, e que é esperado esta semana.

"Estranho como é que uma decisão dessas é o chefe da polícia que a toma. É o chefe da polícia que manda neste país", questionou.

No entanto, o bispo considerou que a decisão tem "uma boa intenção".

"É preferível que se acalmem um pouco os ânimos. Poderia entrar-se aí em situações de violência que não ajudam", comentou.

Segundo os resultados provisórios, a ADI venceu as eleições legislativas com maioria simples, alcançando 25 dos 55 lugares na Assembleia Nacional, seguida do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe - Partido Social Democrata (MLSTP-PSD), com 23 deputados eleitos.

A coligação opositora, formada pelo PCD-UDD-MDFM, conseguiu cinco deputados, e foram ainda eleitos dois deputados independentes pelo distrito de Caué.

A oposição, que consegue, em conjunto, 28 lugares no parlamento, reclamou maioria absoluta, mas o primeiro-ministro disse esperar que o Presidente da República, Evaristo Carvalho, chame a ADI para formar Governo.

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