Covid-19. EUA e Canadá pedem fim da repressão de protestos na China

por Inês Moreira Santos - RTP
Reuters

Os protestos contra a política "zero covid" na China continuam e, depois de se terem registado alguns confrontos entre manifestantes e autoridades, no fim de semana, o principal órgão de segurança chinês apelou à "repressão" das "forças hostis". Perante o endurecimento das medidas e de atuação das autoridades em relação aos protestos pacíficos, que decorrem em todo o país, Estados Unidos e Canadá defenderam o direito da população chinesa em expressar o seu descontentamento, face aos bloqueios apertados de combate à pandemia, e pediram que Pequim não "prejudicasse" ou "intimidasse" os manifestantes.

Cantão é a maior cidade do sul da China e voltou, esta quarta-feira, a ser palco de confrontos violentos entre manifestantes e agentes da polícia, depois de um fim de semana marcado por manifestações em todo o país contra a estratégia “zero covid”. Esta região está sob um bloqueio restritivo há várias semanas e tem registado frequentes manifestações, principalmente de grupos de trabalhadores migrantes, oriundos das zonas pobres e rurais do país.

Mas o cenário vê-se por todo o território. Também na grande cidade de Guangzhou, onde tem sido identificados um grande número de casos de infeção e a população enfrenta um bloqueio restritivo desde outubro, foram divulgadas imagens de manifestantes em confrontos com a polícia, na noite de terça-feira.
Os vídeos e imagens divulgadas nas redes sociais mostram manifestantes a arremessar garrafas de vidro e barras metálicas contra as forças de segurança, que surgem a marchar em fileiras, protegidos por escudos antimotim transparentes.


E, na sequência destas manifestações, Pequim anunciou o aumento da presença policial nas principais cidades chinesas. A Comissão de Assuntos Políticos e Jurídicos do Partido Comunista, no poder, entidade que supervisiona as autoridades policiais do país, disse ser "necessário reprimir as atividades de infiltração e sabotagem de forças hostis, de acordo com a lei".

Segundo as autoridades, é fundamental "reprimir resolutamente e de acordo com a lei ações criminosas que procuram quebrar a ordem social e proteger com determinação a estabilidade social".

Além disso, Pequim decidiu intensificar a vacinação dos idosos contra a covid-19, de maneira a poder abrandar as restrições e evitar aumento de mortes devido à doença ou a sobrecarga dos sistemas de saúde.

Face a estes anúncios do Governo de Xi Jinping, o Ocidente reagiu. Na terça-feira, o porta-voz do Departamento de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, afirmou que Washington defende os “manifestantes pacíficos”.

“Não queremos ver manifestantes fisicamente agredidos, intimidados ou coagidos de alguma forma. É disso que se trata o protesto pacífico e é isso que continuamos a defender, seja na China, no Irão, ou em qualquer outro lugar no mundo”
, afirmou Kirby em entrevista à CNN.

Na mesma linha, o primeiro-ministro do Canadá, Justin trudeau, considerou que toda a gente devia poder protestes e desfrutar da liberdade de expressão, garantindo que o Governo canadiano tem acompanhado os protestos contra as políticas apertadas da China.

“Todos na China devem ter permissão para se expressão, devem poder partilhar as suas perspetivas e, de facto, protestar”, afirmou em conferência de imprensa. “Vamos continuar a garantir que a China saiba que defenderemos os direitos humanos e apoiaremos as pessoas que se estão a manifestar”.

Estas manifestações foram suscitadas por um incêndio mortal, num prédio na cidade de Urumqi, no noroeste do país. Os manifestantes disseram que os bloqueios no bairro, no âmbito das medidas de prevenção epidémica, atrasaram o acesso do camião dos bombeiros. Os moradores também não conseguiram escapar do prédio, cuja porta estava bloqueada.

No entanto, estes protestos, numa escala inédita no país desde as manifestações pró-democracia de 1989, são apenas o culminar de meses de crescente descontentamento popular.

Recorde-se que, ao abrigo da política de zero covid, a China impõe o bloqueio de bairros ou cidades inteiras, a realização constante de testes em massa e o isolamento de todos os casos positivos e respetivos contactos diretos em instalações designadas, muitas vezes em condições degradantes.
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