Israel e Alemanha em fúria com líder palestiniano por declarações sobre o Holocausto

por Graça Andrade Ramos - RTP
Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, de visita a Berlim em agosto de 2022 Reuters

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, afirmou terça-feira em Berlim, na Alemanha, que Israel cometeu "50 holocaustos" contra os palestinianos desde 1947. Declarações incluídas numa resposta a jornalistas em conferência de imprensa. A seu lado, o chanceler alemão Olaf Scholz não reagiu.

Em Israel a indignação provocada pela resposta do líder palestiniano foi mediata. O primeiro-ministro Yair Lapid considerou as palavras de Abbas “uma vergonha moral” e “uma mentira monstruosa".

"Mahmoud Abbas acusar Israel em solo alemão de ter cometido "50 holocaustos" não é apenas uma vergonha moral, mas uma mentira monstruosa", escreveu Lapid na rede social Twitter. "Seis milhões de judeus foram assassinados no Holocausto, incluindo 1,5 milhões de crianças judias. A História nunca perdoará", acrescentou.

O ministro da Justiça Gideon Sa’ar afirmou que as declarações do líder palestiniano eram “vergonhosas” e Avigdor Liberman, ministro das Finanças, chamou a Abbas um “terrorista” e “negacionista do Holocausto”.

Foram palavras “desprezíveis” e “terríveis”, considerou ainda Dani Dayan, responsável pelo Memorial e Museu do Holocausto Yad Vashem.

Os protestos e pressão israelita de bastidores a exigir uma “retratação” terão acabado por levar a liderança palestiniana a explicar o discurso, referindo em comunicado que Abbas se referia aos “crimes e massacres” das forças israelitas.
Scholz reage após críticas
O silêncio de Scholz foi surpreendente porque momentos antes o chanceler alemão tinha-se demarcado de Abbas quando o líder palestiniano se referira ao tratamento israelita do seu povo como apartheid, uma acusação recorrente.

Jornais como o Der Spiegel e o Junge Freiheit titularam o caso e o BILD sublinhou a falta “de uma única palavra de desacordo diante da pior relativização do Holocausto que um líder de Governo alguma vez proferiu no gabinete do chanceler”.O Holocausto designa o assassínio em massa de seis milhões de judeus pelos Nazis alemães na Segunda Guerra Mundial.

Olaf Scholz distanciou-se das declarações de Abbas ainda na terça-feira mas acabou a condenar de forma mais dura, no Twitter, já esta quarta-feira, a invocação do Holocausto pelo líder palestiniano, afirmando-se “indignado” pelas declarações.

“Estou indignado com os comentários ultrajantes feitas pelo presidente palestiniano Mahmoud Abbas”, escreveu o chanceler em alemão e em inglês. “Para nós alemães em particular, qualquer relativização da singularidade do Holocausto é intolerável e inaceitável. Condeno qualquer tentativa de negar os crimes do Holocausto”.
O que disse Abbas

A agência oficial de notícias da Autoridade Palestiniana publicou por seu lado um comunicado da presidência, afirmando que a resposta de Abbas em Berlim “não se destinava a negar a singularidade do Holocausto que ocorreu no século passado” e que “condenava nos termos mais firmes”.

“O Holocausto é o crime mais hediondo da moderna História humana” referia o texto.

“O que se entende pelos crimes que o presidente Mahmoud mencionou são os crimes e massacres cometidos contra o povo palestinianos desde o Nakba pelas forças israelitas. Estes crimes não pararam até hoje”, acrescentou ainda a Autoridade Palestiniana. Nakba é o nome dado ao estabelecimento do Estado de Israel em 1948 que levou à deslocação de populações árabes locais. Significa “catástrofe”.

Mahmoud Abbas invocou o Holocausto em resposta a um repórter que quis saber se ele iria pedir desculpas a Israel e à Alemanha antes do próximo 50º aniversário do Massacre de Munique.

O líder da Fatah recusou condenar a morte dos atletas israelitas nos atentados nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, feitos por militantes palestinianos, preferindo invocar o que apelidou de “massacres” cometidos por Israel desde 1947.

“"Se queremos continuar a investigar o passado, vamos fazê-lo",”, disse Abbas em árabe. “Eu tenho 50 massacres cometidos por Israel… 50 massacres, 50 chacinas, 50 holocaustos” acrescentou, proferindo a última palavra em inglês.

O ministério palestiniano dos Negócios Estrangeiros defendeu a resposta e acusou Israel de não tolerar nada que lembre às pessoas os “muitos crimes” do país.

O embaixador alemão em Israel, Steffen Seibert considerou os comentários de Abbas “errados e inaceitáveis”. “A Alemanha nunca aceitará qualquer tentativa de negar a dimensão singular dos crimes do Holocausto”, escreveu no Twitter.

De acordo com o site de notícias Ynet, que não cita fontes, o comunicado com as expçicações de Mahmoud Abbas foi publicado depois de “intensa pressão” por parte de Israel, com o gabinete do ministro da Defesa, Benny Gantz, a considerar em diversas mensagens severas que as declarações eram inaceitáveis e exigindo que fossem retiradas.

Outra imprensa israelita referiu que Lapid falou com um alto responsável palestiniano, Hussein al-Sheik a exigir desculpas.
Ataques e controvérsias
Nos Estados Unidos da América, Deborah Lipstadt, monitora de anti semitismo no Departamento de Estado, avisou que as declarações do líder palestiniano eram “inaceitáveis” e podiam ter ramificações. “A distorção do Holocausto pode ter consequências arriscadas e alimenta o anti semitismo”, tweetou.

A controvérsia surgiu poucos dias após novos confrontos entre Israel e a Jihad Islâmica que governa a Faixa de Gaza os quais deixaram quase meia centena de mortos nos escombros de edifícios palestinianos e fizeram mias de 350 feridos. Jerusalém abateu líderes do grupo que jurou por fim a Israel, assim como mulheres e crianças.

Também a Alemanha está envolvida numa polémica devido aos 50 anos do Massacre de Munique, ocorrido em 1972, quando o grupo terrorista palestiniano Setembro Negro fez reféns atletas israelitas na Aldeia Olímpica a 5 de setembro, vitimando 11 membros da delegação israelita e um polícia alemão. O grupo estava ligado à Fatah.

Famílias das vítimas anunciaram que vão boicotar as cerimónias por discordarem de Berlim quanto a compensações sobre o sucedido, acusando a Alemanha de ter sido incapaz de garantir a segurança na Aldeia Olímpica, de ter recusado ajudar Israel e de ser responsável pelo fiasco das operações de resgate nas quais morreram cinco dos atacantes.
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