Medidas contra Covid-19 podem significar milhões de infetados com tuberculose

por Ana Sofia Rodrigues - RTP
Magali Druscovich - Reuters

Um estudo estima que 6,3 milhões de pessoas deverão desenvolver tuberculose e mais de um milhão deverão morrer, como resultado das restrições globais na luta contra o novo coronavírus.

O foco do mundo está apontado à Covid-19. Longe dos olhares, casos não diagnosticados e não tratados de tuberculose deverão ser sinónimo de mais 1,4 milhões de mortes. Prevê-se que entre este momento e 2025 6,3 milhões de pessoas venham a contrair tuberculose em resultado direto das restrições e confinamento decretados no combate ao novo coronavírus.

Os dados, publicados esta quarta-feira, significam um retrocesso de cinco a oito anos no combate à tuberculose. São baseados num cenário de três meses de lockdown e dez meses para restaurar todos os serviços que foram sendo encerrados.

O estudo foi financiado pela Parceria Stop TB, em colaboração com o Imperial College London, Avenir Health e universidade Johns Hopkins. Foi baseado em informação de estimativas rápidas do impacto do coronavírus nos serviços de tuberculose em países com alguns dos números mais elevados de casos de infeção.
Neste momento, não há uma vacina contra a tuberculose para adultos, apenas uma para crianças.

Lucica Ditiu, diretora executiva da Parceria Stop TB, admitiu estar “enojada” por estes números e pela discrepância na forma como as duas doenças são encaradas.

“O facto de voltarmos a números de 2013 e termos tanta gente a morrer, isto enoja-me”, disse Ditiu. “Estou indignada que apenas por não ser capaz de controlar o que fazemos e o esquecimento de programas que já existem, se venha a perder tanto, começando com a perda de vidas”, reforça.

“Olhamos com espanto para uma doença que, com 120 dias de idade tem mais de 100 candidatas a vacinas na forja”, argumenta. “Em 100 anos, tivemos uma vacina e temos duas ou três potenciais vacinas a ser equacionadas”, desabafa.

“Tememos que os investigadores invistam apenas numa vacina para a Covid. Está na agenda de todos e poucos estão focados nas outras doenças. Não temos vacina para a tuberculose, não temos vacina para o HIV e não temos vacina para a malária. A tuberculose é a mais antiga [doença]. Porquê esta reação? Penso que é por sermos um mundo de idiotas. Que mais posso dizer?”, diz Lucica Ditiu, em declarações a The Guardian. A tuberculose mata 1,5 milhões de pessoas por ano, mais do que qualquer outra doença infeciosa.

Nos últimos anos, a luta contra a doença tem beneficiado de um declínio sustentável de casos, em resultado de mais serviços para tratar a doença e prevenir a propagação.

Há cinco anos, os líderes mundiais assumiram o compromisso de travar a epidemia de tuberculose até 2030. Numa reunião de alto nível em 2018, prometeram fazer escalar a resposta, duplicando o financiamento até 2022.
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