Há 75 anos. Prisioneiros judeus sublevaram-se em Auschwitz

por RTP
Kacper Pempel, Reuters

Em 7 de outubro de 1944, os trabalhadores forçados do Sonderkommando de Auschwitz-Birkenau atacaram os guardas da SS com martelos e com pedras. A revolta foi esmagada e quase todos foram mortos.

A revolta era, desde há muito, uma possibilidade encarada pelos trabalhadores forçados do Sonderkommando, que espreitavam uma oportunidade para desencadeá-la. Uma investigação dos historiadores Gideon Greif e Itamar Levin mostra que todos tinham consciência de serem testemunhas incómodas, a eliminar certamente logo que o Exército Vermelho se aproximasse do campo de extermínio.

Por terem consciência dessa ameaça sempre pendente sobre as suas cabeças, tinham começado desde havia dois anos a reunir no maior segredo todas as armas que podiam: martelos, machados, facas e até pistolas que recebiam da resistência polaca ou que conseguiam esconder quando a SS os mandava resgatar os equipamentos de aviões aliados abatidos em território polaco. As munições para as pistolas eram-lhes fornecidas por prisioneiras que trabalhavam na fábrica de munições de Auschwitz.

A função dos membros do Sonderkommando consistia em retirarem roupas, valores e dentes de ouro aos prisioneiros mortos, parte deles assassinados nas câmaras de gás, e em cremarem depois os corpos desses prisioneiros. Ninguém como os trabalhadores do Sonderkommando poderia levar os criminosos nazis às forcas de Nuremberga, ou outras, e ninguém como eles estava na mira dos oficiais e guardas SS ansiosos por apagarem o rasto do genocídio.

No início do verão de 1944, quando o Exército Vermelho libertou o campo de extermínio de Majdanek, 300 quilómetros a leste de Auschwitz, os membros do Sonderkommando perceberam que tinha chegado o momento de se deixarem matar ou de desencadearem uma tentativa desesperada em que provavelmente também iriam morrer.

A compreensão do perigo iminente que os ameaçava não advinha aliás de uma mera dedução lógica, mas também de um facto que tinham descoberto: em 23 de setembro, os guardas da SS tinham seleccionado mais de duas centenas de prisioneiros, dizendo que precisavam deles para trabalhos num outro campo. Na verdade, porém, levaram-nos para as câmaras de gás e mataram-nos. Depois, em vez de entregarem os corpos ao Sonderkommando, os próprios guardas da SS trataram da sua cremação, para impedirem que se soubesse do gaseamento.

No entanto, membros do Sonderkommando conseguiram depois identificar restos dos seus antigos companheiros nos fornos crematórios e ficaram com a certeza de que a SS já tinha passado à fase de liquidação das testemunhas. Passaram então a palavra aos 663 membros restantes do Sonderkommando, no sentido de desencadearem a revolta quando a SS tentasse levar mais algum grupo para eliminar.

No início de outubro, a SS mandou fazer uma lista de mais 300 membros do Sonderkommando, supostamente para irem retirar entulho numa cidade bombardeada. Mas os prisioneiros entenderam que esse era um pretexto para eliminarem mais um grupo.

No dia 7, uma vintena de guardas SS armados apresentou-se no crematório e procedeu à chamada de judeus gregos, húngaros e polacos que era suposto irem fazer o trabalho de limpeza de entulho. Como vários não respondiam à chamada, um dos guardas avançou para os prisioneiros de pistola em punho. O prisioneiro Chaim Neuhof gritou então "Hurra!" e atingiu-o mortalmente com um martelo na cabeça. Os outros prisioneiros lançaram-se sobre os guardas com machados, pedras e barras de ferro.

Mas as pouco mais de seis centenas de membros do Sonderkommando não tinham qualquer hipótese contra os 3000 guardas SS fortemente armados que vigiavam o campo. E não tinham possibilidades de arrastar para uma revolta suicida os outros prisioneiros, que esperavam da aproximação do Exército Vermelho a libertação e não, como no caso do Sonderkommando, a eliminação de testemunhas comprometedoras.

No seu desespero, os insurrectos deitaram fogo a colchões para incendiarem as câmaras de gás e os fornos crematórios. Alguns conseguiram cortar o arame farpado e fugir para fora do campo. Mas foram perseguidos com veículos motorizados e alvejados com metralhadoras pesadas.

No final, a desesperada insurreição de Auschwitz-Birkenau saldou-se na morte de 452 prisioneiros e três guardas SS. Nas semanas seguintes, foram ainda enforcadas quatro trabalhadoras da fábrica de munições que tinham fornecido pólvora aos insurrectos. Mas, no meio da confusão, alguns dos sublevados conseguiram escapar e viriam depois a testemunhar não só o trabalho macabro que eram obrigados a fazer, mas também a tentativa desesperada e heróica do dia 7 de outubro de há três quartos de século.

Em 26 de janeiro de 1945, com o Exército Vermelho quase a chegar, a SS destruiu o último forno crematório que continha provas do extermínio levado a cabo no campo. No dia seguinte, o Exército Vermelho libertou o campo e, dos 663 insurrectos do Sonderkommando, encontrou ainda 80 que tinham sobrevivido para contar a sua história.
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