Guterres quer travar terrorismo com "estratégia inteligente"

por RTP
“O terrorismo é fundamentalmente a negação e a destruição dos Direitos Humanos”, salientou Guterres Linus Escandor - Reuters

António Guterres considera que se deve privilegiar a defesa dos Direitos Humanos na estratégia de contraterrorismo. Numa palestra em Londres, o secretário-geral da ONU apelou à cooperação internacional e a maior atenção ao terrorismo distante do Ocidente.

“Luta contra o terrorismo e Direitos Humanos: vencer a luta preservando os nossos valores” foi o título do discurso de António Guterres na palestra esta semana organizada pela Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

O secretário-geral das Nações Unidas destacou como prioridades do contraterrorismo uma maior cooperação internacional, mais prevenção, a defesa dos Direitos Humanos e do Estado de Direito, além de um combate do extremismo com argumentos inteligentes e da passagem da palavra às vítimas. Guterres defendeu uma “estratégia global inteligente e abrangente de combate ao terrorismo que aborde as causas profundas do extremismo violento” e que centre os esforços na defesa dos Direitos Humanos.


Há registo de pelo menos 11 mil ataques terroristas em mais de 100 países em 2016, dos quais resultaram mais de 25 mil mortos e 33 mil feridos.

“O terrorismo é fundamentalmente a negação e a destruição dos Direitos Humanos”, salientou Guterres.

"O terrorismo moderno está a ser travado a uma escala e a uma extensão geográfica completamente diferentes. Nenhum país pode reivindicar ser imune. Tornou-se uma ameaça sem precedentes para a paz, segurança e desenvolvimento internacionais", alertou ainda no seu discurso.

A maioria dos ataques terroristas ocorre em países menos desenvolvidos e em países em conflito “enquanto os holofotes tendem a concentrar-se no terrorismo no Ocidente”, reforçou António Guterres, apelando a mais investimento na educação e no combate à pobreza nestes países.

“Em 2016, quase três quartos de todas as mortes causadas pelo terrorismo registaram-se em apenas cinco países: Iraque, Afeganistão, Síria, Nigéria e Somália", referiu.
"Falta de educação e pobreza"

O antigo primeiro-ministro português considera necessário investir na juventude, de forma a prevenir e a combater o recrutamento de extremistas, que incide principalmente nas idades entre os 17 e 27 anos, e de criar mais oportunidades de trabalho e de educação, uma vez que “a falta de educação e a pobreza são fatores que contribuem para a radicalização e para o extremismo violento”.

Quanto à disseminação de conteúdos extremistas, António Guterres propôs uma “ação global coordenada e determinada” na internet, considerando que, apesar de o terrorismo estar a perder terreno físico, na Síria e no Iraque por exemplo, continua a expandir-se nos meios virtuais."Devemos combater implacavelmente o terrorismo para proteger os Direitos Humanos", ressalvou o secretário-geral da ONU.

A nível de uma maior cooperação, defendeu não só o reforço da ONU, mas também das diferentes agências e forças de segurança, incluindo dentro dos próprios países, onde existe, muitas vezes, diferenças de língua e falta de partilha de informações.

Guterres pretende convocar a primeira cimeira da ONU de diretores de agências antiterroristas em 2018, de forma a "forjar novas parcerias e construir relacionamentos de confiança", promovendo a cooperação internacional.

"Os refugiados que fogem do conflito são frequentemente alvo [de terrorismo]. É uma distorção horrível da sua situação acusar as vítimas do terrorismo do crime de que acabaram de fugir", lamentou ao criticar a estereotipização de que muitos imigrantes e refugiados são alvo, ao serem associados, muitas vezes, aos ataques terrorista e a grupos extremistas.

Para o secretário-geral, “quando os terroristas retratam a violência como a melhor forma de enfrentar a desigualdade ou injustiças, devemos responder com a não violência e a tomada de decisões inclusivas”.

“Noventa e três por cento dos ataques terroristas ocorridos entre 1989 e 2014 ocorreram em países com altos níveis de mortes extrajudiciais, tortura e condenações sem julgamentos”, disse António Guterres. "As violações da lei humanitária internacional estão ligadas aos conflitos prolongados e à radicalização”, explicou.

Guterres alertou ainda para a necessidade de os países, perante a ameaça terrorista, estarem a acelerar a implementação de legislação antiterrorista e a reforçar os meios de vigilância, acrescentando que "sem uma base firme nos Direitos Humanos as políticas antiterrorismo podem ser mal usadas e abusadas”.
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