Estados Unidos reforçam presença militar no Médio Oriente após ataque contra Riade

por Andreia Martins - RTP
O ataque contra as instalações sauditas comprometeu as operações da Aramco esteve na origem da maior subida de preços do petróleo desde a guerra do Golfo, Reuters

Washington anunciou na sexta-feira que vai enviar reforços militares para a região do Golfo Pérsico em resposta aos ataques da última semana contra campos petrolíferos sauditas. A decisão surge após um pedido de ajuda por parte da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, explicou o secretário norte-americano de Defesa, Mark Esper. Os ataques do último sábado foram reivindicados pelos rebeldes Houthis no Iémen, apoiados por Teerão, mas são atribuídos por vários países ao próprio Irão, que já veio negar todas as acusações.

Há precisamente uma semana, um ataque com aparelhos não-tripulados contra o maior campo petrolífero no mundo, na Arábia Saudita, atingiu instalações da petrolífera Aramco. Depois das alterações no fornecimento de petróleo, com a maior subida de preços desde a guerra do Golfo, sucedem-se também as consequências políticas e geoestratégicas para aquela zona do globo. 

O Pentágono anunciou na sexta-feira que os Estados Unidos vão enviar reforços militares para a região do Golfo a pedido da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Mark Esper, secretário de Defesa dos EUA, esclareceu em conferência de imprensa que esta mobilização é de natureza “defensiva”.

"A Arábia Saudita solicitou assistência internacional para proteger a infraestrutura energética do reino. Os Emirados Árabes Unidos também pediram ajuda”, esclareceu o responsável em conferência de imprensa.  

Mark Esper sublinhou que o ataque da última semana representa “uma escalada dramática da agressão iraniana”.

Em concreto, Donald Trump “aprovou o envio de forças americanas, que serão defensivas por natureza e focadas principalmente na força aérea e na defesa antimísseis", acrescentou o secretário de Defesa.  

De acordo com o jornal The New York Times, quando questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de futuros ataques contra o Irão, Mark Esper respondeu: “Não é o que pretendemos por agora”.  

Joseph Dunford, chefe do Estado Maior, que também esteve na conferência de imprensa, ainda não está decidido qual será o número exato de homens a ser mobilizado, nem o tipo de equipamento que será enviado para os dois países. Esclareceu apenas que será um destacamento “moderado”.
Houthis suspendem ataques

O ataque de sábado foi reivindicado no imediato pelos rebeldes Houthis, que, apoiados pelo Irão, atuam na guerra civil no Iémen desde 2015 contra a coligação liderada pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.  

Na sexta-feira, o movimento dos rebeldes Houthis anunciou que vai suspender os ataques com mísseis e drones na Arábia Saudita, considerando que uma eventual continuação de hostilidades poderia levar a “desenvolvimentos perigosos”.  

Mahdi al-Mashat, representante dos rebeldes Houthis, disse ainda esperar “uma decisão recíproca” por parte dos sauditas e da coligação que lideram.  

“Reservamos o direito de resposta se eles não corresponderem de forma positiva a esta iniciativa”, acrescentou, referindo ainda que a continuação da guerra no Iémen “não vai beneficiar nenhum dos lados”.  

Ainda que os Houthis reclamem a responsabilidade pelo ataque contra as instalações sauditas, os Estados Unidos e a coligação árabe têm acusado diretamente o Irão de estar por trás deste ataque.  

Durante a semana, os sauditas mostraram os destroços de mísseis e drones e garantiram que o ataque foi “inquestionavelmente patrocinado pelo Irão”, acusação reiterada pela diplomacia norte-americana. A ONU já enviou entretanto uma equipa de peritos à Arábia Saudita para iniciar um inquérito internacional para apurar responsabilidades neste ataque.  

Teerão tem negado todas as acusações e disse esta semana que o ataque dos rebeldes Houthis contra os sauditas se ficou a dever à atuação de Riade no Iémen nos últimos anos.  

No entanto, se algum ataque for perpetrado em solo iraniano em resposta a este ataque teria consequências catastróficas e resultaria numa “guerra total”, avisou na quinta-feira o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif.  

