Depois de ver milhares de quilómetros de floresta devastada e explorada, depois de ver as consequências económicas e ambientais para os povos nativos, depois da morte do irmão e da cunhada por serem ativistas pelo clima e de duas ameaças à sua própria morte, Claudelice Silva dos Santos continua a fazer do nome Amazónia um grito de socorro. Denuncia no Brasil o aproveitamento de fazendeiros e empresários, mas usa também palcos internacionais, como o Parlamento Europeu. A ativista esteve em Bruxelas para uma série de ações no âmbito do Dia da Mulher, e já ali tinha estado em dezembro de 2019 quando foi finalista do Prémio Sakharov, uma distinção entregue a quem dedica a sua vida à defesa dos direitos humanos. Em entrevista à RTP, Claudelice critica a União Europeia, Jair Bolsonaro e todos os que "lucram com a exploração".
Qual é a sua grande luta em relação à Amazónia? É a floresta em si ou a população que lá vive?
Todas. Não existe falar da Amazónia e desconectar a exploração da floresta dos povos. A riqueza conseguida com a exploração minerária não vai para os povos da floresta nem para os índios que lá vivem. Esses só ficam com a contaminação dos rios e das águas. Com a expansão agropecuária, por exemplo, quem fica rico são os fazendeiros. E quem fica com a poluição dos rios pelos agrotóxicos, quem fica com a pulverização de veneno são as comunidades. A exploração da madeira: quem fica com a riqueza da exploração são os madeireiros. As comunidades ficam só com o prejuízo disso, e isso afeta diretamente a vida das pessoas. Por isso é que falamos sobre consumo consciente: você sabe de onde vem a carne que você come? Você sabe de onde vem os grãos como milho, a soja, a cana? Você vai comprar uma madeira para fazer uma construção? Tá, de onde vem essa madeira? Sabe se vem de uma área de conflito ou não?
É preciso investigar.
E os países têm como fazer isso. A União Europeia tem como ver de onde vem as madeiras, por exemplo.
E está a fazer o suficiente ou não?
E está a fazer o suficiente ou não?
Suficiente não. E tem como fazer isso de forma mais eficaz. O meu país tem mecanismos muito eficientes de rastrear madeira e de rastrear carne, por exemplo. Mas isso é feito de forma eficiente? Não.
E porque é que acha que não há essa vontade?
E porque é que acha que não há essa vontade?
Porque todo o mundo sai lucrando com a exploração da floresta e com a morte do defensor da floresta.
A economia é vista como mais importante que os direitos humanos?
A lógica que está dada é essa. Agora esse ano a comissão de direitos humanos da União Europeia vai fazer uma visita ao Brasil. Que legal. Mas será que eles vão realmente nos lugares onde precisa ir? Será que eles vão nas regiões onde tem mais conflito por terra, por floresta, por água na Amazonia? Ou será que vão visitar só os lugares bonitinhos? Estou fazendo uma provocação.
É uma questão de prioridades?
Com certeza. Descobrir se os produtos e se os acordos estão realmente sendo feitos como deveria ser. Não vão lá? Então está na hora de olhar com mais precisão, fazer o check-list do que realmente está sendo feito, olhar na prática e pressionar o estado brasileiro a fazer cumprir o acordo.
A economia é vista como mais importante que os direitos humanos?
A lógica que está dada é essa. Agora esse ano a comissão de direitos humanos da União Europeia vai fazer uma visita ao Brasil. Que legal. Mas será que eles vão realmente nos lugares onde precisa ir? Será que eles vão nas regiões onde tem mais conflito por terra, por floresta, por água na Amazonia? Ou será que vão visitar só os lugares bonitinhos? Estou fazendo uma provocação.
É uma questão de prioridades?
Com certeza. Descobrir se os produtos e se os acordos estão realmente sendo feitos como deveria ser. Não vão lá? Então está na hora de olhar com mais precisão, fazer o check-list do que realmente está sendo feito, olhar na prática e pressionar o estado brasileiro a fazer cumprir o acordo.
Claudelice veste t-shirt em honra do irmão e da cunhada, assassinados em maio de 2011 por causa do ativismo pelo clima. (Créditos: Greenpeace)
Esta também é para si uma luta pessoal, certo?
