"Isto tem de parar". Alto funcionário eleitoral republicano acusa Trump de incitar à violência

por RTP
Elijah Nouvelage - Reuters

O republicano Gabriel Sterling, um dos mais altos funcionários eleitorais do Estado da Geórgia, acusou o presidente dos EUA de incitar à violência ao não condenar as ameaças que têm sido feitas contra aqueles que supervisionaram a contagem dos votos naquele Estado. Sterling pede que Trump controle os seus apoiantes, caso contrário “alguém vai acabar morto”.

Durante um discurso no Capitólio do Estado da Geórgia na terça-feira, Gabriel Sterling acusou Donald Trump de estar a “inspirar as pessoas a cometerem potenciais atos de violência” ao não desistir do discurso que adotou desde o dia de eleições, de fraude eleitoral, e ao falhar na condenação das ameaças de violência que daí têm resultado.

“Isto foi longe de mais. Isto tem de parar”, exigiu o republicano, que supervisionou a implementação do novo sistema de voto por correspondência na Geórgia. “Senhor presidente, você não condenou estas ações ou esta linguagem. Senadores, vocês não condenaram estas ações ou esta linguagem”, acrescentou.

“Isto são as eleições. Esta é a espinha dorsal da democracia e todos vocês que não disseram uma maldita palavra são cúmplices nisto. E muito”, afirmou Sterling.


No final de novembro, a recontagem dos votos no Estado da Geórgia confirmou a vitória de Joe Biden. A contagem inicial deu ao democrata apenas cerca de 14 mil votos à frente de Trump. Agora, a vantagem de Biden é de pouco mais de 12.200 votos, num total de cinco milhões. Insatisfeito com o resultado, e dada a pequena margem, Donald Trump voltou a solicitar uma nova recontagem dos votos.

“Senhor presidente, parece que provavelmente perdeu o Estado da Geórgia”, disse Sterling durante o discurso. “Pare de inspirar as pessoas a cometerem potenciais atos de violência. Alguém vai magoar-se, alguém vai levar um tiro, alguém vai acabar morto. E isso não está certo”, apelou o funcionário eleitoral.

Na semana passada, Sterling tinha já revelado que está sob proteção policial na sua casa devido às ameaças que tem recebido desde que foram anunciados os resultados eleitorais. Esta terça-feira, o funcionário disse que também a esposa do seu superior, o responsável eleitoral da Geórgia, o republicano Brad Raffensperger, tem sido alvo de ameaças "sexualizadas" enviadas para o seu telemóvel.

Raffensperger já tinha denunciado a vários meios de comunicação que está a ser alvo de ameaças de morte, incluindo de membros do próprio partido, que o pressionam a anular os votos de Joe Biden. Na semana passada, Trump apelidou o alto responsável eleitoral na Geórgia de “inimigo do povo”, o que, na opinião de Sterling, “ajudou a abrir as portas para este tipo de porcarias”.

No seu discurso, Sterling fez também referência aos relatos que dão conta que Joe diGenova, advogado da campanha de Trump, afirmou que Chris Krebs, ex-funcionário da segurança eleitoral dos EUA que defendeu que a derrota de Trump não estava relacionada com fraude eleitoral, devia ser morto a tiro.

Sterling admite, no entanto, que o seu sentimento de raiva aumentou depois de ter sido informado que um jovem funcionário que ajudou na recontagem de votos no município de Gwinnett County recebeu ameaças de morte após a publicação de um vídeo onde aparece a transferir um ficheiro para o sistema informático e o acusam, falsamente, de ter manipulado os votos.

“Há um nó de forca lá fora com o nome dele. Isso não está certo”, disse Sterling. “Este rapaz conseguiu um emprego. Ele apenas arranjou um emprego”, sublinhou.

Trump, por sua vez, parece não ter levado o apelo de Sterling a sério, ao publicar na terça-feira um tweet onde reitera o seu discurso de fraude eleitoral.
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