Julgamento à porta fechada, familiares de arguidos negam acusações

por Lusa

O julgamento de Zecamutchima e outros elementos do Movimento do Protetorado Português da Lunda Tchokwe (MPPLT), por envolvimento nos incidentes de Cafunfo, decorre hoje à porta fechada, após a leitura da acusação.

Zecamutchima e outras 22 pessoas, cujo julgamento começou hoje, estão acusados dos crimes de rebelião, ultraje ao Estado e seus símbolos e associação de malfeitores devido ao seu envolvimento numa manifestação considerada ilegal, a 30 de janeiro de 2020, na vila mineira de Cafunfo (Lunda Norte) que resultou em mais de uma dezena de mortos, após confrontos com a polícia.

Segundo a acusação do Ministério Publico, lida perante os dez arguidos presentes esta manhã no tribunal da comarca de Chitato (Dundo, província da Lunda Norte), no dia 30 de janeiro de 2020, cerca de 400 pessoas ligadas ao MPPLT, munidas de armas de fogo, engenhos explosivos artesanais, catanas, forquilhas e artefactos de superstição dirigiram-se de madrugada em direção à esquadra de Cafunfo para ocupar o edifício e aí colocar a bandeira do Movimento. 

Previamente, os líderes do MPPLT tinham solicitado autorização para a marcha de protesto às autoridades angolanas, que rejeitaram a pretensão alegando que o país se encontrava em estado de calamidade devido à pandemia de covid-19 e aos riscos de segurança.

A acusação indica que os membros do MPPLT mantiveram as suas intenções e contrataram um kimbandeiro (feiticeiro) da República Democrática do Congo com o objetivo de preparar os manifestantes com magia "para se tornarem invisíveis durante os atos que iriam praticar", tendo sido apreendidos num bairro de Cafunfo, "artefactos usados na superstição".

Na madrugada do dia 30, os manifestantes avançaram por uma das principais ruas da localidade, tendo neste percurso agredido e ferido duas pessoas, entre as quais um tenente-coronel das Forças Armadas Angolanas, e apoderaram-se das suas armas, tendo as forças de defesa e segurança reagido e "provocado mortes e ferimentos nos intervenientes".

À porta do tribunal, familiares de arguidos, nomeadamente do regedor e membro do MPPLT Mwana Capenda disseram à Lusa que os manifestantes queriam apenas exercer os seus direitos e não levavam armas, pedindo liberdade para os detidos e lamentando que, um ano depois dos acontecimentos, nada tenha mudado em Cafunfo.

Mwanangana Muamtumba Cambangunge, membro do MPPLT e soba do bairro Antena, no Cafunfo conta que, depois do "dia do massacre" (o número de mortos varia entre as oito mortes da versão oficial e os mais de 20 estimados por organizações da sociedade civil e partidos da oposição angolana), a polícia foi a sua casa "retirar as coisas de cultura", negando ter recorrido à feitiçaria.

"Isso que estão a dizer que era feitiço, não era feitiço são coisas de cultura", diz a autoridade local, rejeitando as acusações.

"Aquelas pessoas que estavam a fazer a manifestação não levaram nenhuma coisa, nem faca, nem arma" e não "chegaram na esquadra" por que foram atacados no caminho, declarou à Lusa, explicando que a manifestação servia "para pedir direitos", em particular a independência da Lunda, reivindicada pelo MPPLT.

"Tem de os soltar da cadeia e dar os nossos direitos", continuou o soba, lamentando a morte de dois membros do movimento na cadeia e queixando-se do "sofrimento" do povo das Lundas.

Disse ainda que em Cafunfo, nada foi feito passado um ano dos incidentes, apesar das promessas do governo, e que nesta altura, a vila maneira foi praticamente engolida por uma ravina.

"Toda Cafunfo já entrou na ravina, muitas casas já entraram na ravina, não tem estrada para as pessoas passarem, nem uma coisa podemos dizer que o governo fez", desabafa.

Cassai Uanga, filho de Mwana Capenda, criticou o facto de o pai estar detido há quase um ano sem julgamento e espera a sua libertação.

"Deem-lhe a independência dele. Ele não matou, não roubou, o crime dele é pedir o direito dele, quando a pessoa está a pedir direito não é para pôr na cadeia durante um ano sem julgamento, isso também é crime", acusa, criticando o governo que "aqui não está a fazer nada".

Disse ainda que a morte dos dois ativistas do MPPLT na prisão se deu à falta de assistência: "estão a comer mal, não estão a lhes tratar bem, como é que a pessoa não vai apanhar doença?" questionou.

Mwanangana Samuel Moisés, do bairro Elevação, no Cafunfo, veio assistir ao julgamento do filho-sobrinho Mwana Capenda e também ele diz que as acusações são "mentira", afirmando ter estado presente na  manifestação e ser membro do MPPLT.

"Estávamos no Cafunfo a marchar para pedir os nossos direitos, o governo manda muita gente armada para começar a nos matar e aí morreu muita gente", disse o soba à Lusa, interrogando: "Nós não tínhamos faca, nem pedra nem pau, mandam matar porquê, se  estamos a pedir o direito das nossas terras?".

"O governo armou os tropas para começar a matar, as pessoas iam pedir os direitos delas, isso é mau? Estamos a espera para nos dar a nossa terra", afirma.

 

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