Depois de políticas "zero covid", Taiwan hesita em aliviar restrições

por RTP
Ritchie B. Tongo - EPA

À medida que se foram levantando as restrições em várias partes do mundo, Taiwan continuou fechada, em detrimento do turismo, comércio e outros setores de atividade. Agora, os especialistas receiam que, depois do sucesso inicial durante as primeira vagas da Covid-19, o território insular se torne vítima desta política isolacionista.

As pessoas em Taiwan foram - deixe-me usar uma palavra forte – “estragadas” com a vida boa e com isso há uma baixa tolerância a qualquer surto comunitário”, afirmou Chunhuei Chi, professor e diretor do Centro de Saúde Global no Estado de Oregon Universidade, à Al Jazeera.

Quase dois anos depois do início da pandemia, Taiwan continua a insistir em medidas altamente restritivas – as fronteiras continuam fechadas à maior parte dos visitantes estrangeiros, é obrigatório um período de quarentena após entrada no país e as máscaras continuam a ser obrigatórias na grande parte dos espaços públicos e situações sociais.

As medidas pesadas, que contribuíram para o sucesso de Taiwan durante os primeiros 18 meses da pandemia são agora desajustadas à nova realidade mundial, com a maioria dos países a aderirem à vacinação e a tentarem adaptar-se a uma nova realidade na qual têm de conviver com o SARS-CoV-2.

Aliás, numa altura em que a Europa começa a impor novas medidas para travar uma nova vaga e em que se identificou uma nova variante do coronavírus, Taiwan continua a registar praticamente zero contágios. Esta sexta-feira, a nação insular reportou apenas 12 casos de Covid-19, todos importados, e nenhuma vítima mortal.
Aliviar restrições, mas pouco
No verão, a Economist Intelligence Unit referiu, num relatório, que as políticas “zero covid” trouxeram “benefícios tanto para a saúde como para a economia”, acabando por se ter tornado populares nos países em que foram implementadas. Mas o mesmo documento explica que, como na maioria dos países não de adotou esta abordagem, e até muitos países apostaram em implantar menos restrições na esperança de alcançarem a imunidade de grupo, esta política “tornar-se-á inviável à medida que a economia global for reabrindo”.

Em Taiwan, o turismo internacional continua inexistente, o comércio e a cadeia de fornecimentos foram igualmente impactados, e os não residentes estão proibidos de entrar no país. Recentemente, as autoridades taiwanesas levantaram as restrições de entrada no país, apenas para os filhos de cidadãos de Taiwan que se encontrem a residir fora do país.

Além disso, qualquer viajante que entre no país é obrigado a cumprir um período de quarentena em hotéis ou outros estabelecimentos designados para o efeito, seguido de um outro período, de uma semana, de isolamento em casa ou noutro local designado pelo próprio.

E, embora as autoridades recentemente tenham começado a permitir o regresso de trabalhadores estrangeiros, estudantes, investigadores e profissionais com um visto de "cartão de ouro" de três anos, esta abertura volta atrás em meados de dezembro, quando Taiwan se prepara para um afluxo de cidadãos estrangeiros antes Ano Novo Lunar, a 1 de fevereiro.

Por outro lado, e de acordo com os especialistas, a população de Taiwan ainda se mostra com receio de uma possível abertura e com a possibilidade de novos ressurgimentos de casos se as fronteiras abrirem.
Mais de 70 por cento da população recebeu pelo menos uma dose da vacina, mas apenas um terço tem a vacinação completa.
Economia em causa em prol de zero infeções?
Embora a pandemia tenha afetado empresas e vários setores como o turismo, a economia de Taiwan em geral teve um forte crescimento no ano passado, liderado pela indústria de semicondutores e de tecnologia.

Chunhuei Chi, diretor do centro de saúde global da Universidade Estatal do Oregon alerta, contudo, que o prolongamento das restrições tem um custo e que Taiwan está a sacrificar a colaboração internacional no comércio e intercâmbio em troca de uma estratégia de zero infeções.

“As pessoas não vêem que isto está a prejudicar a nossa economia como um todo, só os viajantes de negócios, turistas, pessoas que podem pagar para viajar”,
disse Hong-Jen Chang, que atuou como diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de Taiwan de 1999 a 2000, à Al Jazeera.

Com um referendo nacional em dezembro e as eleições locais em 2022, o Governo parece ter pouco incentivo para aliviar as restrições e abrir as fronteiras, enquanto a imprensa local e a oposição continuam a destacar os perigos do coronavírus e da sua disseminação .

Há uma expressão taiwanesa perfeita para isso: 'Os artistas querem terminar o show, mas não o público'”, referiu Chi. “Mesmo que os deputados estejam a ponderar e planear aliviar e abrir, por saberem que o público, o povo taiwanês, tem uma tolerância extremamente baixa a qualquer surto - mesmo um surto mais pequeno –, são empurrados para abordagens mais conservadoras”.

Mesmo após um grande surto em maio passado, os números de casos e mortes devido à Covid-19 permanecem entre os mais baixos do mundo, com um total de menos de 17 mil infeções e 848 óbitos.

“O que aconteceu em maio e junho em Taiwan, considerando os níveis internacionais, foi muito leve. Mas foi considerado muito grave em Taiwan”, explicou o especialista. “Esse sentimento público pressiona indevidamente os legisladores e os políticos”.

Após uma escassez inicial de vacinas no início deste ano, devido aos atrasos da iniciativa internacional de vacinas COVAX, Taiwan tem compensado, lentamente, com doações dos Estados Unidos, do Japão, da Lituânia, da Eslováquia e da República Checa, além da produção da sua própria vacina Medigin. Entretanto, o território insular está mais perto de atingir a cobertura vacinal recomendada, mas não há indicações das autoridades sobre uma possível reabertura.

Tudo indica que as autoridades taiwanesas prolonguem as medidas até haver mais certezas sobre a segurança da reabertura. O ministro da saúde, Chen Shih-chung, declarou recentemente que “o objetivo atual é atingir um cenário de zero Covid, mas Taiwan deve também estar preparada para coexistir com a Covid-19”.

No mesmo sentido, Lee Ping-ing, conselheiro do CECC (Central Epidemic Command Center – Centro de Controlo de Epidemias) afirmou que “devemos esperar que o vírus se torne mais suave e que o sistema imunitário humano se possa ajustar antes de podermos começar a coexistir com o vírus”.


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