Também, sim. Eu sou da Amazónia e cresci vendo estes processos exploratórios lá. Eu vi meus companheiros serem mortos, tombados, criminalizados, serem presos e desaparecerem por lutar por direitos. Porque denunciaram a exploração, a grilagem de terra pública, que é a ilegal apropriação privada de terras públicas. O meu irmão e a minha cunhada eram ativistas e foram assassinados por isso também. Eu tenho filhas, eu quero ter netos, e eu sei que a floresta amazónica contribui para o equilíbrio do planeta. Se a gente destruir as florestas que temos no mundo, a gente vai ficar como?
Também, sim. Eu sou da Amazónia e cresci vendo estes processos exploratórios lá. Eu vi meus companheiros serem mortos, tombados, criminalizados, serem presos e desaparecerem por lutar por direitos. Porque denunciaram a exploração, a grilagem de terra pública, que é a ilegal apropriação privada de terras públicas. O meu irmão e a minha cunhada eram ativistas e foram assassinados por isso também. Eu tenho filhas, eu quero ter netos, e eu sei que a floresta amazónica contribui para o equilíbrio do planeta. Se a gente destruir as florestas que temos no mundo, a gente vai ficar como?
Esse acontecimento não a fez ter receio e sair de lá?
Não penso em sair de lá. Se eu me acovardar, se eu deixar de lutar, outros companheiros vão tombar. Eu não estou a dizer que eu garanto a vida de alguém, mas eu faço processos de luta fora do país. Eu estou aqui em Bruxelas longe da minha casa para denunciar que tem pessoas lá que estão morrendo por processos exploratórios.
No caso do seu irmão e da sua cunhada, descobriu-se quem foi o autor dos homicídios?
Fazendeiros da região. Sempre é alguém que lucra com a exploração da floresta e das pessoas, porque tem muito trabalho escravo na região também.
Fazendeiros da região. Sempre é alguém que lucra com a exploração da floresta e das pessoas, porque tem muito trabalho escravo na região também.
Esta exploração da Amazónia também é de certa forma apoiada pelo Presidente do país?
Eu diria que sim. O governo Bolsonaro tem recrudescido esta questão mas isso não nasceu com ele. Desde que eu me entendo por gente, a região em que eu vivo é região de conflito. E já passou governos de direita e de esquerda. Mas nunca um presidente foi para as redes sociais, para a televisão, nunca um presidente falou abertamente contra os ambientalistas e contra os defensores de direitos humanos. E isso dá brechas para a violência ficar muito maior.
Ele vê os ambientalistas como "chatos"?
Vê mesmo como vagabundos, como pessoas que impedem o progresso do país. Como se o nosso país não fosse já grande e explorado o suficiente. Como se não tivesse terras agricultáveis e precisasse de explorar mais a floresta, o que não é verdade. Ele acusa os própios povos de colocar fogo na floresta. Sendo que nós sabemos exatamente quem são essas pessoas. Uma das últimas dele foi a de que ele queria prender todos os ambientalistas da Amazónia. Eu moro lá, lá é a minha casa. Ele fala de nós como se vivêssemos de atrapalhar o país. É uma coisa até lunática, porque todos os ambientalistas que conheço vivem na Amazónia e não recebem dinheiro para a proteger.
Quão grave é ter um presidente de um país a fazer esse tipo de declarações?
No mínimo ele é um presidente ridículo, que parece uma criança com um poder na mão que ele não entende. Ou então entende e faz questão de usar isso contra o próprio povo. O Bolsonaro é muito grave, tanto para os povos da Amazónia como para o país inteiro. É um perigo para o povo brasileiro, para a democracia. Ele ofende não só as mulheres do Brasil como algumas mulheres do mundo, como se viu pelas declarações que ele já saiu fazendo. Eu sinceramente sinto vergonha. Existe uma naturalização da violência e um aumento assustador do conservadorismo, principalmente com um fundamentalismo religioso. Usa-se a fé das pessoas para as por contra os outros, para justificar discursos contra a população LGBT, para manipular o sentimento, para criar o senso comum de que a mulher que usa um short curto é uma vadia, de que a mulher que é solteira e cria os filhos sozinha não serve para a sociedade se ela não for uma cristã ou evangélica. Os discursos são os mais diversos, sempre com um fundo religioso para desmoralizar certos grupos sociais.
