Entre a "ingerência externa" e o direito ao protesto. O que se passa no Irão?

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Imagem de um manifestante num protesto contra o Governo, em Teerão, a 30 de dezembro.
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A onda de manifestações que percorre várias cidades iranianas há seis dias, provocou pelo menos 22 vítimas mortais e mais de 500 detenções. Os iranianos começaram por protestar contra a subida de preços e o desemprego, mas depressa se fizeram ouvir palavras de ordem contra o Governo de Hassan Rouhani, ou mesmo críticas ao regime teocrático que dirige o país desde 1979. O Presidente iraniano tem adotado uma posição moderada e reconhece que o povo deve manifestar as suas preocupações, mas garante que está atento às tentativas de interferência externa.

Os protestos começaram a 28 de dezembro em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão, a cerca de 900 quilómetros da capital, Teerão, mas depressa alastraram a outros centros urbanos. Nesta cidade, localizada no extremo oriente do território iraniano, a maioria da população é conservadora e opõe-se ao atual Governo. 



Desde então houve registo de pelo menos 22 mortos, 16 dos quais manifestantes. Com protestos cada vez mais vigorosos - alguns manifestantes têm atacado esquadras, centros religiosos e bancos - o regime tenta adotar uma posição moderada ao mesmo tempo que procura controlar a agitação civil. O Presidente Hassan Rouhani sabe que maiores manifestações em solo iraniano desde 2009 podem enfraquecer o Governo moderado que lidera o país desde 2013. 

Ao sexto dia de manifestações, numa jornada mais calma depois da morte de nove pessoas, só na segunda-feira, surgiram também protestos pró-regime, transmitidos pela televisão estatal iraniana, em várias cidades iranianas, com dezenas de milhares de pessoas a gritarem palavras de apoio ao Líder Supremo. 

Muitos destes protestos contestam precisamente o líder do Executivo. “Devido às políticas económicas falhadas de Rouhani, havia um descontentamento latente que agora está a emergir”, considera Ali Fathollah-Nejad, investigador da Brookings Doha Center, em declarações à Al Jazeera. 

Vencedor das eleições presidenciais em 2013 e 2017, Rouhani tem encetado várias reformas políticas, económicas e sociais com resultados aquém do esperado. Foi o mesmo Governo que conseguiu negociar o acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, concluído em julho de 2015, e o consequente levantamento de sanções internacionais, em janeiro de 2016. 

No entanto, várias promessas de crescimento e desenvolvimento após a abertura ao exterior ficaram por cumprir. Apesar dos consideráveis sucessos económicos desde que assumiu o cargo, incluindo nos valores da inflação (atualmente perto dos 10 por cento, enquanto que em 2013 chegava aos 40 por cento), há problemas que permanecem, entre eles a falta de liberdade de expressão ou o desemprego jovem, que atinge os 28 por cento em algumas cidades, ou a corrupção entre a elite política e religiosa do país. 

Paula Martinho da Silva, Rui Magalhães - RTP
"Agitadores" externos
Na terça-feira, o Líder Supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei culpou os “inimigos” externos pela destabilização do país, que acusa de terem ao seu dispor “dinheiro, armas, políticos e serviços de informação” para agitar as ruas. No domingo, também o Presidente Rouhani criticou os “agitadores” externos. 

Os setores mais conservadores da política iraniana acreditam que as manifestações estão a ser incitadas por países interessados na queda do regime, nomeadamente os Estados Unidos, Arábia Saudita ou Israel, que temem a expansão xiita no Médio Oriente.

De assinalar que Riade e Teerão participam desde 2015 na guerra civil no Iémen, com os primeiros a apoiar as forças governamentais e os últimos a fornecer armamento aos rebeldes houthis. No último mês o Irão foi acusado de ajudar os rebeldes a lançar mísseis que visavam território saudita, tendo o mais recente como alvo o próprio palácio presidencial.

Enquanto Benjamin Netanyahu nega responsabilidades nos protestos mas saúda os manifestantes “corajosos” que saem às ruas, Donald Trump criticou o regime no Twitter.

"O Irão está a falhar a todos os níveis, apesar do mau acordo celebrado com a administração Obama. O grande povo do Irão foi reprimido. Eles têm fome de alimentos e de liberdade. A grande riqueza do Irão é confiscada, tal como os direitos humanos, é tempo de mudança", escreveu o Presidente norte-americano na rede social.  

Desde o início do seu mandato, o líder norte-americano tem adotado uma postura muito crítica face ao Irão. Em outubro de 2017 decidiu não certificar o acordo nuclear, colocando em risco vários anos de negociações, alegando que Teerão não tem cumprido os termos do acordo. Donald Trump deverá decidir ainda este mês se vai ou não repor as sanções retiradas no início de 2016.  

