Central de Zaporizhia. Diretor-geral da Agência de Energia Atómica teme uso que os russos possam fazer do urânio enriquecido

por António Mateus - RTP
O diretor-geral da Agência internacional de Energia Atómica, Rafael Mariano Grossi, afasta para já o cenário de um ataque com armas nucleares no conflito em curso na Ucrânia. RTP

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica considera insustentável a situação na maior central nuclear da Europa, situada na Ucrânia e ocupada por forças russas. Em entrevista exclusiva à RTP, Rafael Mariano Grossi receia o uso indevido das mais de 70 toneladas de plutónio e urânio enriquecido que se encontravam na central de Zaporizhia.

Quando olha para o mapa vê que estes reactores estão muito próximos da zona de guerra e estão também sob controlo efectivo russo e isso, só por si, é causa de grandes problemas. Tenho estado em discussões com o presidente Volodymyr Zelensky e ele quer assegurar-se de que a presença ali de uma missão nossa não signifique que de alguma forma estejamos a reconhecer a ocupação desta central”, afirmou Rafael Mariano Grossi em entrevista à RTP, relativamente à actual situação na central ucraniana, ocupada por forças russas desde março.

Rafael Mariano Grossi assumiu dessa forma o sentido de urgência no envio de uma missão da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) ao local.

O antigo embaixador argentino, afasta como “impensável” a escalada do actual conflito na Ucrânia para um conflito nuclear, mas assume o perigo de projécteis, incluindo mísseis, poderem vir a atingir centrais atómicas, com todos os riscos daí decorrentes.

“Não acredito que haja um risco de ataque nuclear no sentido de uso de armas nucleares, mas, é claro, trata-se de uma central nuclear muito grande (com seis reactores), há trocas de projécteis, talvez mísseis, talvez roquetes, não sabemos ao certo, há portanto um problema de proteção da integridade física destas instalações”.

Destaque ainda nesta entrevista para os esforços em curso de reactivação do Acordo com o Irão e das negociações com a Coreia do Norte, quando o primeiro já atingiu níveis de enriquecimento de urânio próximos dos requeridos para armas nucleares e o segundo prossegue testes deste tipo de armamento a níveis cada vez mais sofisticados.

Pela positiva, Rafael Mariano Grossi analisa ainda o ressurgimento da energia atómica em termos de opção no combate às alterações climáticas, associadas ao consumo de fontes fósseis e a doenças do foro cancerígeno e de transmissão de animais para seres humanos, como a COVID, o ébola e o zica.
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