Pode ser perigoso para si expressar a sua opinião sobre Bolsonaro?
Já é muito perigoso. Mas se nós todos nos calarmos, como é que será?
Conte-me um momento do seu ativismo que a tenha marcado.
Acho que foi o ano passado, em outubro, na conferência dos defensores da floresta em Marabá, no Brasil. Me marcou porque o que mais eu ouvi foi: "Eu não estou sozinha". Sabe, a gente às vezes pensa que está sozinha, porque às vezes querem fazer-nos acreditar que a nossa luta é louca. Que estamos lutando por uma coisa que não vai ter jeito. Na conferência a gente estava unida e isso me inspirou mais ainda. Uma semana depois eu recebi ameaça de morte, mas não deixei isso me abalar.
Acho que foi o ano passado, em outubro, na conferência dos defensores da floresta em Marabá, no Brasil. Me marcou porque o que mais eu ouvi foi: "Eu não estou sozinha". Sabe, a gente às vezes pensa que está sozinha, porque às vezes querem fazer-nos acreditar que a nossa luta é louca. Que estamos lutando por uma coisa que não vai ter jeito. Na conferência a gente estava unida e isso me inspirou mais ainda. Uma semana depois eu recebi ameaça de morte, mas não deixei isso me abalar.
Que ameaça foi?
Puseram um bilhete na caixa de correio da minha mãe, dizendo que iriam me matar. "Eu vou matar o resto". [Em referência ao assassinato do irmão]. Na minha casa não tenho caixa de correio, então descobriram a casa da minha mãe e deixaram lá. Eu sabia que ia chegar até mim.
E a sua mãe em pânico.
Minha mãe tem 83 anos. Imagina.
Minha mãe tem 83 anos. Imagina.
E depois o que é que fez?
Fizemos denúncia na polícia, aliás, foi a segunda ameaça de morte num mês.
E como foi a primeira?
Pegaram uma parte do processo penal do assassinato do meu irmão, enrolaram e colocaram também na caixa de correio da minha mãe. O que faz alguém ir no site da Justiça, copiar uma folha e colocar na caixa de correio da casa da família da pessoa que foi assassinada? Quem faria isso? Alguém que tem interesse em provocar o terror, em te calar.
Como é o seu trabalho de ativista? Fazer campanhas, viajar?
Essa coisa de viajar para fora do país é muito recente para mim. Nem todos os ativistas têm essa oportunidade de falar para fora sobre o que está acontecendo. Então eu uso isso para dar visibilidade a outras pessoas e a outras causas também.
E as pessoas costumam entender ou não?
As pessoas entendem, só que muitas vezes não sabem o que fazer para ajudar. No meu país, as minhas atividades são muito relacionadas aos direitos ambientais humanos. Estamos usando esse momento para as pessoas olharem para a Amazónia e entenderem o que é essa violência contra a floresta mas também contra os povos. Também ajudamos a dar formação e fazemos encontros nacionais e internacionais.
Que conselho daria a quem também quer ser ativista do clima?
Crie rodas de conversa, vai para as escolas, para as praças, fale sobre o problema. É a mesma coisa na política. Vamos discutir e dialogar, mas tem de ser um diálogo racional e não baseado em notícias falsas nem em convicções sem factos. Estude sobre o assunto, conheça uma realidade que esteja sendo afetada. O mundo inteiro tem refugiados do clima, pessoas que estão indo de uma região para outra porque estão sendo afetados pelas alterações climáticas.
A nomeação para o Prémio Sakharov mexeu com o seu ego?
Não. Fiquei, claro, muito honrada, mas sobretudo porque era um grupo bem representado: eu, o Raoni da luta dos povos indígenas e Marielle Franco da causa LGBT. Na prática, lá na minha realidade, eu sou a Claudelice e vou continuar sendo.
A jornalista viajou a convite do Parlamento Europeu