Hidroxicloroquina. Estudo que levou à suspensão do medicamento posto em causa

por Joana Raposo Santos - RTP
Portugal foi o quarto país a abandonar o tratamento com hidroxicloroquina. Foto: George Frey - Reuters

A revista científica britânica Lancet emitiu esta semana uma "manifestação de preocupação" relativamente a um estudo que a própria publicou sobre o aumento do risco de morte em pacientes com Covid-19 a quem seja administrada hidroxicloroquina.

Publicado pela revista a 22 de maio, o estudo em questão baseava-se em 96 mil registos médicos eletrónicos de pacientes hospitalizados devido à Covid-19 e sugeria que aqueles tratados com cloroquina ou hidroxicloroquina, combinados ou não com antibióticos, apresentavam maior taxa de mortalidade e mais arritmias cardíacas.

Para além de fazer com que vários países deixassem de testar esse medicamento, habitualmente usado para tratar a malária, a publicação deste artigo levou a que a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendesse temporariamente a inclusão de pacientes tratados com hidroxicloroquina do seu ensaio clínico internacional, o Solidarity, que pretende comparar os tratamentos utilizados em pessoas hospitalizadas com Covid-19.

Numa nota, os editores da prestigiada revista Lancet afirmam agora que foram levantadas sérias questões científicas acerca do estudo que chamaram a sua atenção, pelo que foi solicitada uma auditoria independente aos dados divulgados.

“Questões científicas importantes foram levantadas sobre os dados presentes no artigo de Mandeep Mehra e dos seus coautores”, explicou a Lancet em comunicado. “Embora autores não afiliados à Surgisphere (empresa norte-americana de saúde em cujos dados o estudo se baseou) tenham solicitado uma auditoria independente para verificar a proveniência e a veracidade destes dados, publicamos esta manifestação de preocupação para alertar os leitores”.

“Atualizaremos este alerta assim que tivermos mais informações”, acrescenta o comunicado, comprometendo assim o estudo que observou dados de quase 100 mil pacientes infetados.
“Não é uma questão secundária”
O alerta da Lancet foi lançado depois de cerca de 150 médicos terem dirigido à revista uma carta aberta na qual questionavam as conclusões do estudo e pediam que fosse tornada pública a revisão do mesmo.

“Esta não é uma questão secundária nem menor”, considerou à agência Reuters o médico e professor Walid Gellad. “Encontramo-nos numa pandemia sem precedentes. Organizámos estes enormes ensaios clínicos para descobrir se algum tratamento funciona. E este estudo parou ou suspendeu alguns desses ensaios e alterou a narrativa em torno de um medicamento que ninguém sabe se funciona ou não”. Portugal foi o quarto país a abandonar o tratamento com hidroxicloroquina. Na semana passada foi entregue aos hospitais uma recomendação do Infarmed para deixarem de administrar esse medicamento em doentes com Covid-19.

O uso de hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19 tem sido alvo de intenso debate durante a pandemia. Apesar de os especialistas pedirem cuidados com a sua utilização, Donald Trump foi um dos que defendeu desde cedo o medicamento, tendo mesmo admitido andar a tomá-lo apesar de não estar infetado pelo novo coronavírus.

Já em março o Presidente norte-americano tinha afirmado, apesar das escassas provas científicas disponíveis, que a hidroxicloroquina em combinação com o antibiótico azitromicina possuía “uma grande hipótese de mudar a história da medicina”.
Outro estudo do mesmo autor posto em causa
Para além da Lancet, também a conhecida publicação científica New England Journal of Medicine lançou na terça-feira uma “manifestação de preocupação” sobre um outro estudo do mesmo autor, publicado a 1 de maio, no qual é sugerido que o uso de medicação para a tensão arterial não aumenta o risco de morte em pacientes com Covid-19.

Este estudo baseou-se nos dados dos registos de saúde de centenas de hospitais de todo o mundo, também neste caso reunidos pela empresa Surgisphere. No entanto, “preocupações significativas” foram agora levantadas sobre a qualidade da informação, pelo que a New England Journal of Medicine pediu aos autores que provem a sua fiabilidade.

Em comunicado, a Surgisphere afirmou que a auditoria “trará maior transparência ao nosso trabalho e colocará em destaque a qualidade do mesmo”, apesar de frisar que os dados observacionais fornecidos por registos eletrónicos de saúde não substituem os necessários e rigorosos testes aos medicamentos.

Já o autor de ambos os estudos, Mandeep Mehra, defendeu que a utilização dos dados fornecidos pela Surgisphere foi um passo intermediário até que dados clínicos estejam disponíveis. “Aguardo ansiosamente pelas auditorias independentes, cujos resultados irão decidir sobre qualquer ação adicional”, afirmou em comunicado o médico do Brigham and Women's Hospital, em Massachusetts.

Desde que surgiu pela primeira vez, em dezembro do ano passado, o novo coronavírus já infetou quase 6,4 milhões de pessoas, das quais cerca de 380 mil são vítimas mortais.

c/ agências
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