Estado da União. Trump agita grandeza, apela à união e demoniza imigração

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“Milhares de americanos são mortos por vândalos que atravessam a fronteira no sul”, acusou Trump
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Beligerante e conciliatório. No segundo discurso do Estado da União, o Presidente Donald Trump procurou cavalgar duas linhas retóricas que na realidade não se tocam: por um lado apelos à união em torno de uma grande nação com uma missão; por outro, a renúncia ao consenso em dossiers como a fronteira a sul. Em hora e meia perante a Câmara dos Representantes, assinalou ainda o papel histórico dos americanos na II Guerra Mundial e apontou as linhas de rota a um crescimento sem igual neste século. Em suma, o slogan de um boné - Make America Great Again, ou “Fazer a América grande outra vez”.

Com o cerimonial que se impõe nos discursos do Estado da União, o presidente Donald Trump fez uma entrada triunfante em Capitol Hill, indiferente às 12 investigações de que é alvo neste momento em assuntos cada um mais delicado do que o outro. À espera na sala estavam os dois juízes que escolheu para o Supremo, Brett Kavanaugh e Neil Gorsuch, mas também caras hostis como as representantes democratas da Câmara dos Representantes Alexandra Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib ou a speaker Nancy Pelosi, “pousada” no seu ombro durante todo o discurso.Este foi o terceiro discurso de Donald Trump perante as duas câmaras do Congresso. O primeiro, a 28 de fevereiro de 2017, teve lugar em sessão conjunta. A 30 de janeiro de 2018, o 45.º Presidente discursou pela primeira vez sob o formato do Estado da União.

Numa guinada inesperada no que é a sua postura e a retórica beligerante que tem sido a sua marca de água, o Presidente Trump dirigiu-se à câmara com um apelo ao trabalho conjunto de republicanos e democratas em nome dos interesses dos trabalhadores norte-americanos: “Não somos dois partidos, somos uma união”.

Acabar com as divisões e contruir pontes que abram o caminho “ao bem comum” foram expressões sublinhadas adiante no discurso do Presidente, por momentos aparentando conseguir ser um Trump diferente do líder solitário e por vezes largado da mão pelo seu próprio partido republicano nestes dois anos de reinado.

De arranque, procurou os pontos comuns e consensuais ao povo americano, independentemente da cor política. A aposta foi nos feitos históricos, mormente o papel desempenhado pelos EUA na conquista do espaço. Buzz Aldrin, já nos 89 anos, foi convidado para o discurso, recebendo um forte aplauso numa homenagem que assinalou os 50 anos da chegada dos americanos à Lua com a promessa do regresso à exploração espacial com tecnologia dos Estados Unidos.

Donald Trump lembraria que a economia está a crescer ao dobro da velocidade em relação ao momento em que assumiu a presidência, sublinhando os 5,2 milhões de empregos criados pela sua Administração, com a adenda de que as minorias atingiram um ponto assinalavelmente residual de desemprego, no índice mais baixo do século. Da mesma forma, assinalou o regresso em massa de empresas e companhias aos Estados Unidos graças à sua reforma nos impostos e na regulação. “A economia cresce duas vezes mais rápido do que quando eu tomei posse (…) A economia norte-americana é a número um do mundo", declarou.

Com o elogio das Forças Armadas e capacidade militar do país, Donald Trump galvanizou a Câmara, que chegou a explodir em aplausos e vivas aos Estados Unidos.

Por cortesia ou entusiasmo, até Nancy Pelosi, um perfil de serenidade no seu ombro esquerdo, chegou a levantar-se para saudar as palavras do Presidente. Aplausos também interpretados nos media norte-americanos como irónicos, a espaços.

A speaker democrata vestiu branco, como a maioria das legisladoras democratas, muitas delas estreantes na Câmara dos Representantes do Congresso norte-americano. Uma escolha cromática para marcar a homenagem à luta pelos direitos das mulheres, um sinal de que não mais será possível recuar nesses direitos conquistados em décadas de luta política e social.


Meia hora após o início do discurso, foi finalmente destapado o elefante na sala: o muro a sul, na fronteira com o México. Trump anunciou que em dez dias deverá ser aprovada a construção do famigerado muro. Por outro lado, serão enviados “mais de três mil soldados para travar as caravanas de migrantes”.