Na terça-feira, os Estados Unidos pediram uma reunião de urgência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para analisar os protestos que decorrem no Irão.  

"As liberdades consagradas na Carta das Nações Unidas estão a ser atacadas no Irão", afirmou a embaixadora do país na ONU, Nikky Haley, em declarações aos jornalistas. 
Posição mais moderada
Num país onde a liberdade de expressão continua a ter fortes limitações – nos últimos dias de protesto foram impostas restrições temporárias ao uso do Instagram, do Telegram, entre outras redes sociais – o Governo esforça-se por ouvir a voz dos manifestantes e por compreender as reivindicações.

No entanto, a 31 de dezembro, o Presidente do Irão reconhecia  o direito dos cidadãos ao protesto contra a situação do país. Hassan Rouhani considera que os iranianos devem ter oportunidade de expressar as suas “preocupações diárias” na política e na economia.

“O nosso maior desafio é o desemprego. A nossa economia precisa de uma cirurgia corretiva importante”, assume. No entanto, não deixou de avisar para os perigos dos “agitadores” e apelou à “unidade” no país.  

Na segunda-feira, o Ministério iraniano da Informação reconhecia que foram detidos vários “agitadores”, depois de terem provocado “distúrbios” e prometeu “lidar de forma séria” com os manifestantes.  

Segundo a agência ISNA (Iranian Students News Agency), o Ministério disponibilizou um contacto telefónico para que os cidadãos possam denunciar “atividades ilegais”.  

Mas só esta atitude um pouco mais comedida do líder do Governo parece ser um feito inédito tendo em conta a história recente do Irão e dos presidentes que têm estado à frente do país, nomeadamente o polémico e ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, que chefiou o governo entre 2005 e 2013, responsável pela repressão durante os protestos eleitorais na reeleição de Ahmadinejad, em 2009.  

Os manifestantes de então denunciavam uma alegada fraude eleitoral cometida pelos homens do Presidente. Deste movimento, que ficou conhecido como “Revolução Verde”, resultaram cerca de 70 mortos, segundo os números da oposição (36 mortos, segundo os números do Governo) e cerca de quatro mil presos políticos. 
"Se os impedirem de falar, eles vão gritar"
Para a imprensa que apoia o regime reformista de Rouhani, o poder deve entender as reivindicações do povo. Os jornais mais próximos do atual Governo destacam as palavras conciliadoras do presidente Rouhani, que sublinhou o direito de protestar.  

“As manifestações são uma oportunidade, não uma ameaça”, pode ler-se no jornal Arman, citado pela edição online da revista Courrier International

Outro diário reformista, o Etemad, destaca que grande parte do país, incluindo os grupos que se manifestaram em 2009, a olhar com enorme desconfiança para a onda de contestação que está a varrer o país.

Destaca que este movimento não tem uma liderança concreta nem uma mensagem específica. O jornal toma partido e pede “diálogo”, “calma” e uma gestão adequada da situação.  

“Há um princípio óbvio: se os impedirem de falar, eles vão gritar. Se os privar da esperança no seu futuro, eles não se importarão muito com o que lhes poderá acontecer”, ressalva a jornalista Samina Rastegar no Etemad.

Por isso, cabe ao Governo “compreender a natureza destas manifestações” e “ouvir a voz dos manifestantes”, refere.

Por outro lado, a imprensa mais conservadora insurge-se contra os manifestantes, descritos como “agentes do estrangeiro” ou “inimigos do povo”, e que por isso devem ser tratados com uma forte repressão por parte do regime. O jornal Kayhan pede: “Distúrbios, assassinatos e vandalismo. São crimes, não uma contestação civil”.  

O diário Javan, também associado a forças conservadoras e próximo dos Guardas da Revolução, dá destaque os políticos estrangeiros que demonstraram apoio para com as manifestações, incluindo o Presidente norte-americano, Donald Trump. “A esperança dos Estados Unidos e da Arábia Saudita em enfraquecer o Irão é irrealista”, escreve.

Certo é que estas manifestações podem significar uma perda de influência e poder para o Presidente Rouhani. “A continuação destes protestos poderá levar a uma crise de legitimidade. As pessoas têm exigências económicas, é óbvio que essas exigências devem ser levadas a sério, é óbvio que o establishment deve ouvir as pessoas. Mas tudo isto pode ser discutido numa atmosfera mais calma”, considera um elemento do Governo próximo do Presidente, citado pela agência Reuters, que pediu para não ser identificado.  

No entanto, a postura mais calma de Rouhani poderá mudar caso o Líder Supremo, autoridade máxima no Irão desde 1989, perca a paciência. “Até agora, as forças de segurança não tentaram impedir as manifestações. Mas isto pode mudar caso Khamenei exija o fim dos protestos e os manifestantes desafiem essa exigência”, considera um antigo responsável, também citado pela agência Reuters. 

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