Ex-padre candidato às presidenciais em Timor-Leste aposta na educação

por Lusa

 O ex-padre Martinho Gusmão, `dispensado` pelo Vaticano para se candidatar às presidenciais em Timor-Leste, diz que a sua prioridade é "uma revolução na educação", considerando os timorenses estão mentalmente colonizados por si próprios.

"Conseguimos deitar fora o colonialismo, mas somos mentalmente colonizados por nós próprios. Temos de começar a falar na nossa própria linguagem. Ainda não conseguimos construir a nossa própria linguagem de ser timorenses ou `timores`. A nossa identidade ainda não foi forjada", diz, em entrevista à Lusa.

A sua candidatura, considera, é resultado de um percurso natural que começou na sua infância e se consolidou quando se tornou padre, com muitos escritos, muitas intervenções públicas sobre a situação do país, mas que "não interessavam a ninguém".

"E depois via que a minha análise era dita e feita. Mas não basta teoria, é preciso coragem de atos", refere, recordando o seu envolvimento nos diálogos de reconciliação de Dare e, posteriormente, os Fórum de Maubisse.

Uma tendência que se manteve desde que foi ordenado padre, em 07 de setembro de 1998, com o seu pensamento e conhecimento a "pretender contribuir para o Estado".

"Estou a fazer uma nova história da Igreja Católica em Timor-Leste e na Ásia. O meu caso é muito singular na história da Igreja, de um padre ser dispensado para se poder candidatar a um cargo político", afirma.

"É uma decisão importante. É um caminho a que Deus me conduz, para esse rumo", sustenta Martinho Gusmão, considerando que se trata de "uma nova vocação e missão", cumprindo instruções do Papa de que "se deve abrir a porta e a janela para o ar fresco entrar" na Igreja.

O agravamento da situação política em Timor-Leste nos últimos anos e, em particular o que define como "golpe constitucional" que ocorreu no parlamento em maio de 2020, quando se formou uma nova maioria, levaram-no a intensificar a vontade de intervenção política.

"Disse que não podia ficar calado. A Constituição não permite o que aconteceu. O nosso problema é que não temos constitucionalistas, temos os juízes de tipo código civil e penal, a um nível mais baixo, mas não temos juízes constitucionais", afirma.

"E não temos uma camada de especialista para as várias áreas. Todo o mundo se chama doutor, e quem consagra essa gente são os jornalistas que lhe chamam `peritos`, mas não temos realmente especialistas", considera o pré-candidato.

A conversa com Martinho Gusmão saltita entre a política e a religião, ecoando algo comum em Timor-Leste, em que as linhas muitas vezes se confundiam.

No que toca à situação do país, considera que Timor-Leste viveu durante 12 anos, depois do referendo, "com o mito da intervenção internacional", com muita capacidade e dinheiro, "para hoje se concluir que Timor-Leste ainda está um país frágil".

"E agora estamos quase a ser um Estado falhado", refere Martinho Gusmão, mostrando-se crítico dos líderes históricos do país, que "não são parte do problema, mas sim a fonte do problema".

"Deus resolve isso com a lei natural. Com Salazar também foi assim", diz.

Aponta ainda outra camada que considera "mais subtil", o "combate entre os rai liur e os rai laran", numa referência aos timorenses da diáspora e aos que ficaram no país.

"Os rai liur, como Alkatiri e Ramos-Horta, vieram para implementar algumas coisas, mas depois houve uma reação muito dura quando começaram a dizer que os outros, formados na Indonésia, não tinham capacidade, não eram bem formados. Mas nós aqui defendemos esta terra, por bem ou mal", acrescenta.

E o pré-candidato alude ainda a questões do passado por resolver, como a morte de Nicolau Lobato, o "desaparecimento de alguns guerrilheiros", considerando que "atrás de tudo isto há algumas coisas que não estão bem".

Como prioridade máxima, Martinho Gusmão quer "marcar uma nova evolução da educação, uma revolução da educação", considerando que isso é "um dever" e essencial para o país, procurando fazer uma análise real da situação de Timor-Leste.

"Moderei um debate entre um ex-ministro cabo-verdiano e um intelectual timorense. O timorense falava da América e da Austrália e o cabo-verdiano falava do seu país e das suas limitações. Concluí que tínhamos um estrangeiro a falar de Timor à lua e um timorense a falar da lua a Timor", ironiza.

Para a meta da educação diz que vai fazer uma campanha internacional, especialmente junto dos parceiros históricos, procurando fazer aumentar a percentagem do Orçamento Geral do Estado (OGE) dedicada à educação para 20%.

"Exatamente para evitar que a educação seja um armazém ou lavandaria de jovens. Não há outro caminho. Olhar atrás é bom para nostalgia, mas mudar o rumo para futuro é falar sobre educação que dê esperança e capacidades para emprego", afirma.

A conversa decorre no pequeno gabinete de Martinho Gusmão na sua casa na zona de Metiaut, em Díli, onde está a trabalhar num novo livro -- é autor de várias obras em várias línguas -- sobre os escritos do líder histórico timorense Nicolau Lobato.

"Sim, é uma fonte inspiradora, como outros líderes históricos. Mas tem três coisas que o destacam: é líder político, líder militar e escreveu filosofia e teologia da libertação, que ultrapassa o seu horizonte na época", refere, comparando esse trabalho ao de padres como Ezequiel Eanes ou outros padres jesuítas.

"Infelizmente morreu cedo e foi traído", diz, comparando a morte de Lobato com a de Amílcar Cabral, pai da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, que "foi morto por traição" e "também era um inspirador".

Para já, Martinho Gusmão diz que conta com o apoio da igreja, dos padres e dos jovens que "estão sempre a dizer que querem uma nova voz e um novo horizonte" e ironiza até, considerando que se calhar representa o próprio Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin, quando este diz que Timor-Leste precisa de "um novo paradigma e um novo pensamento".

"Se calhar o grande apoio ainda vai ser do Alkatiri, se ele for consequente com as suas palavras", afirma.

A data das eleições deve ser marcada pelo Presidente da República no sábado.

 

 

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