Com a ideia de que os empregos dos norte-americanos devem ser protegidos a todo o custo, Trump pôs nos ombros dos imigrantes ilegais todos os males da classe trabalhadora americana: escolas sobrelotadas, hospitais sem capacidade para prestar serviço a tanta gente, falta de empregos e salários baixos, tudo fruto da invasão da fronteira sul, sublinhou num libelo que deixou confusos mesmo alguns dos membros da ala republicana.

Regressando à retórica habitual, o Presidente destacou episódios isolados de crimes cometidos por imigrantes ilegais, apresentando à câmara uma família convidada que terá sido alvo desse tipo de violência.

“Milhares de americanos são mortos por vândalos que atravessam a fronteira no sul”, acusou o Presidente, instalando o incómodo na ala democrata, um incómodo evidente no silêncio do branco vestido pelas representantes do partido da oposição.

Para fechar a questão, Donald Trump deixou a promessa de que construirá o muro, “um muro apropriado”, “um muro que salvará vidas”.

O gelo com a bancada democrata apenas seria quebrado quando Trump assinalou que 58 por cento dos novos empregos foram ocupados pelas mulheres. Perante o entusiasmo das representantes do Partido Democrático, o Presidente chegou a ironizar com um “não era suposto que vocês fizessem isso (gritar e aplaudir)”.
NAFTA, "o desastre"

Chegado ao capítulo das relações comerciais dos Estados Unidos, o Presidente Trump garantiu que não deixará que o país seja ultrapassado pela China. E que trabalhará finalmente para substituir “o desastre” que considera ser o NAFTA, o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá.

Neste ponto, foi recalcada a defesa do produto americano, a primazia ao que é norte-americano, a melhoria da infraestrutura industrial americana, tudo parte das prioridades da sua Administração.

No sector da Saúde, Trump pediu um esforço conjunto de republicanos e democratas para eliminar a SIDA nos Estados Unidos no prazo de uma década. Por outro lado, espera cortar custos com a saúde e prescrições médicas, uma panaceia que visa o ObamaCare do anterior Presidente.

“É inaceitável que os americanos paguem mais pela saúde quando comparado com cidadãos de outros países”, afirmou. O tema do aborto voltaria a cindir a sala que estivera momentaneamente em uníssono. Trump prometeu submeter legislação contra a interrupção da gravidez e deixou um apelo ao Congresso nesse sentido."Ousada diplomacia"
Sobre a recente retirada do acordo sobre armas nucleares com a Rússia, Trump propugnou uma nova e “ousada diplomacia” internacional. Uma estratégia geopolítica que permitiu pôr gelo nas relações com a Coreia do Norte que, acredita Trump, de outra forma, estaria já numa escalada com os Estados Unidos. Um exemplo muito aplaudido numa altura em que floresce a desconfiança de que Pyongyang está a esconder armamento nuclear e a envolver-se na venda de armas.

“A minha relação com Kim Jong-un é boa e vamos encontrar-nos nos dias 27 e 28 de fevereiro no Vietname", anunciou.

Uma palavra foi também deixada aos líderes venezuelanos, com uma saudação “ao novo presidente”, nas suas palavras, Juan Guaidó. No seguimento de um argumentário de teoria política, Trump garantiu que nos Estados Unidos nunca entrará o socialismo (referência americana ao comunismo) porque a América nasceu para ser livre, repetiu um par de vezes.

Ainda, salientando que a Administração “aniquilou o Estado Islâmico”, feita a contabilidade aos dez mil mortos entre as forças militares americanas, 50 mil feridos com gravidade e aos milhares de milhões gastos nos últimos 19 anos no Médio Oriente, Donald Trump resumiu numa frase a recente retirada das forças americanas da região: “As grandes nações não travam guerras indefinidamente”.

Sem referências ao shutdown que deixou o Governo Federal a menos de meio gás durante 35 dias no arranque do ano, o maior encerramento do género na história nos Estados Unidos, com mais de 800 mil funcionários sem pagamento, Donald Trump arrisca-se ainda de vir a ser acusado de ter reaberto os serviços em Washington apenas com o propósito de cumprir o discurso do Estado da União.

A chave para responder a esta dúvida poderá estar na contagem decrescente de dez dias que Trump assinalou para finalmente garantir a verba necessária (5,7 mil milhões de dólares) para dar forma ao grande objetivo da sua Administração: a construção do muro na fronteira com o México.

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