Egito. Novo protesto planeado depois de quase dois mil manifestantes terem sido presos

por RTP
Reuters

Mais de 1900 manifestantes foram detidos durante os protestos da semana passada, de acordo com o Centro Egípcio para os Direitos Económicos e Sociais. A denúncia desta ONG surge no momento em que Mohammed Ali, radicado em Espanha e promotor dos recentes protestos antigovernamentais, apelou a uma nova manifestação para esta sexta-feira.

Na semana passada, centenas de pessoas saíram à rua em várias cidades do Egipto exigindo a demissão do Presidente Abdel-Fatah al-Sisi. Manifestantes, jornalistas e ativistas políticos foram detidos. Entre eles, a premiada defensora dos direitos humanos Mahienour el-Massry, o jornalista e político da oposição Khaled Dawoud, bem como o antigo general e chefe do Estado-Maior Sami Anan, detido e preso após o anúncio da sua candidatura presidencial.

Na origem destes protestos está uma campanha online conduzida pelo empresário Mohammed Ali, que divulgou uma série de vídeos denunciando a corrupção do Governo e acusando diretamente Sisi.

As forças de segurança recorreram a gás lacrimogéneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes e os meios de comunicação pró-governo ridicularizaram os vídeos dos protestos, classificando-os como falsos.

Agora, Ali apela a uma nova manifestação nesta sexta-feira. Mas as autoridades já se começaram a preparar, e como um aviso aos potenciais manifestantes, o centro do Cairo foi fortemente vigiado na quarta-feira.

A Praça Tahrir, local simbólico da revolução do Egito em 2011, foi tomada de assalto pelas autoridades locais. Furgões da polícia, equipados com a tecnologia de rastreamento por GPS, ficaram na entrada das pontes próximas. A polícia, vestida à paisana, parou e revistou pedestres no centro do Cairo, apreendendo, por vezes, os seus telefones para procurar conteúdo político.

A organização de monitorização online NetBlocks relatou que a internet do Egito estava a passar por crescentes restrições, incluindo interrupções no Twitter, no Facebook Messenger e no Skype. O órgão regulador dos meios de comunicação do Egito disse que a BBC estava "provavelmente bloqueada", devido à sua "cobertura imprecisa" dos protestos.
“Não pode piorar mais do que a situação atual”
Com a chegada ao poder de Sisi em 2013, através de um golpe militar que derrubou o primeiro Presidente eleito democraticamente no Egito, Mohammed Morsi, a dissidência pública foi extinta, tornando qualquer forma de protesto extremamente perigosa.

Ahmed Mohy, um manifestante solitário que segurou publicamente uma placa na Praça Tahrir exigindo que Sisi renunciasse, foi preso em março. No mês de maio, 21 pessoas foram detidas e mais tarde presas sob acusações de terrorismo por protestarem contra o aumento da tarifa no metro do Cairo. Atualmente, o país detém cerca de 60.000 presos políticos.

Durante uma viagem à Assembleia Geral da ONU esta semana, o líder egípcio culpou o "Islão político" pelos protestos, uma clara referência ao grupo proibido da Irmandade Muçulmana da qual fazia parte Mohammed Morsi.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, elogiou Sisi durante uma reunião bilateral em Nova Iorque, mencionando apenas "o progresso positivo na nossa relação bilateral", e ignorando a repressão no país. O presidente dos EUA, Donald Trump, que se referiu a Sisi como o seu "ditador preferido”, rejeitou os protestos no Egito. "Todo o mundo tem manifestações", disse.

As condições de vida dos egípcios têm vindo progressivamente a piorar, ao mesmo tempo que os riscos de manifestação têm aumentado. Estima-se que 32,5 milhões de pessoas vivam abaixo da linha da pobreza, de acordo com os dados do próprio Governo publicados em julho. Os cidadãos enfrentaram anos de duras medidas de austeridade, incluindo cortes profundos nos subsídios e aumento nos preços de bens básicos.

No entanto, apesar do descontentamento geral, muitas pessoas têm medo que os protestos renovados causem agitação e destabilizem a economia, ou que criem uma nova onda de repressão que ameace ainda mais a população.

“Eu nunca fui a um protesto e nunca irei. Há muitas coisas erradas no país, algumas pessoas estão literalmente a comer do lixo. Mas protestos e tumultos vão piorar as coisas ”, argumenta Sayed, 34 anos, trabalhador de fast-food no Cairo. "Deus sabe que concordo com o que eles dizem, mas estou sozinho e não tenho ninguém para me defender. Então, só posso focar-me em colocar pão na mesa ”, acrescentou.

Outros estão determinados em protestar apesar dos riscos. “Vou descer e participar, porque não pode piorar mais do que a situação atual. Não valemos nada neste país ”, disse Fatma, professora em Alexandria.

Esta é a sua única solução na tentativa de obter um futuro melhor. "Observarei o que acontecerá nas ruas, pois não quero ser apenas um número. Quero fazer a diferença. Quero fazer algo de bom para que meus filhos tenham uma vida melhor”, concluiu.



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