Índia. Trabalhadores migrantes enfrentam novos riscos no regresso às cidades

por Andreia Martins - RTP
Francis Mascarenhas - Reuters

Pelo menos nove migrantes morreram em comboios nos últimos dias ao tentarem regressar a casa após a quarentena. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra uma criança a tentar acordar a mãe, que morreu precisamente durante o regresso. A mulher de 35 anos, Arbina Khatoon, não resistiu à fome e desidratação.

As imagens mostram uma criança a tentar reanimar a mãe, Arbina Khatoon, que segundo a imprensa local morreu devido à desidratação, fome e calor extremo durante a viagem de comboio entre Gujarat e Muzaffarpur, do outro lado da Índia, no estado de Bihar.

A mulher de 35 anos é uma das mortes recentes entre trabalhadores migrantes na Índia. Pelo menos nove migrantes morreram nos últimos dias, de acordo com os dados oficiais reportados na quarta-feira.

A polícia local garante que Arbina Khatoon morreu devido à sua saúde debilitada, mas quem viajou com esta mulher assegura que a morte se ficou a dever à falta de alimento e de água durante a longa viagem de comboio que cobre mais de 1.800 quilómetros de distância.

Esta morte, bem como as restantes oito mortes declaradas nos últimos dias, enfatizam a situação problemática dos migrantes na Índia no contexto da pandemia. Durante os bloqueios e o confinamento, milhões de pessoas perderam o emprego e foram obrigadas a abandonar as cidades.

De acordo com os dados oficiais, mais de 100 milhões de indianos, trabalhadores migrantes, que representam 20 por cento do total de população ativa, ficaram sem trabalho aquando das restrições impostas durante a quarentena. Destes trabalhadores migrantes, cerca de 80 por cento são homens que enviam remessas para as aldeias, de forma a apoiar as suas famílias.

Com grande parte do país a funcionar e a garantir a sua subsistência através dos empregos informais, estes trabalhadores migrantes viram-se sem meios para poderem sobreviver nas suas casas e foram obrigados a regressar às zonas rurais, para junto das famílias. Agora, alguns tentam regressar.

As nove mortes ocorreram precisamente em comboios destacados e organizados pelo Governo de Nova Deli no sentido de ajudar a transportar estes trabalhadores migrantes de volta para as cidades.

No entanto, os migrantes queixam-se de que estes comboios surgem geralmente com muito atraso, o que também leva às menores condições para quem segue nas carruagens, com a passagem do tempo. Muitos trabalhadores esperam vários dias, sem acesso a água e alimentos e expostos ao calor.

O Ministério dos Transportes Ferroviários tem sido alvo de críticas não só por estes problemas, mas também por estar a cobrar os bilhetes aos próprios migrantes, fragilizados e sem emprego após o bloqueio.

De acordo com a imprensa local, um menino de quatro anos morreu recentemente antes de chegar à mesma estação de Muzaffarpur. O pai, citado pela Al Jazeera, diz que a criança “morreu devido à falta de condições nestes comboios especiais para trabalhadores migrantes”.

Outras duas mortes foram registadas na quarta-feira, na viagem entre Mumbai e Varanasi. Os corpos de dois homens, de 30 e 63 anos foram retirados destes comboios especiais que faziam a ligação entre os dois locais, separados por mais de 1.400 quilómetros.

A agência Press Trust of India garante que houve outras cinco mortes nestes comboios de trabalhadores migrantes por falta de condições, entre segunda-feira e quarta-feira. Mas o executivo nega estas acusações e a Indian Railways desmente que as mortes tenham ocorrido por falta de alimentos ou de condições para viajar.

“Em grande parte desses casos, os que morreram são idosos, doentes, pacientes com doenças crónicas, que tentavam chegar às grandes cidades para conseguirem tratamentos médicos”, disse um responsável da Indian Railways à imprensa local.
Danos colaterais da pandemia

A perspetiva no subcontinente indiano é incerta após esta pandemia. O Governo de Narendra Modi foi acusado de falta de preparação e planeamento ao impor o bloqueio no segundo país mais populoso do mundo, com mais de 1,3 mil milhões de habitantes.

As medidas de prevenção face à pandemia levaram à maior crise migratória do país das últimas décadas. Dezenas de pessoas, trabalhadores migrantes das cidades, morreram a tentar chegar às suas aldeias de origem.

Agora, muitos poderão morrer também no regresso. No início do mês, vários indianos acorreram a comprar bilhetes de comboio com a reabertura do tráfego do transporte ferroviário de passageiros. A 8 de maio, um comboio atropelou e matou acidentalmente 16 trabalhadores migrantes que estavam a dormir numa linha de comboio em Maharashtra. Horas antes, o Governo tinha anunciado que iria destacar comboios especiais para que estes trabalhadores voltassem para as cidades. Os migrantes deslocaram-se para as estações na esperança de conseguirem regressar, mas acabaram por adormecer.

A Índia prossegue o desconfinamento após várias semanas de bloqueio, mas a fase de reabertura parece coincidir com um aumento preocupante de novos casos de Covid-19 no país. Até ao momento já morreram mais de 4.500 pessoas no país e houve registo de 160 mil casos de infeção.

Agora, outro problema no horizonte é precisamente o da dependência em relação a estes trabalhadores migrantes com empregos informais. Várias indústrias e negócios exigem ao Governo que ajude as empresas a atraírem de novo os trabalhadores qualificados que fugiram das cidades.

O executivo de Nova Deli decidiu ainda este mês que iria gastar 35 mil milhões de rupias indianas (mais de 463 milhões de dólares) em programas de alimentação para estes trabalhadores migrantes, de forma a apoiar o seu eventual regresso.

Ainda assim, vários líderes sindicais e ativistas alertam que há muitos trabalhadores migrantes que não pretendem regressar, após a experiência traumática vivida em março.

Na iminência de ficarem sem esses trabalhadores precários que tentavam escapar, várias cidades tentaram travar a todo o custo o regresso destas pessoas às aldeias, impedindo mesmo o funcionamento dos comboios que faziam essas viagens. Muitos tiveram de viajar a pé ou procurar outras alternativas. Agora, as empresas e indústrias dessas cidades poderão enfrentar uma grave situação de escassez de mão-de-obra durante os próximos meses.

“A experiência amarga que viveram deixou-os traumatizados e sabemos que a maioria nem pensa voltar ao trabalho num futuro próximo. Trazê-los de volta será o nosso maior desafio”, admitiu Kishore Jain, um empresário de Bengaluru, em declarações à agência Reuters.
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