“Não queremos entrar numa guerra, não queremos confrontação militar. (…) Mas não vamos sequer pestanejar no que toca à defesa do nosso território”, disse na quinta-feira à CNN o responsável pela diplomacia iraniana.  
Ataque foi “resultado direto” de ações de Trump

Na sequência destes ataques contra a Arábia Saudita, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo visitou durante a semana aquele país, onde esteve reunido com o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, ministro saudita da Defesa, tendo também passado pelos Emirados Árabes Unidos.  

Durante esta visita, que teve como propósito garantir ajuda dos Estados Unidos aos aliados na região do Golfo, Mike Pompeo reiterou o apoio norte-americano à Arábia Saudita no "direito a defender-se” dos ataques contra o seu território e à sua indústria petrolífera, no fim de semana passado.

No último fim de semana, Mike Pompeo foi uma das primeiras vozes a apontar para a responsabilidade iraniana no ataque de sábado. No entanto, em declarações aos jornalistas que o acompanham por estes dias na viagem ao Médio Oriente, o secretário de Estado norte-americano reconheceu de forma indireta a responsabilidade dos Estados Unidos na escalada de tensões, enquanto defendia a estratégia de “máxima pressão” sobre Teerão, com as recentes sanções económicas que foram impostas e reforçadas pelos EUA.  

“Há quem argumente que a estratégia do Presidente não está a funcionar. Mas eu diria exatamente o contrário. Diria que o que está a acontecer é um resultado direto da nossa saída do JCPOA [sigla que designa o acordo nuclear]”, disse Mike Pompeo.  

O secretário de Estado norte-americano referia-se à decisão da Administração Trump, em maio de 2018, de abandonar unilateralmente o acordo sobre o programa nuclear do Irão, assinado em 2015 por várias potências internacionais, do qual os restantes membros permanecem subscritores.  

O entendimento, assinado ainda durante a presidência de Barack Obama, previa o controlo, limitação e a supervisão das capacidades nucleares do Irão. Em troca, os vários países comprometiam-se a retirar as sanções económicas ao país.  

Washington anunciou mais tarde, em maio de 2019 o destacamento de navios e mais 1.500 soldados para o Médio Oriente com o objetivo de “passar uma mensagem” ao Irão e impedir eventuais ataques que colocassem em causa a segurança do Estreito de Ormuz.  

Paralelamente, também em maio, os Estados Unidos tinham avançado com novas sanções tendo por objetivo impedir trocas comerciais e financeiras do Irão com outros países aliados – incluindo os países europeus - e obstruir por completo a compra de crude iraniano a nível mundial.  

Ao longo dos últimos meses, Teerão tinha ameaçado em várias ocasiões visar a circulação no Golfo Pérsico, local estratégico por onde passa mais de um terço do petróleo que é consumido diariamente em todo o mundo.  

Também em maio de 2019, um ano depois das sanções económicas e da saída dos EUA do acordo, o Irão anunciou a retirada parcial do entendimento, tendo desde então ultrapassado os limites de produção e armazenamento de urânio enriquecido a que estava sujeito como forma de protesto e retaliação.  

Nos últimos meses foram vários os focos de tensão naquela região. Em junho, no contexto de um alegado ataque iraniano contra petroleiros na região do Golfo de Omã, Teerão abateu um drone norte-americano não-tripulado, alegando que violava o seu espaço aéreo. Em resposta, o Presidente norte-americano chegou a ordenar um ataque contra alvos estratégicos no país, mas recuou nos últimos minutos por consideração ao número de vítimas “desproporcional” que tal investida viria a provocar.  

Desde então, com avanços e recuos, provocações e tentativas de acalmar os ânimos naquela região, chegou a estar em perspetiva a possibilidade de um encontro inédito entre o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, com um Presidente norte-americano, por ocasião da participação dos dois líderes na Assembleia Geral da ONU, que se realiza no final deste mês, em Nova Iorque, muito por intervenção do Presidente francês, Emmanuel Macron, durante a última cimeira do G7. No entanto, qualquer tipo de aproximação parece ter ficado minada, no contexto deste ataque contra as instalações petrolíferas sauditas.

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