Filhos da democracia votam pela primeira vez na Nigéria

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Pela primeira vez, os nigerianos nascidos depois da instauração da democracia em 1999, e após décadas de ditaduras militares, são chamados às urnas no próximo dia 16 para eleger o seu presidente.

Os jovens, porém, sentem-se excluídos do jogo político da maior economia africana, dominado por uma elite envelhecida. As presidenciais do próximo sábado serão disputadas por dois septuagenários, ligados aos dois partidos que dominam a política nigeriana, e os cerca de 60% da população com menos de 25 anos manifesta encontram poucas razões para votar.

O chefe de Estado cessante, Muhammadu Buhari, 76 anos - que já tinha ocupado o cadeira presidencial nos anos 80 na sequência de um golpe de Estado, e foi eleito em 2015 para um mandato de quatro anos --, enfrenta Atiku Abubakar, 72 anos, antigo vice-presidente entre 1999 e 2007.

"São sempre as mesmas mentiras, a mesma corrupção, não há nada que mude para nós", diz à AFP um jovem vendedor de rua com 19 anos, Femi Edu, a propósito dos políticos que dividem entre si o poder desde o evento da democracia há 20 anos.

Femi Edu não irá votar. "Nós o que queremos é apenas trabalho, mas nem isso eles são capazes de nos dar", diz este jovem desempregado que, como milhões de compatriotas, vive graças à economia informal.

Esta será a primeira vez que a geração de nigerianos nascidos depois das ditaduras militares pós-independência (1966-1999) podem exprimir-se nas urnas para eleger o próximo presidente, assim como os próximos deputados à Assembleia Nacional e os governadores.

O grupo de eleitores da faixa etária entre os 18 e os 35 anos assume-se neste escrutínio como o principal bloco do eleitorado, com 51% dos inscritos (43 milhões), e é o mais apetecido alvo de sedução dos candidatos, tanto nas redes sociais como na televisão.

À semelhança de Femi Edu, muitos jovens, porém, não acreditam nas promessas de quem se diz apostado em fazer erguer o gigante de pés de barro, gangrenado pela corrupção, que, apesar das imensas riquezas retiradas do petróleo, dificilmente assegura o mínimo de sobrevivência aos seus 190 milhões de habitantes.

"A `política é suja`: é isso que pensam os jovens. Eles têm a impressão de que o seu voto não conta", diz à AFP a cantora Celeste Ojatula, 24 anos, que participa no programa Voice2rep, lançado pela sociedade civil para incitar os jovens nigerianos a votar.

Celeste Ojatula e uma dezena de outros jovens artistas participaram em três grandes concertos de rap e afrobeats gratuitos, cuja entrada foi aberta a todos os que apresentassem o cartão de eleitor.

"A maior parte apenas quer ir para longe daqui, estudar no Canadá e ter uma vida melhor", acrescenta uma outra cantora, Chioma Ogbona, 30 anos. "O cartão de eleitor serve sobretudo para obterem um visto ou para abrirem conta num banco, não apenas para votar", acrescenta.

A editorialista Tabia Princewill, também citada pela AFP, diz que a juventude educada e urbana partilha desencanto. "Os que votam são os mais pobres, os que estão mais em baixo na escada social. Como têm a barriga vazia, basta dar-lhes um saco de arroz que eles dão o seu voto", explica. "Ainda é preciso uma ou duas gerações para que as coisas mudem mesmo".

Após anos de lobbying intenso da sociedade civil, em maio de 2018 foi dado um passo importante para o envolvimento dos mais jovens na política ativa nigeriana, com a adoção da lei "Not too young to run" (não demasiado jovem para concorrer), que reduziu a idade limite dos candidatos às presidenciais de 40 para 35 anos e 35 para 30 para os candidatos a governador.

Chike Ukaegbu, com apenas 35 anos, não precisou de mais do que isto para se lançar na corrida presidencial. "Nunca tinha pensado nisto", confessa o jovem empresário originário do sudeste do país, que vive entre a Nigéria e Nova Iorque.

"Deixámos de ter desculpa, já não podemos dizer que eles não querem saber de nós", explica à AFP o benjamim entre os 73 candidatos declarados. "Estamos em maioria, cabe-nos a nós mudar a história da nossa nação", acrescenta.

Muito poucos eleitores conhecem o seu rosto, por comparação com as caras dos candidatos favoritos, cujos outdoors gigantes e cartazes estão afixados em todas as grandes cidades do país.

Em parte por falta de meios, é, assim, através da internet e de mensagens pela Whatsapp que o candidato se dirige aos jovens -- ainda que milhões de entre eles vivam em zonas remotas fora das grandes cidades, onde não chegam sequer as redes de telecomunicações.

Prince Bukunyi Olateru-Olagbegi, com apenas 27 anos, criou no ano passado o Partido Democrático Moderno (MDP), reclama ter alcançado já os 65 mil militantes, e é outro jovem protagonista nestas eleições, às quais concorre com dois candidatos às legislativas.

"Oferecer a esperança" é o seu programa, através de investimentos massivos na educação, criação de empregos e anulação das clivagens étnicas e religiosas.

Ganhar uma eleição presidencial na Nigéria é, no entanto, uma missão quase impossível sem patrocínio político e muito dinheiro, reconhece.

Por cada assento na Câmara dos Representantes, câmara baixa do Parlamento nigeriano, os dois principais partidos, Congresso dos Progressistas (APC, no poder) e o Partido Democrático do Povo (PDP), vão gastar até 150 milhões de nairas (mais de 360 mil euros) na campanha, garante Olateru-Olagbegi.

"Mas há que começar por algum lado".

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