Cori Bush. Ala progressiva dos democratas ganha mais uma estrela

por Paulo Alexandre Amaral - RTP
Lawrence Bryant, Reuters

Cori Bush, enfermeira, ex-sem-abrigo e ativista do Black Lives Matter, acaba de ganhar a nomeação para a corrida democrata ao Congresso pelo Estado do Missouri nas eleições de Novembro. Uma vitória notável quando o derrotado é o herdeiro de uma dinastia política com mais de meio século: William Lacy Clay estava no Congresso desde 2000, um lugar ocupado pelo pai a partir dos anos 60. Bush pode agora tornar-se na primeira mulher negra a chegar ao Congresso a partir do Missouri.

Sendo uma vitória pessoal de uma história muito particular, a vitória de Cori Bush vem, acima de tudo, reforçar a ala progressista que nos últimos anos ganhou força no Partido Democrata com a ascensão de uma geração de novas ativistas políticas: Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib, Ilhan Omar e Ayanna Pressley, conhecidas como “The Squad” (“o esquadrão”, numa tradução literal).

A voz destas mulheres, todas de minorias étnicas, alterou a agenda política que domina a linha dos discursos em Washington. Na base deste novo léxico está um princípio que é escutado sempre que “The Squad” toma a palavra: a proximidade com a rua e com os problemas da rua e da classe trabalhadora. São representantes do povo que descem ao nível dos eleitores mais frágeis, com novas soluções para problemas estruturais crónicos do edifício norte-americano: a saúde, a escola e o mundo do trabalho.

Foi também com um discurso assente nestas três dimensões agora em erosão avançada que Bush conseguiu uma vantagem assinalável nestas primárias democratas do Missouri. O congressista Lacy Clay colheu 46% dos votos, contra 49% da enfermeira de 44 anos.

Na esteira da ala esquerda e progressista dos democratas, Cori Bush é uma defensora do salário mínimo, de um sistema escolar de propinas gratuitas e um sistema de saúde acessível a todos, vectores que tendem a ser fortes razões de exclusão social nos Estados Unidos, uma sociedade fortemente estruturada em torno do direito de escolha e da iniciativa privada e individual. São problemas que tocaram directamente Cori Bush, como ameaça iminente de exclusão para parte substancial da população, e que a candidata soube defender até à vitória nas urnas.
Um produto das ruas

Há cerca de 20 anos, Cori Bush experimentou a situação de sem-abrigo depois de perder o emprego, vendo-se obrigada a viver no carro com o marido e os filhos. Foi uma situação a que esteve obrigada durante vários meses, mas acabaria por conseguir formar-se em enfermagem e tornar-se pastora de uma igreja em Saint Louis.

Esse seria, aliás, um dos argumentos da campanha de William Lacy Clay – a ausência de experiência política de Bush, como ela própria assinalou na celebração da vitória, no que pode ser entendido como um punho erguido contra o establishment: “Eles disseram que eu era apenas a manifestante, a activista sem nome, sem títulos, sem dinheiro (…) Foi isso que eles disseram que eu era. Mas hoje Saint Louis disse presente”.

Com a vitória nas primárias do partido, e face ao enorme peso dos democratas na sua circunscrição, Bush poderá ter garantido o lugar no Congresso durante as eleições de Novembro. A acontecer, será a primeira vez que uma mulher negra ocupará o cargo.
À segunda

Cori Bush entrou na política depois dos protestos de Ferguson, em 2014, em reacção à morte de Michael Brown, um jovem negro, às mãos da polícia. Concorreu pela primeira vez ao lugar que agora é seu em 2018, perdendo então para Lacy Clay por uma diferença de 20 pontos.

Bush tem contado com o apoio dos Justice Democrats, um grupo político progressista que luta pelo Medicare – o mais próximo nos EUA de um sistema de saúde universal – para todos e pelos cortes ao financiamento da polícia, mas também de figuras mais à esquerda do universo democrata, como Bernie Sanders, que a felicitou neste momento de vitória pelas posições assumidas em nome dos trabalhadores.

“[Cori Bush é ] uma verdadeira progressista que está ao lado dos trabalhadores e que vai responsabilizar a elite corporativa deste país quando chegar ao Congresso”, assinalou Sanders, ex-candidato presidencial que perdeu a nomeação democrata para Joe Biden.


BDS, o trunfo furado de Clay

A activista Cori Bush mantém ainda um laço forte com o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra a ocupação israelita na Palestina. Face às projecções mais negativas, conotado como apoiante do Estado de Israel, William Lacy Clay jogou a carta sionista e procurou dividendos com uma mobilização de última hora da comunidade judaica.

Clay assinalou a proximidade de Bush da campanha BDS, acusando-a de ter preparada uma agenda anti-Israel. Criticou também o envolvimento da sua adversária com a activista palestiniana-americana Linda Sarsour. Uma invectiva que resultou afinal num ataque de pólvora seca.

Cori Bush reforçaria as posições pró-Palestina, instruindo a sua campanha para emitir um comunicado nesse sentido: “Cori Bush sempre se solidarizou com movimento BDS e permanece ao lado do povo palestiniano, assim como mantém a solidariedade para com os negros americanos que lutam pelas suas próprias vidas”.
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