Londres. Embaixador birmanês barrado pelo adido militar à porta da embaixada

por Graça Andrade Ramos - RTP
Toby Melville - Reuters

"É uma espécie de golpe no centro de Londres", reagiu Kyaw Zwar Minn, num comunicado lido à porta do edifício daquela que era, até agora, a sua embaixada em plena Mayfair. Quarta-feira à noite, quando tentou entrar, já não conseguiu, tendo sido obrigado a dormir dentro do seu carro.

A embaixada "foi ocupada pelo adido militar a noite passada. O embaixador tem estado barrado desde essa altura", referia a nota. "Deu-se um golpe em Myanmar em fevereiro e agora dá-se o mesmo no centro de Londres".

"Isto é inaceitável e desrespeita não só o povo de Myanmar mas é igualmente um desrespeito a toda a sociedade democrática aqui do Reino Unido", acrescentou o texto.

De acordo com uma missiva enviada pelos ocupantes da embaixada ao ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Dominic Raab, Kyaw Zwar Minn foi destituído enquanto representante do país no dia 9 de março, sendo substituído a partir de 7 de abril pelo seu embaixador-adjunto, Chit Win.  "Bati com o nariz na porta", reconheceu o embaixador esta manhã, ladeado de agentes da policia londrina e perante uma multidão de apoiantes. "Como se pode ver, eles ocuparam o meu edifício", disse, afirmando que tem estado em contacto com a diplomacia britânica.

A situação é embaraçosa não só para o diplomata, como para o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, uma vez que Londres recusa reconhecer o Governo dos militares que depuseram dia 1 de fevereiro o executivo de Myanmar, a antiga Birmânia, eleito em novembro de 2020.

O Governo de Boris Johnson impôs mesmo sanções devido à violência que se abateu sobre a sociedade civil e política birmanesas desde então.

Os militares têm enfrentado uma revolta diária civil nas ruas pelo regresso do país a um regime democrático. A repressão já provocou mais de meio milhão de mortos e milhares de detidos, incluindo celebridades do mundo do cinema birmanês que ousaram apoiar os protestos. A junta militar é ainda acusada de execuções sumárias, tortura e detenções ilegais.
"Coragem"
Aung San Suu Kyi, líder do partido que venceu o escrutínio legislativo de novembro e símbolo da luta birmanesa pela democracia, está oficialmente sob prisâo domiciliária, acusada de vários crimes, incluindo corrupção e traição.

Kyaw Zwar Minn apelou em março à libertação de Suu Kyi, iniciativa que lhe valeu o aplauso de Londres pela "coragem". Desde a destituição que o diplomata se tem recusado a obedecer às ordens emitidas pelo Ministério birmanês dos Negócios Estrangeiros.

Esta quinta-feira deixou um apelo ao Governo britânico, para que expulse os representantes da junta. "Cremos que o Governo do Reino Unido não iria apoiar quem trabalha para a junta militar e gostaríamos também de apelar ao Governo do Reino Unido a expulsá-los", disse Kyaw Zwar Minn através do seu porta-voz que leu um comunicado em inglês.


"Apelamos ao Governo britânico para que recuse especificamente trabalhar com o chargé d'affairs Chit Win que o conselho militar nomeou ou com qualquer outro embaixador que eles tentem nomear no futuro", acrescentou.

Londres não deu resposta imediata e, uma vez que a embaixada é território birmanês, está impedida de intervir.

Quinta-feira de manhã, Dominic Raab voltou a elogiar a coragem do enviado birmanês e repetiu o seu apelo pelo regresso de Myanmar à democracia. "Condenamos as ações intimidatórias do regime militar de Myanmar ontem e presto tributo a Kyaw Zwar Minn pela sua coragem", disse Raab, antes de pedir o fim da violência na antiga Birmânia.

Em comunicado, a MET, a polícia da área metropolitana de Londres, limitou-se a dizer que acompanha a situação. "Estamos cientes de um protesto no exterior da embaixada de Myanmar em Mayfair, Londres. Agentes estão no local para manter a ordem. Não houve quaisquer detenções", referiu.

"Este é o meu edificio. Preciso de entrar. É por isso que aqui estou", explicou Kyaw Zwar Minn à porta da embaixada.
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