Morte de Soleimani faz parte de nova grande estratégia norte-americana de dissuasão, explica Pompeo

por Andreia Martins - RTP
“Estamos a restaurar a credibilidade da nossa dissuasão”, defendeu o secretário de Estado norte-americano sobre as ações dos EUA no Médio Oriente Tom Brenner - Reuters

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, delineou num discurso a grande estratégia dos Estados Unidos para conter o Irão e outras ameaças. O responsável máximo pela diplomacia norte-americana não fez referência à questão de “ameaça iminente” que justificou num primeiro momento a morte do general iraniano Qassem Soleimani.

Num discurso no Instituto Hoover da Universidade de Stanford, na segunda-feira, o secretário de Estado norte-americano não mencionou no seu discurso a ameaça de “ataques iminentes” planeados por Soleimani para justificar a morte do general. 

A exposição de Mike Pompeo, “A restauração da dissuasão: O exemplo do Irão” (The Restoration of Deterrence: The Iranian Example) centrou-se na doutrina dos Estados Unidos para o Irão e outros inimigos: “dissuasão real”, numa campanha de “isolamento diplomático, pressão económica e dissuasão militar”. 

“Quero explicar o contexto do que estamos a fazer. Existe uma estratégia mais ampla”, disse o secretário de Estado norte-americano, acrescentando que a importância da dissuasão na política norte-americana “não está confinada ao Irão”. 

“Em todos os casos, devemos deter os nossos inimigos para defender a nossa liberdade”, disse ainda, referindo a ajuda concedida à Ucrânia para enfrentar a ameaça russa ou a recente retirada por parte dos Estados Unidos de um acordo para o controlo de armas com a Rússia (o programa START), e ainda os novos exercícios navais norte-americanos no Mar da China em resposta à China. “Estamos a restaurar a credibilidade da nossa dissuasão”, completou. 

No caso do Irão, Mike Pompeo explicou que o objetivo da Administração Trump é, por um lado, retirar ao país os seus recursos “de que precisa para as suas atividades malignas no mundo”, e por outro lado, “só queremos que o Irão se comporte como uma nação normal”. 

Durante várias décadas, as administrações norte-americanas de ambos os partidos políticos não fizeram o suficiente para conter o Irão e fazer a dissuasão necessária para nos manter a salvo. […] O acordo relativo ao programa nuclear piorou tudo. Permitiu ao regime criar riqueza, abriu fluxos de receita para os ayatollahs construírem redes de milícias xiitas. (…) Em vez de bloquear esses esforços, o acordo deixou ao Irão um caminho para a obtenção de armas nucleares”, salientou Mike Pompeo. 

O secretário de Estado fazia referência ao entendimento assinado por várias potências em 2015, ainda durante a Administração Obama, que visava conter o poderio nuclear de Teerão, acordo do qual os Estados Unidos se retiraram unilateralmente já sob a liderança de Donald Trump, em maio de 2018.

Em concreto, sobre Soleimani, o ex-diretor da CIA sublinhou que só Osama bin Laden tinha “mais sangue americano” nas suas mãos. O general iraniano “matou mais de 600 norte-americanos” e “ordenou o ataque à Embaixada” norte-americana no Iraque, a 31 de dezembro, sublinhou.

“Posso assegurar-vos que o mundo está mais seguro com o facto de ele não representar mais nenhum risco”, acrescentou. 

No entanto, o secretário de Estado norte-americano só fez referência direta às “ameaças iminentes” quando questionado sobre o assunto pela audiência. 

“Havia, de facto, uma série de ataques que estavam a ser planeados por Qassem Soleimani”, disse o responsável máximo da diplomacia norte-americana, referindo-se à justificação apresentada nas últimas semanas pela Administração Trump para explicar a morte do general iraniano. 

“No meu entender o Presidente tomou a decisão correta. Foi o que lhe recomendei”, acrescentou ainda em resposta a uma questão da audiência. 
"Isso não importa realmente"
Desde a morte de Qassem Soleimani a 3 de janeiro, vários responsáveis norte-americanos – do Partido Democrático e mesmo do Partido Republicano – têm desafiado a Administração Trump a revelar as informações obtidas sobre os ataques “iminentes” que terão justificado tal ação. 

Em concreto, o Presidente norte-americano afirmou no passado fim de semana que Solemani estava a planear potenciais ataques a quatro Embaixadas no Médio Oriente, mas não apresentou quais as provas que conduziram a essa conclusão e motivaram o próprio ataque. 

No último domingo, o secretário de Defesa, Mark Esper, afirmou que não tinha tido acesso a informação sobre os “ataques iminentes” planeados por Soleimani às Embaixadas norte-americanas. 

“O Presidente não referiu uma prova em concreto e eu não vi nenhuma, no que diz respeito às quatro embaixadas”, admitiu Mark Esper, numa entrevista ao canal norte-americano CBS News. 

Acrescentou, no entanto, que as embaixadas “são lugares de destaque da presença dos Estados Unidos num país”, pelo que considera que esses ataques seriam prováveis. 

Num tweet, o próprio Presidente norte-americano respondeu na segunda-feira às dúvidas sobre as provas que estiveram na origem do ataque contra Soleimani.

“Os media de fake news e os seus amigos democratas estão a tentar determinar se os futuros ataques do terrorista Soleimani eram ou não ‘iminentes’ e se a minha equipa estava ou não de acordo. A resposta para ambos é um forte SIM. Mas isso não importa realmente, tendo em conta o seu passado horrível”, escreveu.



O jornal The New York Times destacava na segunda-feira a tentativa por parte de Donald Trump em colocar os democratas ao lado do regime iraniano. 

“Quando os democratas tentam defendê-lo [a Soleimani], é uma desgraça para o nosso país. Eles não podem fazer isso. E deixem-me dizer-vos que é algo que não está a resultar muito bem para eles, politicamente”, frisou o Presidente norte-americano, em declarações aos jornalistas.

Ainda na segunda-feira - no início de uma semana em que Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes, deverá entregar ao Senado os dois artigos de impeachment contra Donald Trump - o Presidente norte-americano aproveitou para atacar altas figuras do Partido Democrata no Twitter, incluindo com a republicação de uma imagem editada de Nancy Pelosi e de Chuck Shummer, líder democrata no Senado, com um turbante e um lenço na cabeça e com a bandeira iraniana em pano de fundo. 



“Os democratas corruptos estão a dar o seu melhor para vir em socorro do ayatollah”, diz ainda o retweet do Presidente. 

A presidente da Câmara dos Representantes tem sido uma das vozes mais críticas quanto à ação de Donald Trump, tendo considerado que a morte de Qassem Soleimani veio arriscar “uma perigosa escalada de violência” que teve por base informações questionáveis. 

Na passada quinta-feira, o Partido Democrata fez valer a maioria na Câmara os Representantes para aprovar uma proposta que visa retirar poder ao Presidente para lançar novos ataques sem autorização do Congresso. A resolução terá agora de ser votada no Senado. 

 c/ agências internacionais
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